As mãos santas do grande pajé branco

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Outubro de 1983. Comandando uma frente de trabalho de 30 peões, Orlando Carioca estava na região do lago Urucuri, em Codajás, retirando madeira de lei para trazer pra Manaus. Sua meta era conseguir 500 metros cúbicos de madeira em pranchas, equivalente a 1.500 toras de árvores extraídas.

A derrubada das árvores estava sendo feito no entorno das florestas alagadas para aproveitar as enchentes anuais do rio Solimões e de seus tributários mais próximos.

Para quem não sabe, a derrubada de árvores nas florestas alagadas é um dos trabalhos mais espinhosos do planeta. Os madeireiros embrenham-se na floresta e cortam as madeiras de lei (cedro, peroba, maçaranduba, mogno, etc.) com motosserras individuais, numa espécie de garimpagem na selva, durante o período da estiagem (maio a outubro). As árvores ficam caídas no chão.

Quando começa o período das chuvas (novembro a abril), ocorre o aumento do nível da água nos rios, que podem chegar a 10 metros ou mais, e os troncos flutuam. Só então eles são acorrentados uns aos outros e passam a ser rebocados por uma balsa com empurrador até seu destino final.

Diariamente, Orlando Carioca, acompanhado de dois mateiros, saía de voadeira pelos paranás para acompanhar o trabalho dos peões em picadas distantes até 10 quilômetros do acampamento principal. Numa dessas viagens, ele percebeu que o som de uma motosserra vindo lá dos confins da floresta estava meio diferente.

– Quem é qui está derrubando árvore aqui nessa colocação? – perguntou ele a um dos mateiros.

– O compadre Pernambuco. Por que? – questionou um dos mateiros.

– Deve ter acontecido alguma coisa. O som da motosserra é de quem está serrando o vazio… – explicou Orlando Carioca.

Eles pararam a voadeira na beira do paraná e entraram na mata. Uns cinco quilômetros depois, encontraram Pernambuco se esvaindo em sangue e a motosserra rugindo no chão a uns dois metros de distância. O sujeito explicou o que havia acontecido. Ao enfiar a motosserra num tronco de cedro, a máquina resvalou e veio em sua direção, atingindo-lhe no meio do joelho. Sua rótula saiu inteira. Ele estava com a rótula guardada no bolso.

Supostamente descendente dos índios Katukina, do alto Juruá, Orlando Carioca improvisou um torniquete de cipó na coxa de Pernambuco, orientou os dois mateiros a construírem uma padiola com pedaços de galhos e conduziram o ferido até a voadeira. Meia hora depois, estavam chegando ao acampamento principal.

Orlando Carioca pegou a rótula de Pernambuco, esterilizou com água quente na caçarola de fazer café, depois lambuzou a mesma de terramicina, o único antibiótico existente no acampamento. Na sequência, esterilizou com álcool o buraco aberto no joelho de Pernambuco, encheu o buraco de terramicina e reposicionou a rótula no local. Aí, fez Pernambuco beber meia garrafa de cachaça Praianinha.

Com Pernambuco já meio grogue, Orlando colocou um pedaço de pano na boca do sujeito recomendando que ele “mordesse com vontade”, pediu para os dois mateiros imobilizarem o paciente e começou a costurar o ferimento, a sangue frio, com uma agulha de costurar bola de futebol e linha de pesca, grossa que só papel de embrulhar prego.

Depois de dar quinze pontos no ferimento, cobriu o mesmo com folhas de capeba embebidas em óleo de copaíba, e enfaixou o joelho do paciente com gaze. Pernambuco passou três meses com a perna imobilizada.

Diariamente, Orlando Carioca trocava as folhas de capeba embebidas em óleo de copaíba do joelho avariado. Seis meses depois do acidente, Pernambuco já estava participando de acirradas disputas de futebol no campinho próximo do acampamento.

Orlando Carioca passou a ser chamado pelos mateiros de “o grande pajé branco”. E, graças ao medo imposto aos trabalhadores pelos seus poderes sobrenaturais, nunca se derrubou tanta árvore em tão pouco tempo na história de Codajás. Quase que a região do lago Urucuri se transformava em um novo Saara.

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