A volta do equilíbrio, segundo o poetinha

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Por Tárik de Souza (in “História da Música Popular Brasileira, 1977”)

Desde Canto de Ossanha e Apelo, há quase cinco anos, ele não aparecia em público para lançar suas músicas. Seu último sucesso, Gente Humilde, foi composto na Itália com Chico Buarque de Holanda sobre uma música do falecido violinista Garoto, que ele guardava na gaveta há 13 anos. Mas, nas duas últimas semanas, sua voz rouca e aparentemente antimusical, reapareceu nas rádios e sua imagem – mais gordo, colares baianos, cabelos brancos caindo sobre os ombros – voltou à TV, na estréia do programa Som Livre Exportação, da Rede Globo de Televisão, no dia 4.

Vinícius de Moraes foi ainda além neste relançamento. Passou uma semana inteira em São Paulo (cidade que chamou de “túmulo do samba”, anos atrás), gravando seu elepê com o novo parceiro Toquinho e divulgando sua música nova – Na Tonga da Mironga do Kabuletê – num show do Clube dos Artistas, no programa dominical de Hebe Camargo e até mesmo no de Sílvio Santos. Pelo menos neste último, popularesco espetáculo de auditório, seria difícil prever que o precoce leitor de Pascal na juventude tivesse coragem de aparecer. Também não se imaginaria lá o diplomata, ou ainda o poeta premiado com seu primeiro livro de poesias, na adolescência.

Vinicius de Moraes, no entanto, segundo suas próprias palavras, mudou muito desde a juventude “burguesa e recatada” e os tempos de diplomacia “horrivelmente engravatada”. É apenas o compositor que prefere não aparecer quando não tem músicas novas. E o poeta que não publica muito para não se repetir. Na Tonga da Mironga do Kabuletê foi “um grilo novo” que descobriu e sentiu que precisava lançar. Desde a frase tema, fornecida por sua sétima mulher, Jesse, que a descobriu no candomblé, até a mensagem, um Canto de Ossanha revisitado, uma espécie de ameaça ao recatado e engravato homem da sociedade moderna com as palavras mágicas e pouco conhecidas do idioma nagô.

Além delas, ou para aumentar o suspense da letra – “vou te rogar uma praga, vai pra Tonga da Mironga do Kabuletê” – o compositor Monsueto aparece na encenação num discurso ininteligível que aumenta o impacto da música. E, como nos velhos tempos da bossa nova e nos shows de música popular, Vinicius está de novo fazendo sucesso.

Por que esteve afastado da linha de frente da música brasileira?

Não foi um afastamento definitivo. Que eu tivesse deixado de fazer música ou qualquer coisa desse gênero. Primeiro lugar, meus parceiros começaram a viajar muito. O Tom, o Baden, o Carlinhos Lyra ausente também. Eu, nesses lapsos assim, costumo compor eu próprio, mas confesso que não estava numa fase muito boa para isso. Talvez uma fase pessoal. E então desviei minha vida para outras atividades. Escrever, fazer crônicas, jornal. E também devido à onda de música beat no Brasil.

Mas você acha que seu público é o mesmo da música jovem brasileira?

Tenho a impressão de que meu público é o mesmo da música jovem brasileira. Mesmo na Argentina, em Córdoba, quando nos apresentamos há menos de um mês, tinha cerca de 10 mil estudantes no estádio. Quer dizer: não houve um corte de trânsito entre o que nós fazemos e o público jovem. O que eles quiseram durante algum tempo – e agora parece que a onda tá passando – era um rompimento do cordão umbilical. A necessidade de partir para a frente de qualquer maneira. Deixar de ser vídeo-tape dos pais. Mas esses movimentos, que correspondem a uma injunção de uma época ou de uma crise social, como foi a da juventude, atingem um ápice e depois decrescem. Porque acho que a própria vida, natureza humana, exige um equilíbrio maior das coisas. Quer dizer, tudo volta sempre para um ponto em que a comunicação é mais orgânica, menos desesperada.

Como você situa esta fase atual da música brasileira? O que virá agora?

Agora, acredito que virá uma onda romântica, mas mais filtrada, já com os efeitos da música jovem. Porque este ataque da música estrangeira foi o mais forte dos últimos anos. Principalmente porque foi respaldado pelas grandes empresas, fábricas de discos. Então, quando entra o faturamento, fica terrível. E nós, compositores, tivemos que enfrentar isso. E já há um novo som, como esse do Milton Nascimento e do Tim Maia. Mas eu não tou na deles, não. Gosto é do som brasileiro. Agora, por exemplo, fiz uma série de músicas com o Toquinho que… mas é claro. Ele é mais jovem que eu, e até faz músicas com elementos beat, como as com o Jorge Ben. Agora, o que nós fizemos são sambas, canções normais. Essas coisas mesmo.

