Caso Delmo: A vingança dos motoristas

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Por Simão Pessoa e Antônio Diniz

Mesmo decorrido tanto tempo daqueles infaustos acontecimentos ninguém sabe até hoje o que realmente aconteceu na madrugada daquela quinta-feira, dia 31 de janeiro – e o único que poderia falar com propriedade sobre o assunto (o estudante Delmo Pereira) foi torturado barbaramente até a morte alguns dias depois. O desdobramento posterior da tragédia, entretanto, pode ser contado com um razoável grau de veracidade.

Nos dias posteriores aos dois crimes, era visível na cidade um clima de revolta por parte dos motoristas, que faziam severa vigilância em cima dos passos da Polícia e criticavam abertamente sua tolerância em relação ao assassino confesso. Reunidos no Bar Lanche do Pará, localizado em frente ao Banco do Brasil, na Praça da Matriz, os choferes de praça desconfiavam de que com o dinheiro que a abastada família do estudante possuía dificilmente ele seria punido. Começou a pregação de que eles deviam tomar a iniciativa para fazer com Delmo Pereira o mesmo que ele havia feito com José Honório, na base do “olho por olho, dente por dente”.

Naqueles primeiros dias de fevereiro, já percebendo a animosidade que tomava conta do ânimo dos motoristas, o radialista Josué Cláudio de Souza, por meio da “Crônica do Dia”, na Rádio Difusora, sempre às 12h, que possuía uma inacreditável audiência na cidade, fazia apaixonados comentários sobre o caso e apelava para que as autoridades não deixassem o caso ficar sem uma punição exemplar. Para o respeitado radialista, “Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Manaus, haveria de iluminar o entendimento dos homens a fim de que um crime bárbaro como aquele nunca mais voltasse a se repetir.” Ao mesmo tempo, o radialista solicitava que a classe de motorista exercesse seu direito de fiscalização e de exigir justiça, mas sempre sob a égide da lei. Conhecedor das mazelas humanas, Josué Cláudio de Souza percebia claramente que, naquele ritmo, uma tragédia se anunciava no nosso horizonte.

Os depoimentos contraditórios do estudante, que ora assumia o crime sozinho, ora afirmava que estava na companhia de uma ou duas pessoas, começaram a irritar os investigadores. Nesse meio tempo, uma comissão de motoristas esteve no gabinete do governador Álvaro Maia para pedir justiça e exigir os nomes dos demais envolvidos no crime. Os motoristas suspeitavam que os demais cúmplices do estudante, a exemplo do próprio Delmo, eram ilustres membros das famílias mais abastadas da cidade e, como tais, fadados à impunidade. Para colocar a história em pratos limpos, o próprio estudante sugeriu que fosse submetido ao “soro da verdade”. Na madrugada de 4 de fevereiro, Delmo Pereira foi transferido para o Serviço de Socorros de Urgência (SSU), localizado na rua Joaquim Nabuco, para ser submetido ao “soro da verdade” e a um novo interrogatório policial.

A demora da Polícia Civil em identificar – se é que existiam – os demais cúmplices de Delmo Pereira no assalto à serraria Pereira e no assassinato do taxista José Honório, haviam transformado a cidade num barril de pólvora. Só faltava alguém para acender o rastilho. Um motorista do Serviço de Socorros de Urgência (SSU), Silvio Oliveira, tomou para si essa incumbência. Solidário à classe, ele procurou alguns motoristas e se prontificou a telefonar para a Garagem Esportiva no momento em que o estudante estivesse deixando aquele hospital, após ser submetido ao “soro da verdade”.

Funcionário do Instituto Médico Legal, o enfermeiro Manuel Rodrigues, conhecido como “Gavião”, chegou às 9h da manhã do dia 5 de fevereiro, para dar expediente no SSU. O estudante Delmo Pereira já estava no local desde a madrugada. O enfermeiro presenciou uma discussão áspera, por telefone, entre o Dr. Carlos Frederico, diretor da unidade hospitalar, e o chefe de Polícia, Dr. Rocha Bastos, a respeito da presença do estudante naquele local.

– Eu sei que é ordem do governador, mas vocês estão nos criando um problema muito sério! – exasperava-se o diretor. – Nós não temos como garantir a integridade dele aqui, nem a dos outros pacientes, no caso de acontecer uma invasão à base da força. Vocês não têm ideia de como está o clima entre os choferes da cidade!

Para mostrar que a preocupação do diretor era infundada, o chefe de Polícia, Manoel Rocha Barros, dirigiu-se até o SSU naquela manhã e comandou pessoalmente uma nova experiência: fez o enfermeiro Gavião se enrolar em um lençol branco e ser colocado em uma ambulância, como se fosse o estudante Delmo Pereira. O próprio chefe de Polícia se aboletou no banco da frente, junto ao motorista, disfarçando-se de enfermeiro para não ser reconhecido. A ambulância deixou o SSU e foi até as imediações da Penitenciária do Estado, voltando em seguida pela Sete de Setembro, entrando na Joaquim Nabuco e indo até a Praça dos Remédios. Com exceção das vaias dadas por alguns populares, nada de mais grave aconteceu. O Dr. Rocha Barros desceu da ambulância, no canto das ruas Joaquim Nabuco e José Paranaguá, e foi para a sua residência. A ambulância desceu a José Paranaguá, contornou o Cine Guarany, na avenida Getúlio Vargas, subiu a Sete de Setembro e retornou ao SSU.

Por volta das 18h, a ambulância saiu para prestar socorro a uma pessoa que tinha sido esfaqueada na avenida São João, no bairro do Imboca. A vítima foi levada para o SSU, mas em virtude da gravidade do ferimento foi imediatamente transferida para a Santa Casa de Misericórdia. Quando a ambulância estacionou na Santa Casa para fazer a remoção do ferido, o enfermeiro Manuel Rodrigues viu um cidadão se aproximar e olhar para o interior da ambulância, como se procurasse alguém. Na volta para o SSU, o enfermeiro também percebeu que havia muitos automóveis estacionados na rua Ferreira Pena, perto da Santa Casa, e que começaram a trafegar lentamente quando a ambulância saiu. No SSU, Manuel Rodrigues relatou o ocorrido ao comissário Luiz Bastos, que estava no local para supervisionar a remoção de Delmo para o QG da Polícia Civil, na rua Guilherme Moreira.

