Com a nega, nos provadores

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Por Xico Sá

Nada mais elevado para a alma masculina, nestes tempos de delicadezas perdida, do que sair com a sua Marília bela para comprar roupas. Melhor, comprar vestidos, sobretudo vestidinhos. Modinhas de fêmea, como antigamente.

Segui-la não como um simples coadjuvante, mas como um Dirceu determinado, influente, participativo, a ponto de saber apontar a distinção de um “veludo devorado”, ou de uma chita estampadinha.

Capaz de reconhecer, de longe, da calçada da loja, um falso couro ou admirar jérseis estampadinhos. Melhor: imaginar a gazela, saltitante, dentro daquele tomara-que-caia que revela as saboneteiras e omoplatas mais nobres desse mundo.

Homem o suficiente para sugerir, decidido, diante do vacilo consumista da amada, um top de látex de um estilista sadomasoch qualquer. Ou simplesmente acertar na compra de um tricozinho básico, mesmo não dando a mínima para essa tal usina fogo morto do efêmero.

O recomendável é não circunscrever essa atitude a datas, como aniversários, por exemplo, mas torna-se um verdadeiro voyeur de provadores em lojas, magazines e feiras da cidade. Nada mais enlouquecedor do que reparar a nega em novos trajes, mesmo que a danada só confie mesmo no espelho.

O ato não vale se tiver apenas o objetivo consumista cardioliberal (tipo Dia dos Namorados). Falamos de um outro serviço, outra delicadeza, que não depende de nenhum cronograma.

Com isso, não estaremos inventando nada, apenas resgatando uma atitude que fez parte do mundo dos nossos avós. Principalmente nos grotões do interior, onde eles escolhiam, desde os tempos do dotô Delmiro Gouveia, os mais belos tecidos nos tabuleiros das Casas Pernambucanas. Ou corriam em busca das chitas mais psicodélicas nos balaios das feiras do agreste e sertão.

Em Vidas secas, Fabiano vai à cidade para adquirir panos para cobrir lindamente a sua costela amada. Coisa linda, Pereira.

E digo mais: Dirceu que é Dirceu reconhece o barroquismo de um Lacroix somente para impressionar a moça na fila de espera. E compra mais em conta na Theodora, refinados corações.

Homem que é homem é capaz de distinguir uma transparência Dolce & Gabbana de um explícito Versace, mesmo que não tenha grana para comprar nem mesmo um corte estampado na feira da sulanca de Caruaru.

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