Como, só eu é que fiquei de fora?

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Por Millôr Fernandes

À proporção que, urbi et orbe, verificamos estar, afinal, vendo realizado o ideal de Wendel Wilke – Um mundo só – e percebemos que o mundo inteiro se revela uma malta de corruptos e de corruptores, estranhamento cessa qualquer indignação moral de nossa parte e somos tomados por uma imensa frustração.

Quer dizer que só nós não valemos nada? Só a mim não oferecem uma comissão na venda de doze Hércules-130, um chega-pra-lá pra fingir que não estou vendo um porta-avião entrando no porto, carregadinho de Starfighters a preço de banana, só a mim não me mandam uma caixa de dólares – eram enviados em caixa, os dólares! – pra achar que os P-3C Orion são uma verdadeira miragem (em francês: Mirage)!

Só de mim a Lockheed não se lembrou, que é que há? Até o príncipe Bernardo, seu! Com aquele jeito manso, aquela altura honesta, aqueles óculos de professor universitário medíocre! E vocês pensam que houve grande revolta nos Países Baixos? Que nada! O pessoal apenas comentou, de passagem: “Sempre foi o nosso melhor vendedor”.

Onde é que eu vivi esses anos todos que não percebi que, em torno de mim, tava todo mundo recebendo algum pra matar o bicho, levando o seu, pegando o pourboire? Como dizia Ademar, nos seus bons tempos, a um fornecedor perplexo, que bem poderia ter sido eu: “Que é que é isso, meu filho? Por que essa cara espantada? Vai dizer que um homem da sua idade nunca ouviu falar em dez por cento?”

Eu nunca tinha ouvido falar. Nessa escalada de jabaculê, nunca! Mas agora, de repente, sei. Aprendi rápido: Nixon, naquele encontro com Chu En-lai, trocou Chang Kaichek por Ho Chi Minh e ainda deu de volta três pandas brancas; Selassié levava um cala-a-boca por rifle adquirido a qualquer preço com pagamento em cinquenta e cinco anos; Chang Kaichek, o falecido e já citado, e sua inefável madame se “distraíram” em três e dois bilhões que os Estados Unidos emprestaram ao casal; eu li isso na biografia de Truman, aquele camiseiro do Wisconsin ou Idaho, sei lá, e empregaram uma boa parte dessa nota em especulação imobiliária em São Paulo.

Tudo isso, é claro, não só me abala o último 0,003 por cento que ainda me restava de fé no ser humano como, mais importante, me deixa com esta cara de pateta de quem perdeu o trem da vida.

E, enquanto o sol poente cai ali por trás da cordilheira do Leblon, não posso deixar de ficar pensando em qual será o número da conta numerada de Mao, na Suíça.

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