– É, Gavião, a gente já sabe que esses motoristas estão querendo aprontar alguma confusão, mas fique frio que eles estão sendo monitorados! – tranquilizou o comissário.

Luiz Bastos chamou o investigador Eliseu Moreira, que estava de sentinela na porta do quarto do estudante, e avisou para ele se preparar, que a remoção de Delmo seria feita às 19h. No horário estipulado, Eliseu chamou o estudante para que o acompanhasse até a ambulância, mas percebeu que Delmo ainda estava um pouco perturbado, talvez sob o efeito do “soro da verdade”. O investigador calçou os sapatos do estudante e, lhe amparando com um dos braços, o ajudou a entrar na ambulância. O comissário Bastos trancou a porta da ambulância, entrou numa caminhonete e foi embora.

O motorista Francisco Lotif estava escalado para dirigir a ambulância. O motorista Silvio Oliveira, que acabara de telefonar para a Garagem Esportiva, resolveu acompanhar a remoção e sentou-se ao lado dele. O enfermeiro Manuel Rodrigues sentou-se ao lado de Silvio, indo na janela. O veículo começou a se movimentar lentamente, mas, próximo dos pilares da porta de saída do hospital, o motor estancou. O motorista, aproveitando a embalagem, debreou e acelerou, e o motor voltou a pegar. Silvio, encarregado de acionar a sirene, deu duas “sirenadas”, como se fosse um aviso. Mal a ambulância começou a se movimentar na Joaquim Nabuco, voltou a estancar.

– Será que é falta de gasolina? – perguntou o motorista Lotif, enquanto debreava e acelerava, até fazer o motor pegar no “tranco”. Silvio respondeu que talvez o estrangulador estivesse puxado.

– Ali no Canto do Quintela estão parados mais ou menos uns trinta choferes! – alertou o enfermeiro Gavião.

Ao ouvir aquilo, o investigador Eliseu, que estava dentro da ambulância, ficou assustado:

– Você escutou essa conversa aí da boléia? – perguntou ele a Delmo.

O estudante, ainda meio grogue, assentiu afirmativamente com a cabeça. A ambulância continuou seu itinerário, sempre em baixa velocidade, mas com a sirene ligada. Desceu a Lauro Cavalcante, dobrou à esquerda na Getúlio Vargas e, em frente ao Cine Polytheama, quando se preparava para dobrar à direita na Sete de Setembro, o veículo subitamente parou. Eliseu foi surpreendido com pancadas sendo dadas na parte traseira da ambulância até que ambas as portas se abriram. Dezenas de motoristas cercavam o veículo. O investigador tentou fechar as portas puxando as correntes que elas possuíam na parte interna, sendo ajudado na tarefa por Delmo Pereira, mas, para azar deles, as portas fecharam ao contrário, ficando superpostas.

Com a ajuda de chaves de fenda e pedaços de paus, os motoristas forçaram a pequena abertura entre a superposição das portas e conseguiram, de novo, abrir a ambulância. Eliseu levou um murro e caiu no chão meio atordoado. Ele foi puxado pelas pernas e retirado da ambulância, sob uma saraivada de tapas e pontapés. Gritando por socorro, Delmo ainda conseguiu pisotear no rosto de alguns motoristas, que queriam subir na ambulância, antes de ser imobilizado pela gravata de um deles e ter sido arrastado à força para fora do veículo. Ele foi colocado dentro de um carro, que desceu a Sete de Setembro em alta velocidade, na direção da Av. Eduardo Ribeiro. Eliseu correu até a Chefatura de Polícia e relatou o ocorrido. Os policiais civis se dirigiram ao Quartel da Polícia Militar para conseguir reforços.

O advogado e repórter policial Manuel José Antunes da Silva estava na redação do jornal A Crítica quando chegou a notícia de que os taxistas haviam assaltado uma ambulância do SSU e sequestrado o estudante Delmo Pereira, quando este estava sendo conduzido para a Chefatura de Polícia. O carro utilizado na fuga era um Hudson cinza. Solidários ao colega sequestrado, os estudantes estavam ameaçando incendiar a cidade. O jornalista saiu da redação de A Crítica, na rua José Sarmento, e se dirigiu para a avenida Eduardo Ribeiro, onde encontrou o jornalista Epaminondas Baraúna, do Jornal do Comércio, que também havia acabado de tomar conhecimento sobre o sequestro do estudante. Os dois apanharam um carro e se dirigiram para as proximidades do Colégio Estadual do Amazonas. A multidão havia interditado o cruzamento da Getúlio Vargas com a Sete de Setembro. Vários ônibus haviam sido abandonados no local. O trânsito estava congestionado.

Manuel Antunes soube que o chefe de Polícia, Manoel Rocha Barros, estava naquele momento no Quartel da Polícia Militar, na Praça da Polícia, onde fora buscar alguns policiais para sair ao encalço dos choferes, e para lá se dirigiu. Como desfrutava de certa intimidade com seu xará, Manuel Antunes foi logo perguntando:

– O senhor já prendeu os condutores da ambulância, para saber que diabo está acontecendo?

– Não, ainda não! – respondeu o chefe de Polícia. – Mas me faz um favor. Leva esses dois policiais civis com vocês até o SSU e pede para comparecer na Chefatura de Polícia o motorista da ambulância, de nome Lotif, um enfermeiro de apelido Gavião e um outro motorista de nome Silvio.

Os jornalistas obedeceram. No SSU, o quarteto ficou sabendo que o enfermeiro Gavião tinha tomado rumo incerto e não sabido. Os dois motoristas, Francisco Lotif e Silvio Oliveira, foram conduzidos à Chefatura e entregues ao comissário de Permanência. Os quatro, então, partiram ao encontro do chefe da Polícia, subindo pela avenida Sete de Setembro, passando pela Cachoeirinha, até encontrarem o carro ocupado pelo policial, que se dirigia para a estrada de Flores através da rua Recife.

