As alegrias eternas (2)

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Praça Uruguayana com a Delegacia Fiscal Fonte: Postal de Alain Coix (França) Coleção: Jorge Herrán

Por Jefferson Peres

Em 1942 chegava a Manaus, de Recife, um alagoano irrequieto e obstinado, que tinha a mania de fazer coisas. Seu nome, Gebes Medeiros. Entusiasmado pelas artes cênicas, e com alguma experiência no ramo, pois fora um dos fundadores do Teatro do Estudante de Pernambuco, sentiu o grande vazio que existia em nossa terra. O Teatro Amazonas inativo, abrigando em seus bastidores o escritório da RDC, as demais casas de espetáculos funcionando apenas como cinemas, ou fechadas, e nenhum grupo teatral organizado.

Um ano depois de sua chegada, já como diretor do DEIP (Departamento Estadual de Imprensa e Propaganda), Gebes pôs mão à obra e fundou o Teatro-Escola Amazonense de Amadores, reunindo o velho João Braga (dono da extinta Casa das Sombrinhas), com alguma experiência de direção, Campos Dantas, autor, com algumas peças escritas, Fueth Paulo Mourão e Américo Alvarez, entre outros. Com suas atividades interrompidas dois ou três anos depois de criado, quando Gebes se retirou de Manaus, o Teatro-Escola seria reaberto no seu retorno, cerca de vinte anos mais tarde, já nos idos de 65, durante o governo Arthur Reis.

Por sinal, nessa segunda fase, o grupo passaria por maus momentos, ao ter de encenar, fora do palco, involuntariamente, uma verdadeira ópera-bufa. Sob a direção de Gebes e o patrocínio do MEC, uma trupe de moças e rapazes saiu em excursão pela Amazônia e chegou a Macapá, Território do Amapá, onde encenaria A Prostituta Respeitosa, de Sartre.

Na noite de estréia, com a casa cheia e presente o Governador, o espetáculo se desenrolou normalmente até o final. Mas antes de cessarem os aplausos, eis que se levanta o governador, um general, e pronuncia um discurso, dizendo que não interrompera o espetáculo em respeito ao público, mas queria manifestas seu protesto contra a encenação de uma peça imoral e subversiva, e por aí foi, sob constrangimento geral. Em seguida retirou-se, deixando os atores perplexos e deprimidos.

Nesse estado de espírito regressaram ao hotel, para ter uma surpresa ainda maior, ao encontrarem à sua espera um batalhão choque da Polícia, que lhes deu a voz de prisão, recolhendo todo o elenco, Gebes no meio, à Delegacia. Foi necessária a intervenção do coronel Jarbas Passarinho, governador do Pará, e de autoridades do MEC, para que o grupo se livrasse do vexame. Pouco depois dessa infeliz excursão, e por outros motivos, o Teatro-Escola encerrava definitivamente suas atividades.

Mas voltemos ao seu início, no distante ano de 1943. Gebes escolhera, como peça inaugural, Yara Boneca, um texto de Ernani Fornari, leve, um tanto açucarado, bem ao gosto do público da época e adequado ao nível dos atores inexperientes que convocara. Entre eles se incluía Maria Amália, escolhida para o papel-título. Os ensaios duraram meses e Gebes estava exultante com o desempenho da protagonista, que se apresentava muito à vontade, com uma desenvoltura surpreendente para quem nunca pisara num palco. Tudo indicava que tinha potencial para ir muito longe. Se deixassem. Mas não deixaram.

