Assédio e cantada

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Por Felix Valois

​​Dar (ou receber) uma cantada já foi atividade trivial entre galãs de todos os gêneros. Falei no passado porque, nos tempos atuais, esse, digamos assim, esporte se transformou em algo da mais alta periculosidade. Assim como a caduquice foi rebatizada como mal de Alzheimer, a cantada se transmudou em assédio sexual e passou a integrar o índex dos politicamente corretos. Não há dia do calendário gregoriano em que a mídia deixe de estampar notícia de que alguém está às voltas com problemas nesse campo.

Nesta semana mesmo, foi a vez do Secretário de Cultura do município de São Paulo. Teve ele seus cinco minutos de celebridade por conta de uma viagem ao Canadá, na companhia de uma servidora do alto escalão de sua pasta. Os dois reconhecem que, por motivos de falhas na reserva, foram obrigados a compartilhar o mesmo quarto de hotel. Juram que em camas separadas e que, em nenhum momento, se dispuseram a brincar de papai e mamãe. Se isso é assédio, minha falecida avó deve ter tido dois pedais e um guidão. Seria uma bicicleta a velhinha.

​​Parto do princípio de que cantada e assédio não podem ser uma só e a mesma coisa, estabelecendo-se a confusão entre os termos apenas por conveniência de ocasião. Naquela, a aproximação mais ou menos sutil, com todas as nuances do que Machado de Assis chamava “o eterno diálogo de Adão e Eva”. No outro, a tônica seria a grosseria em si mesma, até com o uso, de todo em todo reprovável, de uma certa dose de coação, na hipótese de subordinação hierárquica. O Trump mesmo, que tem “gesto e peito” de urso polar, já foi alvo de denúncias de comportamento assediante. Com ele especificamente fica complicada a distinção porque, gentil e educado como tem demonstrado ser, inclusive nas relações diplomáticas, dá para imaginar o teor de delicadeza da aproximação. Algo do tipo “dá logo que eu quero e é agora”.

​​Catherine Deneuve, “La Belle de Jour”, caiu na besteira de assinar um manifesto contra essa demonização da cantada. Foi levada ao calvário pelos patrulheiros de plantão. Tanto lhe infernizaram a vida e as das demais atrizes cossignatárias, que a bela foi obrigada a pedir desculpas públicas. Fraquejou. Afinal de contas, expressou apenas uma opinião e, até onde me é dado compreender, restringir esse direito é procedimento usual nas ditaduras, mas não colhe bem num sistema democrático. Ninguém deve se desculpar por ter feito aquilo que acha correto. Muito menos deve dar satisfações aos que, também exercendo um direito, pensam o contrário.

​​Do jeito que a coisa vai, uma simples piscadela vai acabar fonte de ingresias insuportáveis, podendo até gerar registro de BO nas delegacias da Maria da Penha. É uma pena. Essa intolerância tola está colocando em desuso o brocardo de que “quem canta seus males espanta”, da mesma forma como transforma em temeridade a recomendação de Martinho da Vila: “canta, canta, minha gente”. Cuidado. Não vá cantar no momento errado. E muito menos a pessoa errada. Sua cantoria pode virar amargo pranto.

​​Lembro-me de que nos longínquos tempos do início da minha advocacia, os colegas da esfera cível diziam, meio que a brincar, mas traduzindo uma realidade, que deveria integrar o elenco das obrigações profissionais o seguinte item: “é dever do advogado tentar comer a desquitanda”. Se era razoavelmente jovem e não ostentasse feiura acachapante, a cantada era inevitável. Hoje, tendo a desquitanda virado divorcianda, os coleguinhas estariam em palpos de aranha. Seria assédio no mais elevado grau.

​​Por tudo isso, não há precaução que se mostre suficiente em terreno tão movediço. Deliberei, assim, fornecer uma sugestão inteiramente gratuita aos cantadores de todos os tipos. Escolhida a pessoa de interesse, é conveniente ser o mais formal possível, a ela dirigindo uma petição que pode ser vazada nestes termos:

“Excelentíssima Senhora Dona Maria dos Anzóis. Pascácio Ruela, brasileiro, cantador profissional, domiciliado e residente nesta bela cidade de Manaus, comparece à cativante presença de Vossa Excelência para expor e requerer o seguinte: Não é de hoje que “seu olhar me fascina e seu falar domina”. Quando a vejo, com esse seu andar de santa, é-me impossível não pensar nas delícias que adviriam se Vossa Excelência permitisse que eu lhe fosse ao leito. Garanto-lhe que minhas intenções estão acima de qualquer suspeita. Sou seu admirador de carteirinha e outra coisa não espero da vida que não seja sua aquiescência. Havendo reciprocidade de sua parte, queira se dignar de me levar à felicidade suprema enviando resposta para a caixa postal de número 0000. Termos em que, pede e, ansioso, espera deferimento”.

Seguem-se data e assinatura. Feitas as adaptações de gênero, o modelo pode servir a todos os apaixonados.

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