Ao passar pela rua Carvalho Leal, nas proximidades da rua J. Carlos Antony, Manuel Antunes notou parado na porta de uma das casas um carro Hudson cinza, sem placa, bastante enlameado, cujas características coincidiam com a do carro que, segundo estava informado, havia conduzido Delmo Pereira após o assalto da ambulância. Ele sugeriu aos policiais civis que procurassem identificar melhor aquele carro, mas não insistiu no assunto. Julgou pouco provável que o carro dos raptores já estivesse de volta à cidade em tão curto espaço de tempo.

Conversando com Rocha Barros, que estava mais perdido do que cachorro quando cai do caminhão de mudança, o experiente repórter policial informou que o lugar mais provável para uma chacina seria a Colônia dos Franceses, dado a dificuldade de acesso ao local. O chefe de Polícia acatou a sugestão do repórter e para lá se dirigiu. O jornalista Epaminondas Baraúna deixou o veículo do quarteto e aboletou-se num caminhão que estava conduzindo policiais militares armados de baionetas caladas.

Quando passavam em frente à Capela de São Geraldo, no cruzamento da estrada dos Bilhares com a avenida João Coelho, a pequena comitiva percebeu cinco automóveis vindos em alta velocidade da estrada velha de São Raimundo. Rocha Barros obrigou seu motorista a atravessar o carro deles no meio da rua, impedindo a passagem dos veículos suspeitos.

Em seguida, Rocha Barros desceu do carro com uma arma na mão e obrigou todo mundo a sair de dentro dos carros, com as mãos na cabeça. Os policiais militares revistaram os detidos, mas não encontraram nenhuma arma. O olhar de lince do repórter percebeu que um dos motoristas, José Cesário, apresentava vários salpicos de sangue na roupa, e alertou Rocha Barros.

– Cadê a porra do estudante que vocês sequestraram? – berrou o chefe da Polícia, sem esconder a irritação.

Os taxistas permaneceram calados.

Dirigindo-se ao português Manoel Rodrigues da Cruz, que também tinha em suas roupas duas pequenas manchas de sangue, Rocha Barros encrespou de vez:

– Eu vou perguntar pela última vez – disse, engatilhando o revólver. – Cadê a porra do estudante que vocês sequestraram?

O português tremeu nas bases:

– O homem está numa vereda da estrada dos Franceses, doutor! Todos os meus companheiros sabem onde ele se encontra…

Rocha Barros deu ordem de prisão para os 17 motoristas detidos. Enquanto aguardava a chegada de um caminhão conduzindo soldados da Polícia Especial do Exército, ele solicitou que Manuel Antunes, na companhia de três policiais civis e de outros dois repórteres, Joaquim Andrade (O Jornal) e Ulisses Paes de Azevedo (A Gazeta) entrassem no Jeep conduzido pelo inspetor de Tráfego, que acabara de chegar, e fossem até a estrada dos Franceses, na tentativa de localizar outros taxistas ou o estudante.

Os jornalistas e os policiais percorreram a estrada de cabo a rabo, mas não encontraram nada. Manuel Antunes pediu para o Jeep parar em frente a um casebre e foi falar com os moradores.

– Escuta, meu chapa, vocês perceberam alguma coisa de anormal hoje à noite, aqui nessa estrada? – perguntou ele ao suposto dono da casa.

– Rapaz, meia hora atrás passou por aqui um monte de carros. A gente perguntou o que estava acontecendo e um deles disse “não é nada não, é que estamos de greve…”

– A gente também ouviu gritos e pedidos de socorro vindo daquela direção – disse uma mulher, apontando para o meio do matagal.

Eles resolveram retornar para o lugar onde estava o chefe da Polícia, mas de repente, no meio da escuridão, perceberam que no início de uma das veredas existentes na estrada se encontrava parado o automóvel nº 3 do Palácio Rio Negro, que só era conduzido por autoridades. Entrando na vereda, eles viram o português Manoel Rodrigues da Cruz conduzindo em seus braços o cadáver de Delmo Pereira, enquanto várias autoridades confabulavam.

Atendendo à solicitação de Rocha Barros, Manuel Antunes retornou à Chefatura de Polícia, onde solicitou que fosse enviado ao local um médico legista para efetuar o levantamento cadavérico e um carro funerário para o transporte do cadáver. Ele também avisou ao comissário de Permanência que deviam ser recolhidos e presos, incomunicáveis, os dois motoristas da ambulância. Dados os avisos, o repórter dirigiu-se à redação de A Crítica, para escrever as matérias apuradas.

Mais tarde, quando retornou à Chefatura de Polícia para fazer sua ronda noturna, Manuel Antunes foi convencido pelo comissário de Permanência a levar dois policiais civis para efetuar a prisão do chofer que havia conduzido Delmo Pereira e cujo carro estava parado na rua Carvalho Leal, próximo da rua J. Carlos Antony. Era o mesmo Hudson cinza, sujo de lama, que ele avistara no começo da noite. Apesar de acreditar que não havia nenhuma relação entre o automóvel e o crime do estudante, o repórter atendeu ao comissário. Quando chegaram na referida residência, o circo estava armado. Uma multidão estava em frente à casa do motorista Eugênio Ribeiro de Carvalho, o “Bigode”.

Assim que desceu do carro, o repórter foi “peitado” pelo motorista, visivelmente irritado e nervoso:

– Porra, caralho, cadê a imprensa séria de nossa cidade? – disparou “Bigode”. – A minha mulher deu luz há oito dias, ainda está de resguardo, e, puta que pariu, duas horas atrás uns policiais maus elementos do posto da Cachoeirinha invadiram a nossa casa na marra, sem mandado de busca e apreensão, fazendo o maior escarcéu! A minha mulher quase teve um colapso! Tive que deixar ela com o médico plantonista do SSU, mas se ela vier a falecer vai feder a chifre queimado! Eu juro que vou processar o chefe da Polícia!

Convencido da inocência do motorista, já que ele havia visto o carro estacionado na casa do sujeito antes das 8h da noite, o repórter disse que ia divulgar o acontecido, ensaiou um pedido de desculpas e, em companhia dos dois policiais civis, retornou à Chefatura de Polícia, onde relatou o ocorrido.

Por volta da meia-noite, o plantonista do Posto Policial da Cachoeirinha telefonou para a Chefatura da Polícia solicitando transporte de emergência para a transferência de um taxista que havia sido preso nas imediações do igarapé da Raiz. Como não havia nenhuma viatura disponível, o comissário de Permanência solicitou um novo favor ao repórter Manuel Antunes: que ele utilizasse seu próprio veículo para fazer aquela transferência. Três policiais civis foram designados para acompanhá-lo na missão.