Um dia, a três semanas da estréia, Gebes foi procurado pelo velho Benjamim Ferreira, que lhe comunicou, pura e simplesmente, alegando motivos de ordem pessoal, que sua filha não mais participaria da peça. Gebes entrou em pânico. O prazo para substituição da atriz principal era muito curto e o adiantamento da estréia seria um transtorno. Argumentou tudo isso, insistiu, implorou, mas Benjamim se manteve irredutível. Nem a interferência de poderosos amigos conseguiu demovê-lo. O jeito foi arranjar outra moça, Laís Teles de Souza, que se adaptou perfeitamente ao papel, permitindo a estréia na data marcada. Evitou-se o fracasso da peça, mas não o malogro do sonho de Maria Amália, que ainda compareceria a um último ensaio, para se despedir dos colegas, com muita dignidade, sem lamúrias, mas sem conseguir esconder, no rosto abatido, a marca da desilusão que lhe ficara.

Essa grande frustração seria compensada, alguns anos depois, por ocasião do concurso para a escolha de Miss Amazonas, o primeiro que se realizava desde os anos trinta. Mas era eleição direta, por votação popular, usando-se como cédulas cupons estampados em O Jornal, que eram recortados e preenchidos livremente por quem quisesse. Apresentaram-se cinco ou seis candidatas, mas de saída a disputa se polarizou em Maria Amália e Yeda Zalduando. Esta era uma bonita morena, descendente de bolivianos ou peruanos, que trazia nos olhos ligeiramente amendoados um traço denunciador dos seus ancestrais índios. Conheci-a garota, morando na Marcílio Dias e, mais tarde, nos altos da Funerária Almir Neves, na esquina de Lobo d’Almada com Henrique Martins, em companhia de sua mãe, uma senhora chamada D. Pura, e de seu padrasto, um cidadão americano cujo nome eu jamais soube. Ele era portador de um defeito na perna que balançava ao caminha, e por isso ganhou o apelido de Deixa Que Eu Chuto, que muito o irritava quando era chamado.

O concurso se estendeu por alguns meses e foi empolgante como um campeonato de futebol, com o envolvimento de boa parte da população, que discutia ardorosamente sobre as qualidades das candidatas. Os votos eram apurados diariamente, com Maria Amália sempre na dianteira, terminando com larga margem de vantagem sobre sua rival. Recebeu a faixa numa noite de apoteose, com o discurso de saudação proferido pelo então estudante Almino Affonso, perante um Teatro Amazonas lotado. A partir daí só se fez crescer o número de admiradores de Maria Amália, alguns tomados de paixão vulcânica.

Um desses apaixonados, conhecido por toda Manaus, era o capitão Ubirajara Barbuda Thury. O militar, que não chegava a ser um Adônis, não era correspondido, mas insistia com rara tenacidade. A moça era perseguida em todos os lugares, em festas, em cinemas, nas ruas e em casa, através de telefonemas, sempre com propostas de casamento, que ela delicadamente recusava. Quando Amália encetava um namoro, ele procurava o rapaz a fim de persuadi-lo a desistir, sob a alegação inverídica da existência, entre os dois, de um antigo e sólido compromisso momentaneamente interrompido por um arrufo sem importância.

Contam antigos vizinhos que muitas vezes viram Barbuda, já as seis horas da manhã, encostado num poste em frente à casa de Maria Amália, na ansiosa espera de que ela assomasse à janela, para vislumbrá-la, ainda que fosse por um momento fugaz. Até que um dia o obstinado capitão lhe tributou a maior homenagem que qualquer militar já terá prestado à sua amada. Vinha ele pela Avenida Epaminondas, a cavalo, no comando de uma companhia que se dirigia ao stand de tiro, quando Maria Amália apareceu, vindo da Praça da Saudade, caminhando em sentido contrário. Tomado de intensa emoção, Barbuda não teve dúvidas, e ergueu a voz de comando: Companhia, alto! Meia-volta, volver! E escoltou-a por alguns quarteirões, até que ela, lisonjeada, mas encabulada, conseguisse escapar, entrando na primeira casa de amigos que encontrou.

