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Por Millôr Fernandes

… Se Tornar Ladrão

Muitos afirmam que o ladrão nasce, não se faz. Os outros, menos biologais e mais sociais, acreditam que o meio é que faz o ladrão. Existem ainda os destinatários, que acreditam que quem o faz – o ladrão – é apenas a ocasião.

Embora haja poucas escolas (organizadas!) para pequenos ladrões, existem imensas faculdades e universidades para profissionais de nível superior. Porém a admissão numa dessas academias só é conseguida se você demonstrar: 1) que sabe retirar uma vidraça sem ferir os dedos; 2) que é capaz de desligar um fusível sem provocar um curto; 3) que entra pela janela em qualquer concurso.

As anuidades do curso são pagas, obrigatoriamente, com dinheiro ganho de maneira desonesta.

… Se Tornar Ministro

Embora o cargo de ministro seja uma sinecura, chegar lá é toda uma outra coisa. É trajetória que custa tempo, dinheiro e saco; longas horas de espera em corredores, adulação de gordas proprietárias de veículos de divulgações, consumo, em restaurantes da moda, de comidas e bebidas capazes de ulcerar os estômagos mais fortes, períodos mais ou menos prolongados nas estepes de Brasília, estágios na Bolsa de Valores, enfim, toda uma gama de sacrifícios que exigem robustez física e força moral (de vontade). Por isso é impossível a um homem de povo chegar a ministro, a não ser que venha de um Estado poderoso como, por exemplo, o Piauí.

… Se Tornar Idiota

Ler diariamente todos os jornais. Assistir, diariamente, os programas do horário nobre. (Quando você começa a usar esta expressão já está no caminho certo.)

… Ser Um Industrial Brasileiro

Para isso basta ser um industrial americano. Alemão, melhor ainda. Embora o fino mesmo seja ser japonês. O sotaque ajuda muito.

… Entrar Para o Clube dos Alcoólicos Anônimos.

Um bom começo é ser um alcoólatra notório.

… Fazer Parte do Café (em pó) Society.

Boa cara, sobretudo mafiosa, total desprezo por meios comuns de subsistência, absoluto tédio em relação à cultura teórica, profunda cultura existencial (saber todas as bebidas, comidas e cheiradas da moda) e capacidade imensuráveis de gastar dinheiro dos outros, abrirão facilmente pra você todas as portas do café (em pó) society, aliás, sempre franqueadas por delicadíssimos leões-de-chácara. Uma vez dentro, você terá apenas que continuar a exprimir, em palavras ou horário de levantar da cama, todo o seu insopitável protesto contra as formas vigentes de trabalho, dando apoio total as todas as formas de frivolidade, em sistemática oposição (seven-to-seven) às inconsistências do nosso sistema.

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