Chifre e vida: modos de usar

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Por Xico Sá

A obsessão nordestina pelo chifre e os seus arredores dolorosos tem no carnaval pico de doideira e plenitude. São quilômetros de homens vestidos de ursos, símbolos manhosos do tema – em Pernambuco não se diz Ricardão ou quaisquer outros genéricos e aumentativos. Na terra de Calabar, diz-se urso. E pril. São mais tantas léguas de homens e mulheres vestidos de touros chifrudos.

São canções de chifres, cheiro de chifre queimado, essência de chifre, chifre enquanto adorno, chifre contra o azar do mau-olhado ou mau-pagador, chifre no alto da prateleira da última bodega perdida (onde também se lê, letras garrafais na tinta fresca, CHIFRE É PRA HOMEM, BOI USA DE ENXERIDO!), chifre na roça para espantar todas as pragas, chifre de verdade, gaias do imaginário.

Terá sido uma herança ibérica, como tudo que é bom, que é mais ou menos, ou mesmo tudo que não presta? Aliás, já repararam como tudo no Nordeste, na boca de entendidos, termina em louvor ou culpa dos ibéricos?

Mas o que vale é a obsessão pelo tema. O aboio brega de Alípio Martins e o seu “Lá vai ele, com a cabeça enfeitada…”. As canções de Bartô Galeno, que hiperbolizou, nas vogais nasaladas, o sofrimento do rei Roberto.

Talvez exista nessa obsessão um habeas-corpus preventivo. Um reconhecimento de que qualquer um está sujeito, no olho na vulnerabilidade cornífera. Basta estar vivo. E chifre é como a morte – se estamos vivos, estamos na mira. O velho Vandeck Santiago, escriba de Pesqueira (PE), se benze todo!

Uns suportam à custa de muita cachaça, aspirina de corno. Outros saem doidos mundo afora, para esquecer o terreiro, êxodo doloroso, fuga da aldeia e dos comentários. Assim a história nos deu o glorioso e um dos padroeiros desse periódico, Antônio Conselheiro. Traído pela digníssima, o beato largou a sua Quixeramobim, no Ceará, e partiu sertões adentro até sentar praça no arraial baiano.

Noutros casos, como o do bravo Euclydes da Cunha, o coro grego falou mais alto. Dilermando, amante de Ana de Assis, tirou a vida do repórter de Canudos.

E tantas e tantas mortes anunciadas, no mundo dos traidores ou dos traídos, fazem parte desse caderno da infância e das histórias das desconfianças humanas – no agreste de Pernambuco, creio que em Bezerros, a cidade cobrava tanto e vingança de um marido traído que o desalmado sangrou o inimigo sentimental e bebeu, naqueles copos “engana-bebo”, no mesmo que bebera a aguardente da coragem final!, o sangue frio da vingança. Crime anunciado, velho Santiago Nasar.

Entre a folia dos ursos manhosos e o nosso parentesco com os gregos, que os carnavais sejam leves. Tanto para os que botam chifre quanto para os que levam. E principalmente para os que pensam que levam – esta última categoria é seguramente a mais periculosa.

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