Ainda falta algum “lib”?

0

Por Millôr Fernandes

Depois de tantos movimentos de libertação, do Negro’s Lib ao Woman’s, do Gay’s Lib ao Old Men’s, parecia que nada mais havia a liberar. A verdade é bem outra:

Gago’s Lib – Reivindica para os gagos, no rádio e na televisão, cargos de locutores em proporções igual aos ocupados por profissionais normais. O Gagos’s exige também que todas as lojas empreguem gagos, a fim de que os compradores gagos não sejam humilhados diante da fluência dos balconistas não-gagos. Nos programas de testes, os gagos terão o dobro do tempo para responder às perguntas. Todos os programas humorísticos terão pelo menos duas piadas com gagos imitando pessoas de fala normal. (Essas gags só poderão ser escritas por gago’s men)

Defuntos’s Lib – Os defuntos reivindicam, já que são maioria absolutíssima (para cada vivo há pelo menos cem trilhões de mortos), que o mundo seja constituído de dois terços de cemitérios. Isso trará a total despoluição da Terra, que poderá voltar a ser toda de jardins, pois as edificações dos mortos nunca têm mais de dois metros de altura. Os defuntos querem também o título de “maior movimento underground do mundo”.

Canalha’s Lib – Movimento destinado a impedir que nos filmes, novelas, livros e poemas os canalhas continuem a ser apresentados como… canalhas. O movimento exige, primeiro, que a mídia não lhe deturpe a imagem, colocando-os, irrealmente, como perdedores. A história prova que os grandes canalhas não só ficaram ricos, poderosos e influentes; também foram eles que diminuíram a monotonia da vida. São os canalhas que arquitetam os grandes roubos, os crimes impunes e as tramas sinistras na política e nas fianças. E vocês já viram algum canalha perdendo tempo, dias e dias seguidos, interessando-se pela rotina de um pai de família exemplar? No entanto, qualquer mãe de família é capaz de deixar o jantar queimar para não largar no meio a notícia do assassino-traficante-ladrão-cínico-irrecuperável. Sem falar que, na vida real, a mocinha acaba sempre casando com o canalha e, o que é pior, perdão, melhor!, sendo muito feliz. Homem de bem ganha pouco e é muito complexado. Canalha, entre outras coisas, não gasta com psicanalista.

Horroroso’s Lib – Como os lindos, os horrorosos pleiteiam também admiração por sua feiúra. De agora em diante o Congresso deverá ser representado não por legendas, distrito, setor profissional ou sexo (metade homem, metade mulher), mas sim por critérios estéticos (noventa por cento de feios e dez por cento de lindos, mantendo-se a proporção da vida comum). Os bonitões definitivamente não representam o povão! Sem contar que foram os bonitões que mataram Júlio César. Foram os bonitões que liquidaram Lincoln. Foram os bonitões que destruíram Wilde. Helena causou a guerra de Tróia só por ser bonita. Ninguém briga pelas mulheres hediondas. Moral: a feiúra traz a paz. Os horrorosos exigem concurso de feiúra em vez de concursos de beleza; e costureiros e cabeleireiros especializados em ampliar os defeitos das pessoas em vez de disfarçá-los para impor o padrão do opressor belo. As novelas de televisão serão obrigadas a apresentar cenas promovendo os horrorosos. Por exemplo: na cena de amor mais intensa, na hora de ir pra cama, o mocinho deve, tranquilamente, tirar a dentadura, e a mocinha tirar a peruca e o olho de vidro, orgulhosos de mostrar como são vomitivos.

Deixe uma resposta

Please enter your comment!
Please enter your name here