Capa do Pasquim

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Data: 05/01/2015 - Luiz Carlos Miele entre Pelé e Roberto Carlos - Editoria: Caderno Dois - Foto: - GZ

Por Luiz Carlos Miele

A maioria dos artistas sonha, ou sonhou alguma vez, em estar na capa das revistas. Alguns, depois de conquistar esse direito, depois de muita luta e sacrifício, passam a sair na rua disfarçado, lutando então pelos direitos da sua privacidade. Como disse o filósofo Cauby Peixoto: “É dura a vida do artista.”

E hoje, temos até um elenco especial, que não fez nem mesmo questão de ser artista. Só quer sair na capa.

Nos áureos tempos do Pasquim, quando seus alegres e talentosos colaboradores ainda não haviam sido enquadrados como perigosos elementos subversivos, fiz uma matéria que contava a história de um cientista louco. Era uma história em quadrinhos, em que eu aterrorizava uma mocinha, o que fazia com a maior das alegrias, pois a mocinha era a maravilhosa Leila Diniz.

O diretor era o Flávio Rangel. O fotógrafo era o Paulinho Garcez, que foi logo nos avisando que as fotos eram em preto e branco. Para entrar no clima, imediatamente todos nós começamos a nos servir de um Black and White e, dentro de pouco tempo, estávamos todos bem mais à vontade.

Eu, Leila, diretor e fotógrafo. No fim da produção, o entusiasmo era tal que minha última foto foi um nu, coberto apenas com umas plumas que a Rogéria havia esquecido lá em casa, para total prejuízo dos leitores, pois eu terminei meio nu e a Leila de terno e gravata.

No dia seguinte, preocupado com a publicação daquela esbórnia, liguei para o Garcez, que me garantiu que seriam publicadas apenas umas fotos pequenas:

– É fotonovela, Miele. Sai nas páginas internas.

Enquanto isso, o governador do Rio de Janeiro manifesta a uma das assessoras do cerimonial o desejo do coronel Alcir, chefe da casa militar, em conhecer a boate Flag, animado reduto da mais irresponsável boemia carioca. Mas o coronel quer levar a esposa e quer o acompanhamento do cerimonial. A funcionária era Anita Miele, que naturalmente obrigou a minha participação.

Durante o jantar, enquanto eu tento provar quanto os artistas são simpáticos e responsáveis, adentra o campo Tarso de Castro, com uma pilha de jornais debaixo do braço.

Ao me ver, atira um exemplar na mesa, acompanhado da seguinte e vibrante declaração: “Olha só que beleza a bicha da capa.”

E lá estou eu, de óculos e meias compridas, com as tais plumas da Rogéria. Na capa. Felizmente, o coronel Alcir há muito tempo tentava estabelecer uma relação viável entre os intelectuais e o poder. Levava alguns para almoçar com os oficiais para mostrar aos dois lados que eles não eram as verdadeiras ameaças ao país.

De qualquer maneira, foi bastante embaraçoso para Anita, quando, no dia seguinte, o então governador Negrão de Lima chamou-a ao gabinete e, com os dedos tamborilando sobre a capa do Pasquim, perguntou como se não houvesse notado o vexame:

– E então, D. Anita, como está a minha agenda de hoje, a que horas é a reunião com os representantes da cúria metropolitana?

Depois, a coisa engrossou. Todo mundo conhece a história das prisões do Tarso, Fortuna, Jaguar, Flávio Rangel, Paulo Garcez, Sergio Cabral, Paulo Francis e Ziraldo. Mesmo assim, não faltou uma carioquice. Uma noite, na cela comum a todos, uma programação inusitada: em lugar de muito amor e uma canção, um tenente, um violão.

– Ô, Sergio Cabral – diz o tenente fã do samba – tô sabendo que você é o autor de Menino da Mangueira. Pô, cara, eu adoro essa música. Canta aí pra gente.

Sergio tenta explicar que é o autor da letra e não da melodia, e que só chega perto de um violão, a tempo de escrever seus livros maravilhosos, quando seus amigos compositores mostram suas músicas.

O tenente, meio desapontado, busca socorro entre os outros ocupantes do SPA – até hoje eu fico pensando em como seria o samba acompanhado por Paulo Francis ao violão, Flávio Rangel na flauta, Fortuna no cavaquinho e o inglês Paulo Garcez ao pandeiro.

O tenente já está conformado quando o sentinela, que está louco para seu turno acabar, pois tem ensaio na Portela, e não quer nem saber quem é o ministro da guerra, arrisca:

– Seu tenente, dá licença? Eu arranho um violão. Não sou o Baden, mas arranho.

Alegria geral. O sentinela pega o violão e, como não dá para empunhar duas armas ao mesmo tempo, troca o pinho pela metralhadora, que entrega para o Sergio Cabral. O Sergio, de Remington, só conhece a máquina de escrever, de modo que coloca a metralhadora em cima da mesa, onde ela permanece até que passa um oficial superior que recolhe violão, metralhadora, tenente e sentinela, dando a cada um o seu devido destino.

Pela ordem: almoxarifado, arsenal e cadeia.

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