Aula inaugural: o velho queijo

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Por Xico Sá

A alma de uma cidade sempre foi a sua zona, o cabaré, o brega, o inferninho, a casa da luz vermelha, o rendez-vous, a casa de tolerância, o pemba, o velho puteiro propriamente dito e seus outros tantos batismos. Falo daquela zona clássica, com putas por vocação – nada das patricinhas de programa que usam M. Officer. Gosto de Lilith, geografia da fome da Augusta, estratégias de Lilith.

Falo da zona quase religiosa, extensão dos lares e da missa das pequenas cidades do interior. Durante as festas dos padroeiros, até parecia que Deus e o Diabo haviam traçado uma linha imaginária para delimitar seus terrenos. Deus ficava com o lucro do leilão de almas da igreja; o Diabo, cafetão por excelência, abocanhava os 10% sobre o comércio carnal.

Em Aratama, como em vários outros pequenos povoados do Cariri, era instalado um cabaré ao ar livre durante a festa do padroeiro São Sebastião. As putas chegavam na carroceira de um velho Fenemê, logo nos primeiros dias de novena, e montavam suas barracas de lona no leito seco do rio. Lá, como o vigário, aguardavam as pobres almas famintas.

Com sede fixa ou debaixo de lona, o cabaré era um verdadeiro templo. Cemitério de cabaços, onde nós, já iniciados com o mundo vegetal e animal, especialmente as bananeiras e cabras, íamos pela primeira vez na companhia do pai, um tio safado, um primo sacana devoto do catecismo de Zéfiro.

Era um tempo em que se tudo desse errado pegaríamos no máximo uma inocente gonorreia, facilmente curada à custa de Tetrex 500 mg. O normal, aliás, era ingerir a cápsula antes de perpetrar o tresloucado gesto, medicina preventiva receitada pelos pais, tios safados e primos sacanas. “Na Mooca, meu!, a onda era a mesma”, sopra Abelha, em ronda pela Augusta, SP.

A primeira vez. Uma cerimônia, um dia nervoso e inesquecível. Enfrentar aquela mulher, pedra fundamental do desejo. Se benzer, pedir a Deus para que tudo desse certo. Educação sentimental que começa com a ereção mais suada e o gozo mais precoce.

Mal a dona tirava a saia curtinha, típico abajur de boceta, e já gozávamos. Dali sairíamos para a rua com uma exagerada história de prazer, um verdadeiro ensaio do mais novo Casanova da paróquia, nossas primeiras mentiras meladas de testosterona. Estávamos livres das correntes da donzelice. Adeus, velho queijo armazenado nos porões do juízo.

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