Américo Madrugada e a paixonite aguda do Antônio Titia

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Considerando o maior sambista da história por diversos músicos, Cartola nasceu no Rio de Janeiro e passou a infância no bairro de Laranjeiras. Dificuldades financeiras obrigaram a família numerosa a mudar-se para o morro da Mangueira, onde então começava a despontar uma pequena favela.

Na Mangueira, ele fez logo amizade com Carlos Cachaça e outros bambas, se iniciando no mundo da malandragem e do samba. Arranjou emprego de servente de obra, e passou a usar um chapéu para se proteger do cimento que caía de cima. Era um chapéu-coco, mas o apelido Cartola pegou assim mesmo.

Com seus amigos do morro criou o Bloco dos Arengueiros, cujo núcleo em 1928 fundou a Estação Primeira de Mangueira, a verde-rosa, nome e cores escolhidos por Cartola, que compôs também o primeiro samba, “Chega de Demanda”.

Seus sambas se popularizavam nos anos 30 em vozes ilustres como Francisco Alves, Mário Reis, Sílvio Caldas e Carmen Miranda. Mas no início dos anos 40, Cartola desaparece do cenário. Pouco se sabe sobre essa época além de que brigou com os amigos da Mangueira e que ficou mal depois da morte de Deolinda, a mulher com quem vivia. Especulou-se até que houvesse morrido.

Cartola só foi reencontrado em 1956 pelo jornalista Sérgio Porto, trabalhando como lavador de carros. Sérgio Porto tratou de promover a volta de Cartola, levando-o a programas de rádio e o fazendo compor novos sambas para serem gravados.

Em 1964, Cartola e a esposa Zica abriram um bar-restaurante-casa de espetáculos na rua da Carioca, o Zicartola, que promovia shows de samba e boa comida, reunindo no mesmo lugar a juventude bronzeada da Zona Sul carioca e os sambistas do morro.

O Zicartola fechou as portas algum tempo depois, e o compositor continuou com seu emprego público e compondo seus sambas. Em 1974, gravou o primeiro de seus quatro discos solo, e sua carreira tomou impulso de novo com clássicos instantâneos como “As Rosas Não Falam”, “O Mundo É Um Moinho”, “Acontece”, “O Sol Nascerá” (com Elton Medeiros), “Quem Me Vê Sorrindo” (com Carlos Cachaça), “Cordas de Aço” e “Alegria”. Ainda nos anos 70 mudou-se da Mangueira para uma casa em Jacarepaguá, onde morou até a morte.

Em Manaus, o compositor e cantor Américo Madrugada, com sua voz de trovão, tornou-se o grande divulgador de Cartola. A exemplo do ídolo, Madrugada nunca dispensou uma serenata nem um copo de água que passarinho não bebe, tornando-se um dos boêmios mais conhecidos da cidade.

Amigo de infância do também boêmio, fã do mestre Cartola e biriteiro de carteirinha Sérgio Litaiff (o advogado que inventou o nome da BICA, a famosa banda do Bar do Armando), Américo Madruga não perdia um Baile de Gala do Rio Negro, um dos clubes mais elitistas da cidade. Em uma dessas festas, Américo e Sérgio se encontraram com o famoso Antônio Titia, rio-negrino doente e diretor de bateria da famosa Batucada do Rio Negro.

Titia apresentou sua noiva para os dois amigos e o quarteto passou a noite conversando animadamente em uma das mesas. Lá pelas tantas, o batuqueiro intuiu que sua noiva estava “flertando” com o compositor.

Na realidade, Américo Madrugada não tirava os olhos do colo da menina porque estava invocado com uma solerte mancha de ketchup que se instalara no seu (dela) bustiê – decotadíssimo, por sinal!

Antes de a banda tocar “Cidade Maravilhosa”, anunciando o fim do espetáculo, Antônio Titia já havia xingado a noiva de cadela, tentando agredir Américo Madrugada, distribuído porrada nos garçons, chutado o balde de gelo da mesa ao lado, quebrado um vidro de lança-perfume na cabeça de um segurança, enfim, já havia virado o cão chupando manga. O invocado batuqueiro foi colocado pra fora do clube entoando um mantra repleto de palavrões e prometendo vingança.

Sérgio Litaiff ainda estava tentando curar a ressaca no dia seguinte, quando sua mãe, em pânico, entrou no quarto:

– Tem um amigo teu aí embaixo dizendo que vai se matar…

O advogado passou uma água no rosto, escovou os dentes, engoliu meia dúzia de cibalenas e desceu vagarosamente as escadas que separavam seu quarto da sala de visita. A cena era verdadeiramente esdrúxula.

A mãe do advogado, Maria da Paz, uma evangélica fervorosa, estava tocando piano entoando cânticos bíblicos para afastar o “tinhoso”, enquanto Antônio Titia, com uma faca de cortar pão, tentava seccionar a carótida. Um único pescoção do Sérgio Litaiff jogou a faca a uns cinco metros e fez o sujeito cair na real.

Chorando copiosamente, Titia explicou que sua vida não fazia mais sentido, que havia perdido a mulher de sua vida e que o culpado de tudo era aquele crápula chamado Américo Madrugada. Sérgio Litaiff telefonou para o compositor, exigindo sua presença urgente.

Eram oito horas da manhã. Como Madrugada ainda não havia parado de beber, ele achou que o convite era para os dois continuarem a bebedeira na Ponte da Bolívia.

Quando chegou na casa do advogado, o compositor estranhou encontrar Antônio Titia ali na sala, chorando feito um bezerro desmamado, enquanto a mãe de Sérgio tocava cânticos religiosos num imponente piano de cauda, mas achou que carnaval tem mesmo dessas presepadas.

– O Titia está querendo se matar e diz que você é o culpado! – explicou Sérgio Litaiff. “Ele disse que perdeu a noiva por tua culpa e agora está precisando muito da tua ajuda…”.

– Por mim, tudo bem! – devolveu o compositor. “Pede pra ele parar de chorar, coloca ele no carro e vamos lá pra Praça da Polícia resolver essa parada!”.

Sérgio Litaiff, que também estava meio chapado, obedeceu. Os três desceram do carro do advogado e ficaram posicionados no cruzamento da Sete de Setembro com a Getúlio Vargas.

Antônio Titia continuava chorando copiosamente e implorando pra morrer. Américo Madrugada explicou o plano:

– Os ônibus Ana Cássia sobem a Getúlio Vargas com borra e fazem essa curva aqui cantando os pneus. Basta a gente empurrar esse filho da puta na frente de um deles…

Dito e feito.

No primeiro ônibus que apareceu a 100 km/h, Américo Madrugada empurrou o sujeito pro meio da pista. O motorista bem que meteu o pé no freio, mas se Antônio Titia não tivesse tido a explosão de um velocista nos 100 metros rasos e disparado feito um raio, teria virado defunto.

O batuqueiro nunca mais pensou em suicídio e só parou de correr quando chegou em sua casa.

Os dois parceiros, que haviam intentado o chamado homicídio culposo que não deu certo, continuaram a bebedeira no Café do Pina.

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