Bota no pescoço, chêrie

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Por Marcos de Vasconcellos

Quando traduziu a Bíblia do iídiche – língua de origem alemã com elementos hebraicos e eslavos – para a Vulgata – versão latina do livro sagrado –, São Jerônimo confundiu a palavra que significava raio de luz com chifre. Resultado:

– São Jerônimo chifrou Moisés – concluiu Millôr Fernandes.

De fato, a representação escultórica do carismático chefe dos hebreus, feita por Michelângelo, é premiada com um par de cornos. A Bíblia é vítima contumaz das traições dos tradutores que confundiram corda de cabo grosso com camelo, troca que resultou numa estranha frase do Nazareno que, a despeito do seu conteúdo moderno, de livre poesia, ficou um tanto dalinista:

– É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha que um rico entrar no reino dos céus.

Declaração que, aliás, não deve preocupar muito os bafejados pela fortuna porque – um exemplo – um dos Barões de Rothschild, recentemente falecido aos 88 anos, já devia estar de saco cheio de tanto céu.

O músico e compositor Luís Bonfá, que passa grande parte do seu tempo no exterior, é especialista nessas traições, só que deliberadas. Em Nova Iorque, Bonfá marca encontros com amigos brasileiros da seguinte maneira:

– Então às dez horas no galo do lobo mãe pra gente ir ouvir o todo bom homem.

Decodificando-se: às dez horas no The Clock do Main Lobby do Waldorf para ouvir a orquestra de Al Goodman.

The Clock, o abarrocado relógio de quatro faces no grande hall do Waldorf Astoria, é um famoso e tradicional ponto de encontros em Nova Iorque.

Para os fracos de língua inglesa, Bonfá ensina alguns de seus truques:

– Pro ascensorista diga D. Ester. Ele entende downstairs. Ovos com presunto, peça não me negues, ham and eggs. Quando o cara da sorveteria perguntar ice cream? Diga simplesmente panela. Eles ouvem vanilla e você recebe um sorvete de baunilha. Campo de futebol é confortable.

Mas há quem sofra com esses pecados, essas distorções, e uma dessas pessoas é o escritor, jornalista, tradutor e advogado José Alberto Gueiros. E enumera as traições que lhe cortam o coração, que o martirizam:

– Os tradutores de televisão são os piores. Pudera, coitados, juntam a má informação, a urgência, o salário magérrimo, não pode dar certo. Senão como você explicaria um cavalheiro barbado pedir ao outro um anel? Me dá um anel, ao invés de pedir o telefone, give me a ring. “Estamos sem arenques vermelhos”, declara, desolado, um policial de TV. Red herings, na gíria da polícia americana, quer dizer pistas, indícios. “Milhas e milhas de fitas vermelhas”… Já ouvi tal disparate inúmeras vezes. Miles and miles of red tapes em inglês quer dizer exatamente burocracia.

E continua seu listão:

– Evidence, que significa prova, para o tradutor de TV é evidência mesmo e actually, ou seja, realmente, passa a ser atualmente. Tá os jornalistas brasileiros, os de jornal, cassaram os deputados americanos e efetivaram os suplentes, os substitutos. Traduzem representative, que é deputado, por representativo e deputy que é obrigado, substituto, por deputado.

E arremata, desconsolado:

– A única coisa que brasileiro não erra é pescoço em francês.

Para quem não tem intimidade com a língua de Racine, pescoço em francês é cou (pronuncia-se “cu”)

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