Outro obcecado por Maria Amália era Adaucto Rocha, que um dia foi vítima de um episódio hilariante. Adaucto era jornalista e escritor, estudioso de problemas regionais, com dois livros publicados sobre assuntos econômicos. Baixo, desmazelado no vestir, cego de um olho, que procurava ocultar atrás de óculos escuros, não era tipo que impressionasse mulher alguma. Como se não bastasse, fumante inveterado, tinha preferência por um mata-rato de marca Asas, que trazia permanentemente na boca, acendendo um cigarro no outro.

Apesar de sua paixão por Maria Amália, que não escondia aos amigos, Adaucto jamais tentara abordá-la, consciente da sua falta de atrativos físicos. Um dia seus amigos mais chegados, à frente Pedro Ubiratan de Lemos, Alfredo Aguiar e Adel Mamede, resolveram pregar-lhe uma peça. Resumiu-se à expedição de dois telegramas. Um, para Benjamim Ferreira, em nome de Adaucto, comunicando que iria à sua casa, no dia seguinte, às vinte horas, pedir Maria Amália em casamento; outro, para Adaucto, em nome de Benjamim, o qual, dizendo-se sabedor da admiração que sentia por sua filha, tinha a honra de convidá-lo para fazer-lhe uma visita, no dia seguinte, também às vinte horas, a fim de dar início a um relacionamento que era do gosto de toda a família. É fácil imaginar que as duas mensagens tiveram efeitos bem diferentes. Adaucto, perplexo, entrou em êxtase; o velho Benjamim, igualmente atônito, ficou uma fúria.

Qualquer pessoa sensata, no lugar de Adaucto, receberia com incredulidade o insólito convite e trataria de averiguar a sua autenticidade. Mas a sensatez não costuma ser atributo dos apaixonados, que querem tomar como reais os seus desejos, mesmo quando contrariam a lógica e o bom senso. Não é de causa espanto, assim, que ele tivesse acreditado piamente no telegrama e, cheio de emoção, se preparasse para o mais importante acontecimento de sua vida. No dia aprazado, às sete e meia da noite, chegava ao bar Avenida, onde já encontrou a roda de gozadores formada, à espera do desfecho.

Era um homem diferente, barba feita, cuidadosamente penteado, recedendo a perfume, o velho terno de tropical lavado e passado, e o rosto a espelhar a própria beatitude. Indagado sobre a transformação, desconversou, com um ar de mistério. Seu nervosismo era traído pelas disfarçadas e frequentes consultas ao relógio, enquanto os outros fingiam não perceber e, a muito custo, continham o riso. Perto das oito, despediu-se e se pôs a caminho, seguido pelos amigos tão logo dobrou a esquina da Eduardo Ribeiro com 24 de Maio. Ali ficaram, à espreita, protegidos pelas mangueiras existentes em frente à igreja dos padres agostinianos, enquanto Adaucto batia palmas na cada de Maria Amália.

Atendido à porta pelo próprio Benjamim, puderam perceber, pela gesticulação, que o velho aplicava uma forte reprimenda ao indesejável visitante, sem dar-lhe tempo para explicações. Suspeita confirmada a seguir, quando a porta se fechou e Adaucto empreendeu a melancólica retirada. Rapidamente, os deliciados espectadores, se esbaldaram de rir, voltaram ao bar Avenida, onde ficaram à espera, como se nada tivesse acontecido. Adaucto chegou, arrasado, mas não deu o braço a torcer. Sentou-se, pediu cerveja e, sem fazer comentários, tomou um pifão monumental.

Meses depois, para a grande tristeza de todos nós, Amália viajava definitivamente para o Rio de Janeiro, onde mais tarde se casaria. Que eu saiba, nunca mais pisou em Manaus. Não sei que mágoas terá levado, para não mais desejar rever a cidade que tanto a amou. Ou, quem sabe, terá preferido que guardemos dela a imagem da esplêndida mulher daqueles dias, que, para adotar uma expressão feliz, encheu a nossa juventude como um clarão. Anos depois, ao reencontrá-la no Rio de Janeiro, pedi-lhe uma explicação, mas ela, educadamente, desconversou.

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