Código de ética mínimo

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Por Millôr Fernandes

Como a luta vai ser braba (se vocês perceberam, lendo até aqui) e há um pega-pra-capar por um lado, sugiro a implantação de uma ética básica, recomeçando pelo início. Senão, não vai. Como está, não dá mais. Vamos todos fazer um esforço pra respeitar regras mínimas, que diabo!

Bater carteiras não vale.

Ladrão do erário público, apanhado em flagrante, não pode alegar posições ideológicas como atenuante.

Ministro, governador e prefeito prometem, de hoje em diante, não abandonar o cinismo, que isso é querer demais, mas abrandar o cinismo, quando há tanta gente literalmente morrendo de fome no país.

Ninguém pode falar em nome do povo e de seu sofrimento e cobrar direitos autorais por isso.

Não é só uma questão de homens públicos apresentarem declarações de bens. Esses bens têm limite. Homem público, além de casa própria, que não deve exercer, digamos, cinco mil metros quadrados, também não deverá ter, no banco, mais de cento e cinquenta milhões de cruzeiros.

O uso de jatinho especial e três mansões com consequentes mordomias no eixo Rio-São Paulo-Brasília é incompatível com qualquer afirmativa de apoio a mudanças estruturais tais como o pobre poder comer.

Cantores e compositores populares firmem o compromisso (que não precisa ser solene, pode ser entre uma talagada e outra) de cantar e compor suas músicas, receber seus altíssimos dividendos e voltar tranquilamente pra suas piscinas e campos particulares de futebol e tênis, obrigando-se apenas, em contrapartida, a jamais usar a expressão: “Eu realmente não sei lidar com dinheiro”.

Jovens (?) senhoras que aparecem desnudas em revistas demi-pornographiques podem se mostrar orgulhosas do que possuem pra mostrar e do que ganham pra fazê-lo, mas devem prometer não mais teorizar sobre o fato com razões sócio-bestialógicas.

Ficam temporariamente suspensas todas as indignações tipo esprit-de-corps: “Ofendeu a justiça”, quando você chamou um meirinho de calhorda; “Precisamos desagravar a honra militar!”, quando você descobriu que o major síndico do seu prédio enruste algum dos condôminos; “Os fisioterapeutas sentem vergonha de entrar em casa depois das alusões da TV!”, quando esta ironiza uma dessas inúmeras “massagistas” que andam por aí; “Precisamos acabar com o racismo no Brasil!”, quando você descobre que o representante de uma minoria racial aplicou no open o dinheiro do Sindicato dos… (cala-te, boca!)

Quando apanhadas com a boca na botija, altas autoridades concordam em, pelo menos, dividir conosco (a sólida, gloriosa, impoluta imprensa) o montante do “confisco”.

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