Casinha Branca: meu roteiro de cinema novo jamais filmado

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Por Edson Aran

Cena 1 – Uma casinha branca no meio da selva. Na porta está escrita com carvão a palavra “Venda”. Um sujeito sem dentes toca uma sanfona desafinada. Ao fundo, um cangaceiro planta bananeira e discursa sobre o grave problema dos menores abandonados nas metrópoles do Terceiro Mundo.

Cena 2 – Uma mulher loira e gostosa, vestindo um vestido de noite negro como asas da graúna, avança pela selva carregando um homem ensanguentado.

Cena 3 – A mulher chega à casinha branca. O sanfoneiro a vê e demonstra surpresa. Close na boca desdentada do sanfoneiro demonstrando surpresa. Ao fundo, o cangaceiro fala sobre o êxodo rural e a proliferação de favelas nos grandes centros.

Sanfoneiro: Dona Irsa! A sinhora por aqui?

Mulher: Não é Irsa, anta. É Ilsa. Vejo que você continua sendo um proletário oprimido por este sistema reacionário e ditatorial, San.

Sanfoneiro: Num é San. Dona Irsa. É Zão, de Joaquinzão.

Ilsa: É “San” de sanfoneiro, San…

Ao fundo, o cangaceiro recita trechos escolhidos de Ferreira Gullar.

Cena 4 – Close nos olhos amarelados de Zão. Ou San.

Zão: Nóis largô esses tal de proletário, dona Irsa. Eu e o sô Ríque. Agora ele tem essa venda.

Ilsa: Toca, San!

San: Num me pedi uma coisa dessa, dona Irsa. Sô Ríque me dá umas cem chibatada se’u tocá!

Ilsa: Toca, nêgo safado!

Ao fundo, o cangaceiro sobe numa árvore e começa a gritar feito Tarzã. No canto da tela, o homem ensanguentado agoniza.

Cena 5 – San está tocando e cantando.

San: Caminhâno e cantâno, siguíno a canção/ Sumus tudo igual/ braço dado ou não…

Cena 6 – Porta da casinha branca é aberta com um pontapé. Surge Ricardo, puto da vida, com um chicote na mão direita.

Ricardo: Vou arrancar seu couro, seu nojento analfabeto a serviço do ymperyalismo yankee!

Mas assim que vê Ilsa, Ricardo se cala e, surpreso, deixa o chicote cair no chão.

Ricardo: Ilsa…

Ilsa: Ricardo…

Homem agonizante: Arrrghhhh!

Cangaceiro: Aú! Aú! Aú! Aú!

Cena 7 – Vários flashbacks em ritmo acelerado. Ricardo e Ilsa passeando num parque. Ricardo e Ilsa à beira de um lago marrom. Ricardo e Ilsa usando um vibrador tailandês de três velocidades. San os persegue por todos os lugares tocando sanfona.

Cena 8 – Mais flashbacks. Ricardo e Ilsa tomam champagne num apartamento pequeno-burgês. San e a sanfona estão ao fundo.

Ilsa: Gracinha esse negrinho. Comprou onde?

Ricardo: Papai mandou lá do Acre. Tem muitos na fazenda.

Ilsa: Oh, Ríqui! Você continua um latifundiário alienado e oligarca retrógrado! O curso de Sociologia não está adiantando nada!

Ricardo: Eu vou mudar, amor, eu prometo. Preciso abandonar essas idéias reacionárias que me corroem como vermes!

Ilsa: Então assina aqui. É a ficha de filiação dum partido comunista aí. São 10 paus a primeira mensalidade. Pode pagar pra mim.

Cena 9 – Ainda flashback. A cena se abre num rádio antigo. Ricardo e Irsa ouvem as notícias atentamente.

Rádio: A revolução redentora toma as ruas e praças do país, minha gente! Chega de João Goulart e de Liga Camponesa! Chega de Arraes e de Brizola! O inimigo comunista se retira de campo, torcida brasileira!

Ricardo: Vamos embora pro exílio, querida. Já comprei as passagens pra Paris. Só vamos voltar daqui a 20 anos pra escrever memórias e passear com tanguinha de crochê…

Ilsa: Não posso, Ríqui, não posso. Precisamos resistir. Fazer um, dois, mil Vietnãs…

Cena 10 – Voltamos à casinha branca. Ricardo continua olhando apalermado para Ilsa.

Ricardo: Ilsa… eu… eu… eu te mato, cadela piranha biscate puta desgraçada! Você me deixou plantado no aeroporto, sua filha de uma égua!

San segura Ricardo e o leva para dentro da casa. O cangaceiro arrasta o homem ensanguentado enquanto cita trechos do Diário de Che Guevara. Ilsa vai atrás.

Cena 11 – Ilsa retoca o batom num espelho quebrado.

Ilsa: Sinto muito, Ríqui. Na época, eu já era casada com o companheiro Vítor. Eu o havia abandonado, mas naquela noite estouraram o aparelho dele. Era um três-em-um novinho em folha. Eu tinha que voltar pra ele!

Ricardo: Eu fui para Paris e me apaixonei por um capitão francês chamado Renault. Mas ele me deu um pé na bunda e eu voltei. Vim pra cá e abri esse boteco no meio da selva. Nunca apareceu um freguês, mas quem sabe os negócios melhorem no ano que vem…

Cena 12 – Ilsa passa esmalte nas unhas do pé.

Ilsa: Vítor achava que o lance era começar um foco de guerrilha aqui no Araguaia. Vim com ele. Ontem uns paraquedistas chegaram lá atirando em todo mundo. Falei que era repórter da National Geographic  e saí de fininho com o Vítor. Agora só você pode nos tirar daqui, Ríqui.

Ricardo: É… só o Vítor pode reorganizar a luta do proletariado oprimido e mal pago. Ele é um herói. E, afinal, o que é a felicidade de duas pessoas num mundo louco como esse?

Cena 13 – San e o Cangaceiro discutem o conceito sartreano da luta de classes. Ricardo medita sobre seu papel social. Ilsa passa sombra nos olhos. Vítor agoniza.

Cena 14 – Ricardo monologa segurando um punhal na frente do rosto.

Ricardo: Mais forte são os poderes do povo! Mas o povo é cretino, ignorante e retardado! O povo precisa de Vítor! Mas eu amo Ilsa mais que tudo na vida, mais até que o capitão Renault. Que fazer? Que fazer?

Cena 15 – Amanhece. Ricardo e Ilsa estão no meio da selva.

Ricardo: Temos de fazer isso, Ilsa, ou vamos nos arrepender. Não hoje, nem amanhã, mas um dia…

Ilsa: Tá limpo. Além disso, são só 3.457 quilômetros até Cuiabá. Se o Vítor se arrastar dois metros por dia, ele ainda poderá ser salvo… e continuar sua luta!

Cena 16 – Ricardo e Ilsa saem alegres e saltitantes pela floresta. San segue os dois tocando sanfona.

San: Vem, vâmo simbora/ Quisperá num é sabê/ Quem sabe, dá o fora/ Nem ispera iscurecê…

O cangaceiro pergunta se alguém na plateia tem o telefone da MGM.

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