Buto e Obtuso: crime, sapo, Mallarmé e dois policiais

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Por Edson Aran

O maxilar de João Obtuso era longo e ossudo. Seu queixo, um V proeminente sob o V flexível da boca. Sua cabeça era um U invertido e achatado como um O sob pressão. Os braços eram dois Is, sem pingo. As pernas, juntas, lembravam um T capotado. Envolvido num capote cinza, Obtuso lia Flaubert, “Bouvart et Pécuchet”, enquanto observava a rua, de soslaio.

Quem matara o industrial Adalberto Cazzo também tinha matado a socialite Lídia Caraca de Mendoza no sórdido apartamento de Copacabana. Ambos os crimes haviam sido cometidos com uma faca bowie, gume único, popularizada pelo desbravador James Bowie durante a colonização americana. O assassino tinha de ser o mesmo.

João Obtuso pensava que, ao contrário do que diziam os críticos, “Bouvart et Pécuchet” não era uma sucessão episódica regida pela ausência de causalidade e que James Joyce, provavelmente, nunca lera Flaubert para escrever seu “Ulisses”.

De repente, Obtuso ouviu o coachar de um sapo. Pelo ruído, só podia ser um Bufo Paracnemis, mais conhecido como sapo-boi. O Paracnemis tem verrugas glandulares sobre a face interna da coxa que soltam uma segregação leitosa. Lamartine Douyon, francês como Flaubert, escrevera um precioso tomo a respeito, o “Catálogo das Aberrações Tropicais”.

Mas não era um sapo-boi. Era Luiz Antônio, seu auxiliar na Homicídios.

“Noite, Obtuso. E o magnata, apareceu?”

“Não, mas você sabia que, em 1648, Douyon já havia mencionado a utilização da segregação leitosa Buto Paracnemis por feiticeiros indígenas?”

Pausa.

“Não chateia, Obtuso. Você sabe que Douyon só visitou o Brasil em 1652.”

Pausa.

“E mais! Ele só se interessou pelo Paracnemis dois anos depois.”

Pausa.

“Ok”, respondeu o detetive, acendendo um cigarro.

“Mas e Mallarmé?”. Pausa. “Você sabia que ele considerou ‘Bouvard et Pécuchet’ uma aberração?”. Pausa. “Em 1881”. Pausa. “Odeio Mallarmé”. Pausa. “E você, Luiz Antônio?”

Pausa.

“Não chateia, Obsuto”. Pausa. “Você sabe o que eu penso.” Pausa. “Flaubert é melhor que Proust, mas não chega a ser Balzac.” Pausa. “Se bem que o ‘Dictionaire des Idées Reçues’ tenha sido de grande importância na minha luta contra o crime.”

Pausa.

Obtuso jogou o cigarro no chão. Depois pegou o maço no paletó. Retirou outro cigarro, sem filtro. Colocou-o entre os lábios pálidos. Suas mãos percorreram nervosamente o capote como se buscassem as provas que levariam, definitivamente o assassino para a prisão. A mão esquerda acabou achando um isqueiro com a inscrição “Com amor, Béti”. Ergueu o isqueiro até que a chama encontrasse o cigarro. Ficou pensando em Béti. As brigas as trepadas, as longas discussões sobre a influência do “Catálogo das Aberrações Tropicais” de Douyon na obra póstuma de Flaubert e os novos modelos de facas disponíveis no mercado. Bons tempos.

“Acho que ouvi um barulho, Obtuso!”, disse Luiz Antônio. Pausa. “Parece o longo silvo emitido pelo Bufo Oblíquo, vulgo sapo-zebra, durante o acasalamento.”

Pausa.

“Vai se foder, Luiz Antônio!” Pausa. “Você sabe que o Bufo Oblíquo é um animal peculiar que não sobreviveria neste clima temperado, sujeito a pancadas de chuva ocasionais e a deslocamento de massas de ar frio, temperatura média, 28 graus.”

“Não chateia, Obtuso! As teorias de Douyou, aquele corno, estão ultrapassadas. Lubicz Wilbert, em artigo publico no The Frog’s News escreveu que…”

Ouviu-se outro silvo e Luiz Antônio de uma queda foi ao chão. Ensanguentado. Obtuso foi atingindo a seguir e caiu como um saco de batata. Ele ainda ouviu os passos apressados de um homem em fuga.

“Fomos alvejados, Luiz Antônio…”, gerou Obtuso. “Acho que ele usava uma Heckler & Koch, modelo P-9-S, raiamento poligonal, ação dupla e design revolucionário exportada nos calibres 7,65 mm e 9 mm”.

“Não chateia, Obtuso. Tá na cara que foi uma Sig-Sauer P-220, calibre 9 mm, Luger, à venda nas boas casas do ramo.” Pausa. “E tem mais! Pra mim, esse tal de Flaubert sentava…”

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