No Posto Policial da Cachoeirinha estava o motorista Pedro Gomes de Souza, vulgo “Mala Velha”, trajando uma roupa de cor branca. No lado esquerdo do paletó havia uma mancha de sangue que tinha, nitidamente, o formato de uma mão espalmada.

– Que porra é essa? – perguntou o repórter. – Não vai me dizer que o senhor levou um tiro no coração…

– Não, doutor, isto foi quando empurraram o menino em cima de mim! – respondeu “Mala Velha”, sem disfarçar o sorriso cínico. O motorista foi conduzido à Chefatura de Polícia e ali recolhido, incomunicável.

Por volta das quatro horas da madrugada, o comissário Bastos resolveu interrogar seis dos motoristas presos na estrada dos Franceses. Mesmo já quase morto de sono, Manuel Antunes resolveu acompanhar o interrogatório, interessado em dar um novo “furo” nos jornais concorrentes.

Na primeira rodada de perguntas, todos negaram tudo.

O repórter avisou a Bastos que havia percebido salpicos de sangue na roupa de José Cesário e que, portanto, ele não podia negar a participação no crime.

Bastos resolveu interrogar de novo o motorista.

– Olha aqui, meu chapa, essas manchas de sangue salpicadas na sua roupa vão te incriminar e você vai para a fogueira sozinho. Ou você quer me convencer que esse sangue não é do Delmo? – avisou o comissário.

Cesário ficou pálido.

– Olha, esse sangue é do Delmo sim, mas eu não tenho nada com isso – apressou-se a esclarecer. – Eu estava perto do Delmo perguntando quem eram os seus cúmplices no assassinato do Zé Honório, quando então ele me respondeu dizendo ‘por favor, não me bate mais, que eu vou contar tudo’. Aí, um chofer de nome Waldemar deu uma bofetada violenta no rosto de Delmo, que já estava sangrando pelo nariz, e então o sangue salpicou na minha roupa.

– E quem matou o estudante? – insistiu Bastos.

– Isso aí eu não posso garantir, mas a primeira facada foi dada pelo “Carioca”! Depois, todo mundo tirou a sua casquinha…

– Quem é “todo mundo”?

– Ah, todo mundo. “Pirulito”, “Puxa Faca”, Vicente, “Bigode”…

– “Bigode”?…

– É, foi ele que dirigiu o Hudson cinza, que levou o Delmo para o matadouro…

O repórter Manuel Antunes ficou irritado. Ele havia colocado as mãos no motorista que conduzira Delmo para a chacina e o deixara escapar. Aquele teria sido um “furo” demolidor.

Por volta das seis horas da manhã, uma equipe policial comandada pelo comissário Bastos estava batendo na porta de Ludgero Sarmento, o “Carioca”, localizada em uma estância nas proximidades da Sub-usina de Bondes, na Cachoeirinha.

De dentro do quarto, uma voz feminina avisou que o motorista havia saído para trabalhar e ainda não havia voltado. Bastos pediu que a mulher abrisse a porta, para eles confirmarem a informação. Silêncio. Dez minutos depois, Bastos avisou que ia utilizar o emprego da força para arrombar a porta e que eles tinham ordem para atirar em quem reagisse. Silêncio.

De repente, uma voz masculina ecoa dentro do quarto:

– Não atirem que eu estou saindo!

Era o motorista “Carioca”. No lado direito de seu rosto ainda havia marcas de sangue seco, que ele se esquecera de limpar.

– Não adiante negar o crime, Carioca! O Cesário já abriu o jogo e disse que você deu a primeira facada! Você está ferrado! – avisou Bastos.

Na mesma manhã, foram presos os motoristas Vicente, Waldemar e Eugênio, o “Bigode”.

Por volta de meio-dia, um oficial do Serviço de Elementos da Fronteira entregou à Polícia Civil uma pistola, uma faca e uma bainha encontradas no porta-luvas do carro do português Manoel Cruz.

No dia 6 de fevereiro de 1952, quarta-feira, o matutino O Jornal trazia na 1ª página a manchete “Terra de Ninguém: quando a crise de autoridade atinge o auge”:

A irresponsabilidade da Polícia determinou a morte horripilante, na noite de ontem, de Delmo Pereira, consumada na colônia dos Franceses por um grupo de choferes igualmente irresponsáveis. A cidade ficou em polvorosa. Protestou a população com veemência, vindo para a rua, em massa, especialmente os estudantes, dispostos a tomar revide. A Polícia apresentou-se, assim, como a principal responsável pelo trucidamento de Delmo Pereira, porque não lhe ofereceu a escolta necessária no seu transporte do SSU para a Central de Polícia, mesmo sabendo que as notícias dos jornais serviriam de aviso aos criminosos: de que Delmo iria se submeter à narcoanálise naquela casa de saúde, após o que, finalmente, retornaria à repartição da rua Marechal Deodoro.

Como fora prévia e amplamente anunciada pela imprensa local, Delmo Pereira, à tarde de ontem, foi levado para o SSU, onde lhe fizeram a narcoanálise, injetando-lhe escopolamina e pentotal. Antes, porém, receando morrer naquela operação, Delmo Pereira confessou-se a um sacerdote, confissão que demorou mais de meia hora, pois era profundamente católico. À narcoanálise, assistiram o chefe de Polícia (Dr. Manuel da Rocha Barros), o Dr. Raimundo Nonato de Castro, advogado da União Beneficente dos Choferes do Amazonas, o Dr. João Ricardo de Araújo Lima, advogado de Delmo Pereira, o Dr. Francisco Xavier de Albuquerque, curador de menores, o Dr. Domingos de Queiroz, promotor público, representantes da imprensa e outros policiais. Presidiu a operação o Dr. Gilson Vieiralves. Esses, os presentes na sala em que o “soro da verdade” foi aplicado em Delmo.

