Almerinho Botelho e o primeiro show do Zeca Pagodinho em Manaus

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Deputados Bosco Saraiva e Adjuto Afonso ladeiam o presidente do Olímpico Clube, Almerinho Botelho

Jessé Gomes da Silva Filho, mais conhecido como Zeca Pagodinho, nasceu em Irajá, subúrbio do Rio de Janeiro, onde conheceu o samba autêntico nas rodas de samba do bairro que eram frequentadas por grandes mestres do samba. Desde cedo, Zeca fazia seus versos e melodias e, com o passar do tempo, foi se destacando como grande improvisador, versando nas rodas de partido alto com maestria e singularidade.

Zeca Pagodinho foi descoberto em 1981 por Beth Carvalho em uma roda de samba do Cacique de Ramos. Impressionada com os versos de improviso metralhados por Zeca numa velocidade estonteante, Beth o convidou para participar de seu disco, cantando com ela o samba “Camarão Que Dorme A Onda Leva”, dele e de Arlindo Cruz.

Depois disso, a gravadora RGE convidou aquele menino de 23 anos a participar de um disco que reunia outros quatro novos nomes no mundo do samba – Jovelina Pérola Negra, Mauro Diniz, Pedrinho da Flor e Elaine Machado, com cada um cantando quatro músicas. O disco, com nome de “Raça Brasileira”, foi um estouro de vendas e de execução, com mais de 100 mil cópias vendidas rapidamente.

Em 1988, ele veio se apresentar pela primeira vez em Manaus, num show exclusivo do Clube do Samba. Quando soube da história, Almerinho Botelho, presidente do Olímpico Clube, procurou o empresário Carlos Moutinho, no Clube do Samba, para que o pagodeiro também fizesse um show no Clube dos Cinco Aros.

Como o show no Clube do Samba era no sábado, Carlos Moutinho ofereceu a única data disponível: sexta-feira. E cobrou apenas o cachê do músico, cerca de R$ 60 mil, para ser pago de duas vezes. Almerinho entregou logo R$ 30 mil e ficou de dar o restante no dia do show.

Guerreiro como sempre, Almerinho foi à luta: colocou cinco carros-volantes na cidade, espalhou dez mil cartazes nos locais de grande aglomeração popular, deu entrevistas em rádios, publicou notas em jornais, enfim, fez a mídia inteira jogar a seu favor.

Com quinze dias, todo mundo estava convencido de que Zeca Pagodinho viria a Manaus para fazer um show no Olímpico Clube, não no Clube do Samba. Os empresários Aloísio Preto e Vilson Benayon, donos do Clube do Samba, resolveram melar o contrato. Almerinho chamou o advogado Alberto Simonetti Filho para defender seus interesses.

Depois de muito lengalenga, as duas partes entraram num acordo. Almerinho deixaria a mídia inteiramente por conta do Clube do Samba, que se encarregaria de fazer, também, a propaganda do show no Olímpico.

Como o novo plano de mídia era excessivamente tímido e de baixo impacto (meia dúzia de faixas de morim penduradas em postes… É, só quem conhece aqueles dois “unhas de fome” pode aquilatar o tamanho da encrenca), a população teve a impressão de que o show do pagodeiro havia sido cancelado.

Na sexta-feira, dia do show, Almerinho e Edu do Banjo foram conversar com Zeca Pagodinho no hotel.

– Porra, Edu, por que vocês não combinaram o show direto comigo? – questionou o pagodeiro. – Esse Carlos Moutinho é o maior embaço… Aí, quando se junta com Aloísio e Benayon, fudeu geral…

– Eles falaram que tinham exclusividade contigo – explicou Almerinho. – Por causa disso, só nos cobraram o teu cachê: 60 paus!

– O quê?! – espantou-se Zeca Pagodinho. – O meu show custa apenas 20 mil. Se eles cobraram a mais, vão ter de devolver o dinheiro…

Os três foram então no escritório de Carlos Moutinho. Depois de muita discussão e ameaças de Zeca Pagodinho de não realizar mais o show em lugar nenhum, o empresário devolveu 10 mil a Almerinho, da primeira parcela dos 30 mil, e rasgou a duplicata dos outros 30 mil.

Na sexta-feira à noite, caiu o maior pé-d’água na cidade. Ninguém se aventurou a enfrentar o vendaval. O Olímpico estava praticamente entregue às moscas.

Profissional como sempre, Zeca Pagodinho entrou no palco pontualmente às 11 horas da noite e, sem se importar com a reduzida audiência, começou a desfilar os hits do LP “Jeito Moleque”, lançado naquele ano: “Manera Mané”, “Feira De Acari”, “Pisa Como Eu Pisei” e por aí afora.

Duas horas da manhã, quando Almerinho contabilizava o prejuízo (o borderô indicava exatos 79 pagantes e 25 mesas vendidas. Como o ingresso custava R$ 100 e a mesa R$ 500, o apurado mal dava para cobrir o cachê do pagodeiro e dos músicos da banda), chega o representante do Escritório Central de Arrecadação de Direitos Autorais (Ecad), com a nota da fatura: R$ 15 mil.

Almerinho estava tão puto que queria cortar o pescoço do sujeito com uma navalha e chupar sua carótida com canudinho, na frente de todo mundo.

Depois de muita discussão, o representante do Ecad chegou a um acordo: se Zeca Pagodinho topasse fazer uma roda de pagode improvisada ali, pra eles curtirem um show intimista, a fatura não seria cobrada.

Para livrar a pele de Almerinho, o renomado pagodeiro topou, mas exigiu uma pizza de mozzarella com catupiry e bastante Brahma gelada na temperatura véu de noiva.

Depois que os acepipes foram providenciados, Zeca Pagodinho comandou a roda de pagode até às 5 da manhã. O representante da Ecad saiu em estado de graça e nunca mais encheu o saco do Almerinho.

No dia seguinte, no Clube do Samba, mais de 3 mil pessoas foram prestigiar o pagodeiro, com ingressos pela metade do preço (R$ 50) e mesas liberadas. Aloísio Preto e Vilson Benayon lavaram a burra. Acontece.

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