Balada de inverno

0

Por Edney Silvestre, de Nova York

Este inverno promete. Desde outubro são raras as manhãs com temperatura acima de zero, cada noite o frio bate recordes de anos anteriores, o aquecimento automático – que detona toda vez que o termômetro desce abaixo dos dez centígrados – tem funcionado 24 horas por dia e, na televisão, os arautos da meteorologia estão anunciando que este será o mais rigoroso inverno dos últimos tempos. Um deles chegou a arriscar “do século”. Sábado passado, mais de duas semanas antes da data oficial de sua chegada, tivemos a primeira nevasca.

Não sei o que você acha, mas, pessoalmente, tenho o fascínio que os filhos dos trópicos sentem ao ver neve caindo. Fico hipnotizado por aquela lenta dança indecisa dos flocos que pouco a pouco vão cobrindo as calçadas e ruas, acumulando-se nos tetos e galhos de árvores, abafando os agressivos sons da cidade, envolvendo ruídos e sirenas e buzinas num longínquo murmúrio, como uma cena de cartão de Natal.

Isto é, tinha.

Inverno e neve são ótimos para turistas. Ou para quem gosta de esquiar. Porque, fora de lugares como Vermont, Gstaad & similares, inverno na cidade, passado o encantamento dos primeiros tempos, é uma fonte interminável de incômodo e de minúcias irritantes. Para quem não acredita, basta somar os fatores abaixo.

Pelos próximos quatro meses, nunca mais se poderá abrir as janelas, exceto por curtos minutos. Somem-se a isso os dois meses de outono gelado. E torça para não ter um ataque de claustrofobia. Tendo um (ou apenas precisando dar uma chegada ao supermercado, á delicatessen da esquina, postar uma carta na agência de correios do bairro), cada saída significará vestir camiseta, camisa suéter, paletó, sobretudo, cachecol, meias de lã, luvas. E usar algum protetor nos lábios, senão eles racham de sangrar. E cobrir cabeça e orelhas, pois doem como se lhes estivessem enfiando agulhas.

Na volta para casa – onde se tem a impressão de estar entrando em uma estufa –, tirar  as luvas, o cachecol, o protetor de orelhas, o boné ou o chapéu, o sobretudo, o paletó, o suéter, as meias de lã, guardar tudo se tiver paciência e descobrir, em seguida, que se esqueceu de passar no caixa automático, que fica a quatro quarteirões. E começar tudo de novo: camiseta, camisa, suéter, etc. etc. etc. Pense que isso vai durar dezembro, janeiro, fevereiro e março. Dia após dia, após dia. E tardes. E noites.

Neve é lindo, não é mesmo? Só que, na cidade, ela derrete rápido. As calçadas escorregadias, nas beiras delas formam-se poças d’água ou a neve se acumula em montículos enlameados. Sobre os quais, como ensina a Lei de Murphy, sempre passa um caminhão bem na hora em que você está do lado. Acredite: não há nada de romântico ou bonito no espirrão que, como também ensina outra Lei de Murphy, vai acertar exatamente o seu sobretudo que acabou de voltar do tintureiro.

Quer outro exemplo? Na rua, sempre chicoteado pelo maldito vento que vem do Canadá, seu corpo tenta acostumar-se com a temperatura polar. Aí você entra numa loja (ou cinema, ou estação de metrô, ou restaurante), sempre vestindo sobretudo, cachecol, luvas, suéter etc., e se vê torrando sob uma calefação, no mínimo, vinte graus acima. Então você se despe do sobretudo, luvas, cachecol etc., acostuma-se com o calorzinho (que dá uma modorra). Quando finalmente se adaptou, chega a hora em que tem de sair. Você se veste de novo, camada após camada, como uma cebola. Abre a porta. Cai no Pólo Norte outra vez.

Do nariz sempre escorrendo ou sangrando não vou falar, porque é deselegante. De bronquites, tosses e resfriados tampouco – afinal, fui abençoado com uma saúde de ferro. Da agonia dos intermináveis minutos, cinco que sejam, em qualquer fila do lado de fora dos cinemas, teatros e museus, muito menos. Ou da tortura adicional reservada aos fumantes, obrigados a abandonar seus aquecidos escritórios e (depois de vestirem suéter, paletó, sobretudo etc.) terem que ir para a rua a cada vez que sentem o apelo do vício.

Também não vou citar ressecamento de pele, cabelos elétricos ou coceiras frequentes, causados, segundo uma dermatologista afirmou ao jornal Downtown Resident, “por banhos excessivos”. Ela aconselha uma, no máximo duas (rápidas, sem esfregar) chuveiradas semanais como solução para estes problemas. Sabonete, só nas partes essenciais.

Só pode ser por reação a tanto acúmulo de misérias que os nova-iorquinos conseguiram fazer com que, nesta estação amaldiçoada, a cidade fique mais bonita ainda. Nas árvores peladas, as folhas foram substituídas por centenas de luzinhas brancas, brilhando pelos galhos como uma ilustração de conto de fadas. Portas, umbrais, corrimãos estão enfeitados por guirlandas verdes e laços vermelhos. As torres de prédios gigantescos, como o Empire State, ganham iluminação natalina.

Ao longo da Park Avenue, da Rua 34 até a Rua 96, cada canteiro central exibe uma árvore de Natal em seus dois extremos, todas decoradas com milhares de luzes. Outra árvore, literalmente viva, é formada às quintas, sextas, sábados e domingos no South Street Seaport pelos quarenta componentes de um coral (não são acrobatas: empoleiram-se num palanque que tem esta forma).

As vitrines das lojas famosas, as vitrines das lojas modestas, as vitrines das lojas cafonas, todas de arrumam da maneira mais encantadora, opulenta, atraente ou engraçada, conforme lhes permite a criatividade e pode apreciar o olho da freguesia. Há concertos grátis em templos de todas as religiões, sacolas de compras em quase todas as mãos, decorações impressionantes nos halls de todo grande edifício, singelas nos pequenos.

Verdade que tudo isso acaba em janeiro. Mas, até lá, não há ranhetice que resista a tantas tentativas de encantar os olhos e enternecer o coração. Por mais luvas, cachecóis, suéteres, paletós & outros apetrechos que cada um se veja obrigado a usar.

Deixe uma resposta

Please enter your comment!
Please enter your name here