Na rua, grande multidão, ávida por detalhes, estacionou desde as 14h30. Sob o efeito das drogas, Delmo passou a ser interrogado, insistentemente, pelo Dr. Nonato de Castro, passando a responder, a princípio, quase que imperceptivelmente, sendo as suas respostas gravadas para futuras investigações. Delmo Pereira, durante o interrogatório, não disse nada de novo, não forneceu nenhuma pista que possibilitasse à Polícia a identificação dos seus possíveis cúmplices na agressão do vigia Antônio Firmino da Silva e no assassinato do chofer José Honório. Tentativas inúmeras foram feitas nesse sentido, mas Delmo limitou-se a defender a sua velha história de que era o único responsável por aqueles dois crimes. Como a narcoanálise nenhum caminho novo tivesse apontado à Polícia, foi a operação dada por concluída.

Retiraram-se, em seguida, os advogados e os jornalistas, mas a grande massa popular concentrada à porta do SSU dali não se afastou. A Polícia, face a isso, deveria ter tomado todas as providências, todas as cautelas, no sentido de, prevenida contra qualquer surpresa, oferecer completa segurança a Delmo Pereira, como lhe competia fazer. E esse ponto não podia, nem por hipótese, ser esquecido, tanto mais quando circulavam boatos pela cidade de que os choferes, em virtude do retardamento na elucidação do crime da estrada de Campos Sales, estavam dispostos a fazer Delmo pagar com a vida a morte do chofer José Honório. Mas, infelizmente, a Polícia não deu importância ao assunto, positivando a sua irresponsabilidade, deixando Delmo no SSU, praticamente, entregue à sua própria sorte.

Às 19h30, quando Delmo já se encontrava quase refeito da narcoanálise, a Chefia de Polícia determinou o seu transporte para a Central. Mais uma vez demonstrando falta de compreensão e responsabilidade, Delmo foi levado para o interior de uma ambulância do SSU, tendo como escolta, por incrível que pareça, apenas o agente Eliseu Costa e, assim mesmo, segundo dizem, desarmado. Dirigido pelo chofer Francisco das Chagas Barroso Lotif, tendo a seu lado Manuel Rodrigues, a ambulância deixou o SSU, entrando na rua Lauro Cavalcante, com destino à repartição da rua Marechal Deodoro. No cruzamento desta artéria com a avenida Getúlio Vargas, grande multidão interditou a passagem da ambulância. O chofer diminuiu a marcha, para parar o veículo.

Ato contínuo, inúmeros indivíduos, choferes principalmente, de acordo com as notícias correntes, assaltaram a ambulância. Uns, como declarou o próprio chofer Barroso, ameaçaram-lhe de morte, de revólver em punho, se colocasse em marcha o veículo, enquanto outros, furiosos, arrancaram do seu interior Delmo Pereira. Os assaltantes fizeram Delmo, à força, entrar num carro “Hudson”, sem placa, que saiu em alta velocidade para lugar ignorado. O povo correu ao local, em severos protestos, mas nada pôde fazer, pois o “Hudson” desapareceu na distância da Sete de Setembro.

Imediatamente, o chefe de Polícia teve conhecimento da bárbara ocorrência, pelo que, acompanhado de inúmeros agentes e guardas-civis, pôs-se em campo para localizar o paradeiro de Delmo Pereira. Tão logo soube do rapto de Delmo Pereira, o povo veio à rua, já de opinião mudada, para exigir providências no sentido de ser o mesmo encontrado. Por sua vez, vendo a cidade sem garantias, os advogados Nonato de Castro, Xavier de Albuquerque e João Ricardo de Araújo Lima e o presidente da UBCA, Sr. Odorico Andrade, dirigiram-se à residência do comandante da Guarnição Federal, à rua Ferreira Pena, a fim de pedir a cooperação do Exército para garantia da ordem e tranquilidade pública, bem como auxiliar nas buscas em favor de Delmo Pereira. Atendidos por S. S.ª, os mesmos cidadãos rumaram para o Palácio Rio Negro, onde, testa a testa com o governador Álvaro Maia, solicitaram idênticas providências, recebendo de S. Ex.ª a garantia de que tudo seria feito para evitar maiores consequências.

Os advogados e o repórter ainda se encontravam no Palácio Rio Negro, quando o governador Álvaro Maia foi informado de que Delmo Pereira havia sido encontrado, porém, morto. Realmente, depois de vasculhar diversos pontos da cidade, a caravana policial, comandada pelo Dr. Rocha Barros, foi encontrar, na Colônia dos Franceses, o cadáver de Delmo Pereira em estado horroroso, apavorante, com o ventre aberto à faca. Uma cena dantesca, indescritível pelos requintes de barbaridade e selvageria que o presidiram. A caravana policial chegou ao local precisamente no momento em que os criminosos tentavam evadir-se, sendo de pronto aprisionados vários deles, inclusive o chofer Cruz, ex-sócio da Padaria Vitória, que, com as vestes ainda tintas de sangue, conduziu as autoridades ao lugar em que se consumou o hediondo crime. Os criminosos aprisionados foram transportados para o Quartel da Polícia Militar do Estado, onde se encontram incomunicáveis, enquanto o corpo de Delmo foi para o necrotério do Cemitério São João Batista, após o levantamento legal, a fim de ser submetido à autópsia.

Quando correu a notícia de que Delmo fora massacrado pelos choferes, o povo revoltou-se, estacionando-se, em sinal de protesto, na avenida Eduardo Ribeiro e, principalmente, nas proximidades da Chefatura de Polícia, que passou a ser guardada por elementos não dos seus quadros, mas do Exército e da Polícia Militar do Estado. Os estudantes, justamente indignados, organizaram uma passeata, rumando para o Palácio Rio Negro, onde, pela palavra de dois companheiros, solicitaram providências ao governador, no sentido de serem punidos os matadores de Delmo Pereira. Os estudantes, todavia, fizeram ver a S. Ex.ª que se tratava de um movimento pacífico e ordeiro, por isso que contavam com as medidas do governo para a solução completa do crime.

O governador Álvaro Maia, em ligeira oração, prometeu atender aos estudantes imediatamente, aconselhando-os ordem e respeito, e isso o fez à vontade, pois fundamentou-se na definição feita anteriormente pelos próprios estudantes de que o seu movimento era, de fato, ordeiro e pacífico. Igual procedimento com os estudantes teve o comandante da Guarnição Federal que no momento se encontrava no palácio. Confortados com a promessa do Sr. Álvaro Maia, os estudantes foram aos jornais, onde firmaram seu protesto contra a bárbara morte de Delmo Pereira. Depois, rumaram para a residência do Dr. Rocha Barros onde, em coro, pediram-lhe que se exonerasse da Chefia de Polícia. Os estudantes só deixaram a rua José Paranaguá por interferência das autoridades.

