Banda da Caxuxa vai reviver antigos carnavais

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“Foi numa casca de banana que pisei, pisei, / Escorreguei, quase caí, / Mas a turma lá de trás gritou: xi! / Tem nego bebo aí! / Tem nego bebo aí!”. “Allah-la-ô, ô ô ô ô ô ô/ Mas que calor, ô ô ô ô ô ô”. “Mamãe, eu quero, mamãe, eu quero/ Mamãe, eu quero mamar/ Dá a chupeta, dá a chupeta / Dá a chupeta pro bebê não chorar”.

É bem provável que, ao ler as letras, você já tenha cantado as melodias dessas músicas. “Tem nego bebo aí” (Mirabeau e Airton Amorim, “Allah la ô” (Nássara e Haroldo Lobo) e “Mamãe eu quero” (Vicente Paiva e Jararaca) são algumas das muitas marchinhas que se perpetuaram e revivem a cada carnaval. Elas vão estar presentes hoje, a partir das 16 horas, na Banda da Caxuxa, durante a apresentação do grupo Demônios da Tasmânia, no palco principal. Nos outros três palcos alternativos vai rolar sambas-enredo, rock nacional e rock pesado.

“A nossa geração aprendeu a brincar carnaval ouvindo marchinhas sendo tocadas ao vivo nos bailes do Nacional, Cheik Clube, Bancrévea, Caiçara, Fazendário, Cetur, Beasa e Municipal”, diz o advogado Juarez Tavares, presidente plenipotenciário da Banda da Caxuxa. “É por isso que resolvemos manter a tradição aqui no nosso carnaval. Nós não abrimos mão de marchinhas sendo tocadas ao vivo”.

Com 60 anos de folia no currículo, Walter Pato Preto, o “Sabará”, 74, que começou a pular carnaval com 14 anos nos lupanares Iracema, Ângelus e Verônica, acredita que os jovens redescobriram o gênero à medida que o carnaval de rua renasceu, a partir de fins dos anos 1980. “É um grande resgate cultural, que cresceu ainda mais com as bandas de ruas, mas que ainda não trouxe de volta os grandes bailes nos salões como havia no Saramandaia, Rosa de Maio, Lá Hoje, Piscina e Shangri-lá. É daqueles bailes que eu sinto saudade”, diz ele.

Combustível maior dos blocos e bandas de rua, as marchinhas encantam foliões por mais de um século. E a justificativa para tanto sucesso? A historiadora e presidente do Museu da Imagem e do Som (MIS-RJ), Rosa Maria Araújo, explica: “A marchinha é a crônica musical da cidade. Faz crítica social, política, trata de economia e finanças, do comportamento, dos serviços públicos. São assuntos sempre atuais, como a falta d´água e os buracos nas ruas. Ela está na boca do povo porque é divertida, engraçada, irreverente…”.

As marchinhas foram, ao longo do tempo, veículos para um esporte que o carioca adora: rir das próprias mazelas. O grande sucesso do Carnaval de 1954, por exemplo, foi “Vagalume”, de Vitor Simon e Fernando Martins, com versos que falam de problemas de infraestrutura não de todo resolvidos: “Rio de Janeiro, cidade que me seduz/ De dia falta água, de noite, falta luz”.

O apogeu desse gênero musical ocorreu entre a década de 1930 e o início da de 1970, com intérpretes como Carmem Miranda, Dalva de Oliveira, Silvio Caldas, que apresentavam as composições de craques do quilate de Braguinha, Noel Rosa, Ary Barroso, Haroldo Lobo, Lamartine Babo e João Roberto Kelly. “Bandeira Branca”, de 1970, uma marcha um tanto melancólica, gravada por Dalva de Oliveira e que foi sucesso do Carnaval de 1970, fechou a era de ouro das marchinhas. Por enquanto…

“De uns 15 anos para cá, houve uma retomada do carnaval de rua e as marchinhas voltaram a imperar. Não só as antigas, como algumas atuais também. Ao terem contato com as marchinhas, os jovens são os que mais gostam, pois eles descobrem uma outra narrativa sobre a cidade em que vivem, mas que conhecem pouco”, diz o DJ Careca Selvagem. Ele vai comandar as pick-ups em uma das três barracas-lounge e diz que, além de marchinhas, só vai tocar rock pesado.

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