Chapéu de touro

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Por Xico Sá

Copa do Mundo e estabilidade amorosa têm mais a ver do que imaginam a crônica de costume e demais fofocaiadas de rotina, caríssima Francesa, jovem sopradora deste mote: o fantasma do chifre destrói qualquer ambiente.

No futebol, então, cenário infinitamente mais machista e testosteronizado, é um desastre, o medo do avante ou do goleiro diante da fronte adornada. Gol contra nos descontos, morte súbita da suposta macheza.

A grande vítima de tal desastre foi o Ronaldinho versão França 98, cuja gazela pisava nos astros distraída enquanto o moço de muitos milhões da Nike tentava, em vão, acertar os barbantes inimigos. O flerte da nega com certo D. Juan global amofinou o rapaz, que perdeu a graça com o ludopédio, escanteados corações.

Agora o danado se supera. Mesmo sem as canetas em ordem física, desfila em campo, apolíneo, sem o peso sobre a testa, na qual diagrama uma meia-careca moicana desconcertante.

O chifre sempre foi um dos fundamentos do futebol. Tão importante quanto o treino de dois toques. São tantas concentrações, viagens, calendário puxado, que exigem do boleiro muito equilíbrio, pés no chão. Não pode nem começar em pensar em tal tragédia. Começou, sabe como é, foge da toca, e faz besteira ao lavrar o inevitável e sangrento flagrante.

Sábio era o velho Didi, na Suécia 58. Mandou buscar a sua bela Alzira em casa. Só jogava com a nega de lado. A então CBD (hoje CBF) teve de se curvar diante da exigência. E aí, seu garçom, qual foi o resultado do futebol? Caneco inaugural pro escrete de ouro.

País cujas tragédias populares estão marcadas pelo chifre, o Brasil não poderia escapar à maldição na hora de trocar os cérebros pelos pés (segundo Millôr, essa é uma troca definitiva, nada simbólica). Sem vorta.

No capítulo dos cérebros, o desastre não foi menos vexaminoso, vide lista de vítimas de chifres históricos: Antônio Conselheiro correu de Quixeramobim, Ceará, depois de um corno bem-botado, vagou sertões até o arraial baiano: o narrador-mor de tal fato, Euclydes da Cunha, mesma lida, toitiço enfeitado por galhos outros: o impeachment de Fernando Collor também passou pela “gaia-ciência”, com um Pedro, à semelhança do xará primeiro do Império, engambelado ou supostamente corneado, sabe-se lá.

Lindo, pois, que os nossos heróis da Copa estejam com frontes em ordem. Eis a razão do primeiro triunfo do XXI.

Para completar, o outro R do esquema da seleção mestiça, sábio pernambucano que é, nunca deixou a defesa a descoberta. Sempre fiel à velha companheira que trouxe dos tempos de vacas magras do Brasil, não se arriscou à vagabundagem de namorar marias chuteiras e/ou loiras em geral. Rivaldo, que tem passadas que lembram a esqueletice da Gisele Bundchen, sabe das coisas. Embora a sabedoria nordestina diga que chifre é coisa pra homem, boi usa de enxerido…

As frontes de nossos atletas lhes foram leves. Os alemães sofreram como um time de 11 Werthers em campo. Como dizia o próprio jovem trágico, “meu bom amigo, o que é o coração do homem!”.

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