Hoje, às 10h, na sede da UEA, reunir-se-ão os estudantes, em especial os presidentes de órgãos estudantis de nossa terra, para tratar de assuntos relacionados com os graves acontecimentos de ontem à noite.

Segundo é corrente, os estudantes gravarão o seu protesto contra a morte de Delmo Pereira, acompanhando o cortejo a pé. Assim, é de se prever o comparecimento de Manaus estudantil no acompanhamento de Delmo à sua última morada.

Segundo se propala, perto de 40 choferes participaram do trucidamento de Delmo Pereira que, de início, teria sido barbaramente surrado com fio elétrico, conforme marcas que apresenta nas costas, depois sangrado e, por fim, aberto no ventre, de cima a baixo.

Às últimas horas da noite de ontem, fomos informados de que também viajava na ambulância, no momento em que esta foi assaltada, o chofer Silvio de Oliveira, dos quadros do SSU, e que, por sinal, se encontrava de folga. Até aí, nada de novo. Porém, a Polícia o prendeu por suspeitar que tenha participação no fato, pois que, pela parte da manhã, teria sido visto em conversa com choferes da avenida Eduardo Ribeiro, na Garagem Esportiva. Sobre Sílvio recai a seguinte suspeita: não teria sido ele o planejador do assalto á ambulância, sabido que esta transitava em marcha lenta pela rua Lauro Cavalcante e, ainda, buzinando?

De fonte fidedigna, podemos informar que a União Beneficente dos Choferes do Amazonas, pela sua própria natureza de fins altruísticos, vai convocar uma Assembleia Geral para tentar a expulsão dos choferes que encabeçaram e tomaram parte na bárbara morte de Delmo Pereira, ficando assim afastada a possibilidade de os mesmos virem a ser defendidos pela entidade, por intermédio de seu advogado, Dr. Raimundo Nonato de Castro.

Falando com o chefe de Polícia, nossa reportagem foi informada de que serão cassadas as carteiras profissionais dos choferes implicados no rapto e massacre de Delmo Pereira.

No mesmo dia 6 de fevereiro, o vespertino A Tarde, dirigido pelo jornalista Aristophano Antony, trazia em sua primeira página uma matéria intitulada “Canibalismo! Absoluto desprestígio da autoridade no Amazonas”:

A imprensa matutina já noticiou, nos seus mínimos detalhes, a cena de verdadeiro canibalismo ocorrida à noite de ontem, quando os choferes da praça, em atitude impensável, raptaram de uma ambulância do Serviço de Socorros de Urgência, no cruzamento das avenidas Getúlio Vargas e Sete de Setembro, o réu Delmo Pereira, acusado do homicídio do chofer profissional José Honório, morto também barbaramente, à madrugada do dia 31 de janeiro último, no quilômetro 9 da estrada do Campo Sales.

Contaram os jornais como se processou o rapto, a indignação popular que se alastrou pela cidade, diante da selvageria dos choferes que trucidaram, em lugar ermo da Colônia dos Franceses, o jovem Delmo Pereira, dizendo como foi encontrado seu cadáver, quase esquartejado e apresentando sinais de sevícias atrozes.

Acompanhamos também as diligências e constatamos a veracidade das reportagens dos matutinos, que se esqueceram, porém, de acentuar as vaias que populares estacionados nas imediações da Chefatura deram no chefe de Polícia e a tentativa de agressão feita ao comissário Bastos, junto à Inspetoria do Tráfego, salvo da ira popular pelo tenente Hermenegildo Costa, da Polícia Militar, que impediu, com os seus comandados, que se consumasse nova violência. Não contaram, também, que os estudantes, revoltados com a morte de Delmo Pereira, apedrejaram ônibus e carros da praça, que foram obrigados a se recolher às suas garagens, receando os volantes a contagiante indignação popular.

Positivado ficou, diante da lamentável ocorrência, o desprestígio da autoridade no Amazonas. Pela primeira vez, na história de nossa terra, a Lei de Lynch, apesar de não existir no Brasil, foi posta em execução pelos choferes. O rapto de Delmo Pereira, sem precedentes também nos anais de criminologia deste Estado, foi qualquer coisa de espantoso, porque feito em plena via pública e ainda às primeiras horas da noite, em lugar dos mais movimentados da cidade.

Chega a ser inconcebível que elementos de uma classe, sem raciocinar devidamente, tenham levado a efeito, com uma audácia das maiores, crime tão monstruoso, desafiando as autoridades e tripudiando sobre elas, que demonstraram, infelizmente, inépcia e incapacidade no julgamento da opinião coletiva. A autoridade está desprestigiada como nunca esteve, o que devemos todos lamentar. Pobre e infeliz Amazonas!

A responsabilidade da Polícia Civil, com o seu chefe à frente, é absoluta, é positiva, é irretorquível. Ela facilitou o crime. Ela colaborou para que os choferes agissem a seu bel-prazer, consumando um rapto que vinha sendo planejado há vários dias, com o conhecimento das autoridades da rua Marechal Deodoro. A polícia entregou – esta é a opinião geral! – Delmo Pereira à sanha descontrolada dos choferes, para que eles, com as próprias mãos, vingassem a morte do seu colega José Honório. Se tivesse, como lhe cabia, mandado escoltar a ambulância, do SSU, por agentes armados, teria evitado a consumação do hediondo crime de ontem. Não o fez, porque apenas designou um agente desarmado – um só! – para acompanhar a ambulância.

Por que não solicitou o chefe da Polícia qualquer auxílio da Polícia Militar? Porque o Dr. Manoel da Rocha Barros sempre esteve de ponta com essa corporação, fazendo-lhe censuras e acusações, epigramando-a às vezes, criando entre a sua pessoa e a oficialidade e soldados um clima de desarmonia e desconfiança, que talvez não seja do conhecimento do governador do Estado. Procure saber S. Ex.ª a verdade, e chegará, facilmente, a essa conclusão, ouvidos os elementos da Polícia Militar. A verdade, na sua clareza meridiana, é que a Polícia Civil está completamente desmoralizada, diante do rapto e da morte de Delmo Pereira.

