Amor: insumo ou comodity?

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Por Jurandir Freire Costa

Que diferença há, ou pode haver, entre cães no cio, no meio da rua, em pleno sol do meio-dia, e um casal de humanos, desnudos, entre os lençóis de cetins na novela das oito? Claro, muitos poderiam dizer que a diferença está no balde de água fria. Mas essa linha tênue que os divide pode estar a no olhar de quem assiste, ou ainda, no olhar daquele que nos imputa a assistir a segunda cena como sendo parte de uma “normalidade” que se manifesta à nossa revelia – e que talvez pudesse sobreviver sem a nossa anuência.

Atualmente, a superexposição de corpos e a crença de que possam ser as mais perfeitas máquinas de prazer e felicidade, nos fazem ansiar por esse pertencimento, como se nos engajássemos nesse bem político. Hoje, não só copiamos o modo de vida de outras pessoas, como queremos de verdade ter a mesma vida que elas, nos vestirmos iguais a ela e ter o mesmo prazer que julgamos que elas possuam. No novo corpo social, todos se parecem, como clonados de uma matriz humanamente ideal.

Haveríamos de nos perguntar o porquê de tanto interesse em comparar a intimidade de outros com a nossa. Onde estaria a vanguarda dos reality shows quando, até o século 17, a vida privada era vivida em público? Nos tempos medievais, as pessoas de classes, idades e sexos diferentes tinham por hábito tomar banhos coletivamente, em lugares públicos, além de compartilhar o mesmo leito nuas – salvaguardando algumas ordens monásticas, onde era prescrito dormirem vestidas.

Hoje, a mídia expõe a vida íntima de astros, políticos e traficantes. Mercantilizam tudo o que possa satisfazer nossa curiosidade quando nada parece ser realmente novo. E talvez não seja mesmo. Desde os tempos monárquicos que o fuxico vem sobrecarregando os ouvidos daqueles que louvam sapear a vida alheia.

Também sempre houve o interesse da Casa Grande pela Senzala, onde os nobres e abastados ansiavam conhecer como viviam os despossuídos da moeda, como eram seus gostos, como obtinham prazer e alegria de viver com um mínimo de conforto, escassez de alimentos e quase nenhum saber. E o que a pieguice os impedia de praticar à luz do dia, desfazia-se com a maior benevolência com a chegada da noite, na mais perfeita comunhão de fogosos.

Nossa fraqueza humana já é por demais conhecida. Quando o assunto é sentir prazer, vale trair o Pai no Paraíso. Sabemos reconhecer a delícia desta iminente sensação quando adquirimos os bens que o capital nos induz a possuir. E, mesmo que seja por efêmeros segundos de puro êxtase, já nos damos por satisfeitos e saciados quando a moeda nos honra em nossas mais arraigadas necessidades, mesmo quando sabemos que ela pode comprar uma sensação, mas nunca um sentimento. Talvez aí esteja a nossa redenção, ao reconhecermos que há algo imaterial e por demais essencial para ser tão banalizado.

E como nos legou Milton Santos: “A tirania do dinheiro e a tirania da informação são os pilares da produção da história atual do capitalismo globalizado. Sem o controle dos espíritos seria impossível a regulação pelas finanças”. Já temos por onde começar.

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