As calças do presidente

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Por Edney Silvestre, de Nova York

Uma certa Ms. Jones afirma que Bill Clinton baixou as calças e, apontando a própria anatomia em absoluto estado de alerta, lhe ordenou: “Beije!”

Segundo seu relato, a proposta presidencial ocorreu no quarto de um hotel, onde teria sido requisitado pelo então governador do Arkansas, estado do qual era funcionária. Porque, garante, se recusou a obedecer ao comando do supremo mandatário, teria sofrido perseguições e sido impedida de progredir na carreira. Ms. Jones está processando o presidente americano e exigindo indenização de 700 mil dólares, num caso que vem ocupando páginas de jornais sérios e tabloides, além de fazer a delícia dos inimigos do presidente americano, que não são poucos.

Bill Clinton, como é do conhecimento de todos, é um homem de grandes apetites, nem sempre refinados. Durante a campanha eleitoral, suas constantes paradas em lanchonetes, para comer gordurentos hambúrgueres e batatas fritas, foram amplamente documentadas e devidamente acusadas de demagogia populista, até ser descoberto que ele realmente – argh! – é fã de junk food. Tomando por exemplo as senhoras que afirmam ter partilhado seu outro apetite fenomenal, a escolha de parceiras caminha em direção semelhante.

A mais conhecida é uma certa Ms. Gennifer Flowers. Talvez cantora (segundo ela própria), talvez stripteaser (a se crer em informações outras), Ms. Flowers é uma loura oxigenada, fartas carnes, de trinta e sabe-se lá quantos anos, imediatamente famosa ao espalhar aos quatro ventos que o então candidato democrata Bill Clinton e ela mantinham uma relação intimíssima há vários anos.

A imprensa republicana fartou-se com mais esse possível deslize moral do rival de George Bush – até o momento em que Hillary Clinton deu um basta e ameaçou revelar “a outra Jennifer”. Ou seja, o conhecidíssimo fato nas rodas do poder de Washington de uma certa senhora morena, também de nome Jennifer (com jota), por quem George Bush há muitos anos viria trocando a doce e matronal Barbara.

Hillary podia estar blefando para salvar o marido, mas o fato incontestável é que o assunto imediatamente sumiu dos noticiários, levando comigo as promessas de contrato para Ms. Flowers gravar um disco, que já estava a caminho.

Pois Ms. Flowers está de volta, graças a Ms. Jones. Mas, ao contrário do que se poderia supor, desta vez pulou para o lado da defesa. “Meu Bill”, diz, com ar de conhecedora, “jamais baixaria as calças diante de uma mulher dessas; aliás, ele não baixa as calças.”

Faz sentido, e se tornou o grande furo na acusação da funcionária pública ultrajada. Como qualquer pessoa acima de catorze anos sabe, o ato supostamente proposto por Mr. Clinton nunca exigiu o abandono total ou parcial de vestimentas, pelo menos desde que inventaram a braguilha.

Se a intenção era humilhar a pobre barnabé ou mesmo uma satisfação rápida (havia convidados aguardando Mr. Clinton), mais razão para que mantivesse o guarda-roupa completo.

Há outros furos.

A situação teria ocorrido em 1990. Por que só vir a público agora – e pelas mãos de um velho arquiinimigo republicano do presidente? Como pode afirmar que foi perseguida se ganhou aumento de salário e promoções no emprego? Se está tão ultrajada hoje, por que na época parecia deliciada com a visita feita ao quarto?

Ms. Jones garante que, se ganhar o processo, doará a indenização a entidades beneficentes; mas e os lucros do livro que já está sendo escrito? E o faturamento com o filme – ou filmes – para a televisão (até agora não passam de especulações)?

Perguntar, com malícia, o que foi fazer no quarto de Mr. Clinton não vale, pois ela poderia, perfeitamente, ter adentrado a alcova coberta de boa-fé. Mas o fato de a própria irmã estar dando entrevistas onde se refere a um comportamento, digamos, muito além do liberal na relação que a morena de olhos claros mantinha com inúmeros cavalheiros, além de insinuar que a conta bancária da mana sempre aumentaria na manhã seguinte, certamente não contribui para fazer de Ms. Jones um exemplo de castidade e modéstia.

No Brasil, onde o ex-presidente Itamar Franco foi manchete devido a uma situação onde também havia calças em foco, ainda que não as suas, no notório episódio carnavalesco que nos tornou (mais uma vez) motivo de chacota internacional, as acusações de Ms. Jones seriam pouco mais que uma piada nova ou boa oportunidade para charges.

Aqui, onde o cargo exige dignidade, o buraco é mais embaixo.

No fundo, ninguém – nem mesmo os mais furibundos republicanos – acha que Ms. Jones possa ser levada a sério. Mas essa não parece ser a ideia por trás do escândalo. A intenção, ao que tudo indica, é desmoralizar Bill Clinton, desacreditar sua seriedade e, na rasteira, levar junto a combativa Hillary.

Uma Gennifer aqui, uma Ms. Jones ali, e logo os planos para desbaratar o baronato do seguro-saúde (para ficar em apenas um dos projetos que mexem com os indecentes lucros de uma minoria) ficam minados. Para não falar dos estragos que fará na tentativa de reeleição. Acompanhem os próximos capítulos e vejam se estou errado.

Como última informação: Ms. Jones nem é lá essas coisas. Mesmo para quem gosta de fast food, como Bill Clinton.

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