Diga-se, leal e sinceramente, que a opinião pública, até então favorável aos choferes, depois do assassinato do seu colega José Honório, modificou-se completamente de ontem para hoje, observando-se agora que a indignação popular é geral contra os matadores de Delmo Pereira. Os choferes perderam a razão que possuíam e se apresentam como criminosos frios. A simpatia que para eles convergia, desapareceu completamente, para se transformar em repulsa, em ódio mesmo. Tivessem agido com calma e prudência, colaborando para deslindar o crime praticado pelo jovem acusado, outra seria a situação deles. A classe, em geral, não se pode responsabilizar, é certo, pela ação reprovável de alguns de seus elementos. São estes que se encontram estigmatizados a estas horas, em virtude do delito repugnante que praticaram.

Não se pode esconder que é delicada, em face das ocorrências de ontem, a posição do governo do Estado. A Polícia Civil lhe está subordinada e o seu chefe é pessoa de confiança do governador. Diante do rapto e da morte de Delmo Pereira, em virtude das facilidades encontradas pelos choferes, facilidades que lhes foram dadas pelas autoridades da rua Marechal Deodoro, depreende-se facilmente que não se pode inocentar o governo, positivada que ficou a incapacidade de seus auxiliares.

Aduza-se ainda que o governador, procurado pelos choferes em Palácio, prometeu solucionar o caso de Delmo Pereira até ontem às 17 horas. Não o fazendo, verificou-se com todas as características de atrocidade o crime que abalou profundamente a população. O que o povo diz, pelas ruas, sem haver quase exceções, é o que afirmamos acima. O governo está seriamente comprometido nesse crime sem igual na história do Amazonas, porque comprometida está a sua Polícia Civil e o titular maior da repartição da rua Marechal Deodoro.

Delmo Pereira, que matou o chofer José Honório, estava sendo acompanhado, nos seus interrogatórios, por elementos da Justiça Pública, inclusive por um curador de menores, nomeado pela autoridade competente. Em consequência, portanto, consumada a sua morte em condições canibalescas, desprestigiada ficou também a Justiça do Amazonas. E dizer-se que a Polícia Civil, facilitando a ação dos profissionais do volante, para que pudessem concretizar os seus planos sinistros, cooperou para esse desprestígio! A que ponto chegamos, Deus nosso! Até parece que estamos, não em uma terra civilizada, mas numa capital de bárbaros!

Somente hoje, à luz do sol, é que as autoridades e os repórteres puderam verificar quão bárbaro e tenebroso foi o massacre que Delmo Pereira sofreu. Sua cabeça está disforme, de tantos pontapés que recebeu. Seus braços e pernas encontram-se quebrados. O olho direito deslocou-se e pouco faltava para saltar da órbita. Delmo Pereira, segundo o laudo da autópsia, apresentava sete perfurações pelo tórax e abdômen e mais duas nas costas. Um golpe de 40 centímetros descia-lhe do externo ao umbigo, deixando ver parte do coração e dos intestinos. Afora isso, centenas de escoriações por todo o corpo, inclusive marcas empoladas e arroxeadas nas costas, produzidas por fio elétrico.

É de recordar-se, agora, o temor sempre presente de Delmo que, parece, presumia a triste sorte que o aguardava. Enquanto esteve preso na polícia, Delmo nunca se cansava de pedir garantias de vida. Na polícia, nossa reportagem esteve conversando com o chofer Cesário, um dos protagonistas da pavorosa tragédia e que foi preso em flagrante. A roupa de Cesário apresenta-se toda salpicada de sangue e, embora assim, ele nos disse que não tocou em Delmo e que não viu quem o matou. Adiantou-se, ainda Cesário, que calcula em cinquenta o número de choferes que participaram da carnificina e que está disposto a denunciá-los, mormente os que conseguiram escapar.

O corpo de Delmo Pereira, depois de autopsiado, foi conduzido do necrotério da necrópole São João Batista para a residência do seu genitor, Sr. Roberto Pereira, na rua Miranda Leão, cerca das 10h30 de hoje. Milhares de pessoas estacionavam à frente do cemitério e também diante da residência do pai do morto, de onde o enterro, acompanhado pela mocidade estudiosa e pelos amigos da família, sairá para a eterna morada às 15h.

Às 11h35, pelo telefone do Palácio Rio Negro, recebemos a informação de que o governador Álvaro Maia, em face dos tristes e lamentáveis acontecimentos de ontem, medindo as suas responsabilidades e as da Polícia Civil que lhe é dependente, para dar uma satisfação ao povo, mandou lavrar o ato de demissão, a pedido, do Dr. Manoel da Rocha Barros, do cargo de Chefe da Polícia do Estado. Para substituí-lo, provisoriamente, na Chefia de Polícia, foi designado o tenente-coronel Luiz Pinheiro de Araújo, da Polícia Militar. A notícia foi anunciada imediatamente pela nossa sirene, juntando-se às portas de A Tarde verdadeira multidão.

Hoje, pela manhã, na Chefatura de Polícia, começaram a ser ouvidos os choferes que foram presos à noite de ontem, depois de haverem trucidado Delmo Pereira num dos recônditos da Colônia dos Franceses. As autoridades policiais prosseguem nas diligências para efetuar a prisão dos demais implicados, esperando-se que obtenham êxito à proporção que forem sendo tomados os depoimentos dos acusados, devendo estes, segundo se espera, apontar os coniventes que estão foragidos.

Ainda na mesma edição do vespertino A Tarde, uma pequena notícia na primeira página, intitulada “Arbitrariedade”, despertava a atenção do leitor:

O bacharel Domingos de Queiroz, que é promotor de Justiça, não sabemos com que autoridade, arrebatou, ontem à tarde, no pronto-socorro, das mãos de um repórter fotográfico, no momento a serviço de A Crítica, a máquina que conduzia, e da qual se servira para apanhar um flagrante de Delmo Pereira, quando ali se encontrava para receber uma injeção de soro.

