Cerimônia do beija-pés

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Por Xico Sá

Todo devoto que se preze deve começar o seu feitio de oração pelos pés da gazela. É chegada a hora de celebrar, com súplicas, rezas, ladainhas, benditos e antigas elegias de Jorge Bem – Jesualda desceu o morro! – o veraneio dos pezinhos. Eles já desfilam por aí, no mais legítimo gozo do direito de ir e vir.

Como Bebetes suburbanas, com lindas sandálias para enfeitar as calçadas, a matinê e o baile soul. Como Lucianas, personalíssimas Domingas, Jesualdas, Barbarelas, todas as musas de Botafogo, Pavuna, Andaraí, São Cristóvão, Engenho de Dentro, Andreinha Furacão.

A queda do homem por pés e sandálias começa – arrisco um Freud (ou Dr. Scholl?) rápido – quando nos deparamos, ainda infância, com a pequena colega de classe, que já desfila a bordo da sua irresistível “francesinha”.

Daí por diante, é um alumbramento atrás do outro. Passamos o verão cabisbaixos, mirando as melissas, as arezzos, as trançadas, as hippies, as que amarram e as que não soltam as tiras. Nada mais sublime nesse mundo do que o instante em que a sandália fica meio dependurada, sustentada ao pé por um invisível e milagroso fio de lirismo, situação que permite o deleite da solinha, como me soletrou, em pleno expediente da gazeta onde ganho a cachaça, um Pereira de Ribeirão Preto.

É o que poderíamos chamar de luxo, conforto e riqueza em um ambiente cinco estrelas!, como afirma Pereira, o próprio, leso e boquiaberto diante das beldades. O monstro, aliás, não dispensa nem mesmo aqueles pezinhos de manequins de vitrine.

Não é à toa que quase todas as suas calças se rasgam ou estragam nos joelhos. De tanto beijar pé de moça, promessa ou devoção, em festas, pista do Love Story ou terraços menos familiares.

Pereira sabe que mulher é metonímia – sempre elegemos uma parte pelo todo – e o pé é certamente o corte mais contemplado no farto açougue. Sem esquecer sempre uma bela saboneteira, uma omoplata, um antebraço, um pescoço, um joelhinho, um cotovelo cinza de tanta espera.

Por essa e outra razão é que decretamos e revogamos as disposições em contrário: definitivamente não existe mulher feia. Sempre encontramos, nos mais inesperados pedaços da anatomia, um ponto de encantamento capaz de provocar um inexplicável razão de viver.

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