As desditas do Colarinho de Garça

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Um belo dia, já por demais cansado de seu permanente constrangimento devido ao surrealista apelido de “Colarinho de Garça”, Antônio Arruda deixou Codajás e se mudou pra Manacapuru, onde trabalhou por quase dez anos como “mata-mosquitos”, combatendo os focos de malária pelos vários rios do Amazonas.

Após alguns anos morando na cidade, ele foi convidado por alguns amigos da repartição para um passeio de barco, cujo destino era a praia do Jurupari, na ilha da Taboca.

O barco partiu de Manacapuru lotado de redes e com muita gente festejando antecipadamente aquele inesquecível passeio fluvial, que estava sendo bancado por um importante político da região.

Antônio entrou no clima de festa e, após tomar algumas cervejas e cachaças, passou a flertar descaradamente com uma bonita morena. Ela fazia parte da turma de cabos eleitorais do referido político, que também havia embarcado em direção à aprazível enseada onde passariam a noite.

O flerte, com troca de olhares sedutores de ambas as partes, foi muito intenso. Lá pelas tantas, ambos se aproximaram e combinaram um encontro amoroso na rede, durante a madrugada. De longe, a moça indicou sua rede em meio ao emaranhado de “baladeiras” que se formara na embarcação.

Caiu a noite, motor desligado, luzes do barco apagadas. Antônio, rastejando pelo chão, chegou à rede da moreninha. A empolgação tomava conta de seus pensamentos lúbricos.

Ainda de fora da rede, ele colocou sua mão nos pés da morena e foi subindo rumo ao ventre da moça.

Quase morreu de susto quando percebeu que estava apalpando Antônio José, um dos cearenses mais bravos da região, que na mesma hora começou a fazer um escarcéu medonho.

Para sua sorte, era uma noite escura como a asa da graúna. Ouvindo a gritaria do arigó, muita gente se levantou das redes e Antônio aproveitou a confusão para sair correndo do barco, pular na praia e sumir na escuridão de breu.

A fim de não despertar suspeitas, ele teve de dar uma volta completa na ilha onde o barco estava atracado e só voltou à embarcação de manhã cedo, com o dia clareando. Explicou que estava procurando ovos de tracajá.

No barco, Antônio Arruda ouviu as conversas do ocorrido na noite anterior, sobre a tentativa de assédio sexual sofrida pelo arigó.

De longe, ele observou o cearense armado com uma peixeira na cintura. Mais grosso do que pentelho de barrão, o arigó estava jurando pra todo mundo que ia “cortar as tripas do fio da égua que tinha patolado suas partes”.

Pra completar, a morena ainda ficou cismada de que Antônio Arruda tinha fugido do encontro sexual previamente combinado com ela porque não dava mais no couro. Desgraça pouca é bobagem.

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