Não ficou nisso a atitude do membro do Ministério Público, porque arrebatou o filme da máquina, guardando-o em seu poder, como se fosse de propriedade sua. Foi uma autêntica arbitrariedade, pois não estamos, nós da imprensa, vivendo num regime de exceção, mas usufruindo ampla liberdade, que nos é assegurada pela Constituição. Em que se baseou o bacharel Domingos de Queiroz? Não sabemos! Somente nos países escravocratas e comunistas é que se procede assim. Nós, felizmente, não estamos em Moscou…

A coluna política “Fatos e Palpites”, na página 4 do referido jornal, continuava abordando o “Caso Delmo”:

Adiantaram-nos que a demissão do Dr. Rocha Barros foi comunicada a este, na Chefatura de Polícia, de ordem do governador Álvaro Maia, pelos deputados Raimundo Nicolau da Silva, Coriolano Lindoso e Danilo Correa.

Temos notícia de que também foi substituído o delegado auxiliar, Dr. José Milton Caminha, sendo nomeado para substituí-lo o tenente Adail Paes Barreto. Essa substituição não era esperada, convenhamos.

Resolveu o governador substituir também o Sr. Otoniel Maia, delegado de Investigações e Captura, tendo designado para substituí-lo o tenente Waldemar Silva, da Polícia Militar.

Ouvimos o deputado André Araújo declarar, na avenida Eduardo Ribeiro, que, diante dos acontecimentos de ontem, o governador Álvaro Maia manifestara vontade de renunciar, sendo obstado pelos seus amigos do PSD.

Chegou ao nosso conhecimento que a União Beneficente dos Choferes não defenderá a causa dos seus associados que praticaram o monstruoso crime da noite de ontem.

Informados estamos de que o Dr. Rodolfo Vale, chegado do Rio de Janeiro, afirmou aos seus correligionários que o Dr. Vivaldo Lima Filho, chegando a Manaus, obrigará que os elementos do PTB deixem os cargos que desempenham no governo do Estado, inclusive seus irmãos.

Disseram-nos que a totalidade dos elementos do PSD manifestou-se, hoje pela manhã, favorável à substituição do Dr. Rocha Barros, perante o governador do Estado. O chefe de Polícia esteve em Palácio, mas não soube que ia ser substituído.

Afirmaram-nos de que para a vaga do desembargador Arthur Araújo, que pediu aposentadoria, deixando, assim, o Tribunal de Justiça, será nomeado o Dr. Teotônio Martins Coimbra, juiz de Direito da Capital, por antiguidade.

Estamos informados de que o Dr. Leopoldo Loureiro, diretor dos Serviços Elétricos do Estado, para facilitar os transportes diante de não estarem trafegando ônibus e automóveis, determinou que os bondes circulem sem maiores demoras nas linhas de Flores, Cachoeirinha e Adrianópolis.

Soubemos que era pensamento das classes estudantis, depois do enterro de Delmo Pereira, fazer uma grande passeata e ir ao Palácio solicitar, novamente, do governador, a demissão do Dr. Rocha Barros, de chefe de Polícia.

O Palácio Rio Negro estava cheio, hoje pela manhã, de correligionários e auxiliares do governador Álvaro Maia, não escondendo este os seus aborrecimentos pelo que aconteceu à noite de ontem, em nossa capital.

Ainda no dia 6 de fevereiro, a União dos Estudantes do Amazonas publicou uma Nota Oficial nos principais jornais da cidade, que também foi lida nas rádios Baré e Difusora:

Os estudantes do Amazonas, em face dos graves e revoltantes acontecimentos de ontem à noite, e na defesa de suas gloriosas tradições, vêm de público, através de seus órgãos de representação para em movimento ordeiro e pacífico:

1 – Protestar, energicamente, contra a irresponsabilidade da Polícia, em não oferecendo a Delmo Pereira, como era seu dever, a proteção necessária, no percurso desse jovem, do Serviço de Socorros de Urgência à repartição da Marechal Deodoro, proporcionando, assim, todas as facilidades aos criminosos choferes que o raptaram e o mataram selvagemente, na Colônia dos Franceses;

2 – Verberar, com veemência, contra a matança bárbara daquele colega, que bem revela os instintos perversos e monstruosos de seus autores;

3 – Reafirmando seu respeito à Lei, por isso que não pretendem fazer justiça com as próprias mãos, como o fizeram, cruelmente, aqueles desalmados choferes que enxovalham a própria classe, e dar a notícia de que a União Beneficente de Choferes do Amazonas está providenciando a expulsão dos mesmos dos seus quadros sociais, os estudantes do Amazonas exigem as seguintes providências e que objetivam a própria segurança e tranquilidade pública:

  1. a) Conservação, presos, para possibilitar o esclarecimento completo do hediondo crime dos irresponsáveis choferes capturados pela Polícia no local da tragédia;
  2. b) Punição severa e rigorosa para os autores da barbárie;
  3. c) Vinda a Manaus de policiais especializados, do sul do País, para dirigirem o processo respectivo;
  4. d) Garantia e proteção, amplas, da parte das autoridades, a todos os estudantes amazonenses, para não mencionar todo o povo desta Capital.

4 – Igualmente, a mocidade amazonense, positivando que os seus protestos não atingem toda a classe dos choferes do Amazonas, mas exclusivamente aos autores do massacre de Delmo Pereira, dirigem-se à União Beneficente dos Choferes solicitando suas providências no sentido de, saneando a coletividade que congrega, facilitar a punição dos miseráveis trucidadores daquele estudante.

Assinam a presente nota as seguintes entidades:

União dos Estudantes do Amazonas; União dos Estudantes Secundaristas do Amazonas; Diretório Acadêmico da Faculdade de Direito; Centro Estudantil Plácido Serrano; Diretório dos Estudantes da Escola Técnica de Comércio Sólon de Lucena; Associação Atlética do Colégio Estadual do Amazonas; Associação Atlética da Faculdade de Direito; Centro Estudantil Rui Barbosa; Grêmio Marciano Armond; Grêmio Cultural Juventus; Grêmio Espirial; Liga Estudantil Industrial; Grêmio Cultural de Estudos Gerais; Grêmio Cultural Gonçalves Dias; Grêmio Padre Estelio Dalison; Sociedade de Estudos Oliveira Viana; Grêmio Estudantil de Ciências e Letras; Sociedade Amazonense de Imprensa Estudantil.

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