E você acha que já há lugar para isso novamente?

Tenho a impressão que sim. Como sempre, vai haver lugar para o samba tradicional. Eu também acho que esta necessidade que estou sentindo de compor novamente – eu e outros compositores – está correspondendo a um novo levantamento do nível qualitativo, embora a outra música ainda esteja nas paradas.

Qual foi o seu último sucesso?

Foi Gente Humilde, em que fiz a letra com Chico Buarque. Antes disso, fiz com Edino Krieger a Fuga e Antifuga, que tirou quarto lugar no Festival Internacional de 68. Mas essa não funcionou porque é uma peça semi-erudita. Nos últimos cinco anos, só as coisas do Baden mesmo: o Canto de Ossanha, o Apelo. Essas coisas.

E por que você se animou a voltar agora com a Tonga da Miroga do Kabuletê, inclusive relançando sua imagem, como você fazia na época dos shows da Paramount?

Acho que o que estou fazendo com Toquinho é coisa inteiramente nova do ponto de vista de criação artística. E quando chega a esse ponto a gente tem que lançar. Tem que botar pra jambrar.

Como sente que a criação chegou a esse ponto ótimo e deve ser divulgada?

Em primeiro lugar, quando a coisa corresponde a uma necessidade que me motivou para criá-la. E depois, através de uma série de testes que a gente faz. Mostro a música em festas, reuniões, etc. Como eu fiz com a Tonga e essas músicas novas na Argentina. A recepção do público foi muito boa. Aí, a gente vê que tem uma coisa positiva na mão.

Como foi feita a música?

Essa música foi feita em Buenos Aires quando estive lá com o Toquinho. Mas quem teve realmente a ideia foi minha mulher, Jesse. Isso é uma expressão africana, nagô. Ela conhecia, porque é crente, muito ligada a esse negócio de candomblé lá na Bahia. Nós gostamos muito do som, parece um xingamento, corresponde um pouco a essa necessidade de desabafar… e fizemos a música.

Qual o papel do Monsueto na encenação da música e também no disco dizendo coisas incompreensíveis?

Monsueto faz aquele discurso do político, não é? Aquele blá-blá-blá que não quer dizer muita coisa. É um elemento a mais – de humor – dentro da música. Porque ela, na verdade, é uma crítica ao homem de nossa sociedade, o burguês da sociedade de consumo, o cara que lê e não sabe, entra e não cabe, o bicão. Isso existe realmente. Mas também tá na cara, não é?

A carreira diplomática foi importante de alguma forma para suas experiências?

Foi. Ela não só me deu um meio de subsistência, um meio até mais agradável, como também me permitiu viajar. Eu que não tinha fortuna pessoal, nem eu nem minha família, só pude fazer as coisas que eu fiz sendo diplomata. E fiz inclusive amigos bastante bons dentro da carreira. Porque o que me levou, em última instância, abdicar da carreira, foram todos os preconceitos sociais em que ela está envolvida. A gravata… que eu tenho horror. E então, naturalmente, o organismo foi me expelindo pouco a pouco. Houve até um ponto de tensão lá com o secretário-geral uma ocasião. Ele não queria quer eu fizesse show, e o fato de andar sem gravata para mim era muito mais importante que ser diplomata.

O que você chegou a fazer na carreira?

Eu cumpri os deveres de minha carreira normalmente. Porque o trabalho em si não tem grandes segredos. Claro. Mas ela exige uma espécie de vocação para o fato internacional, quer dizer, para negociações. E eu confesso que sou um mau negociador. E eu cheguei a primeiro-secretário lá.

Qual era a sua função como primeiro-secretário?

Até esse posto, a gente ainda tem uma certa autonomia. Você não é a pessoa que decide, compreende? E o que causava estranheza era o fato de que eu cavava para não ser promovido. O primeiro-secretário geralmente promove espetáculos artísticos, faz programações nos vários países. E u não queria atingir os escalões superiores da carreira para não ter que adquirir postos de chefia, onde a gente perde efetivamente a liberdade de pensamento. Fica-se diretamente submetido ao pensamento do governo a que se está subordinado.

Por que suas últimas apresentações têm sido na Argentina?

Porque a resposta do público à nossa música lá foi maravilhosa. Fui lá pela primeira vez em 68 com o Dorival Caymmi e o Baden, escorado pelo Quarteto em Cy e pelo conjunto de Oscar Castro Neves, e foi um fenômeno de comunicação impressionante. Inclusive um crítico lá disse que foi nestes últimos trinta anos o espetáculo de maior comunicação a que ele já assistiu. A partir daí, passei a ser convidado para trabalhar. Na vez seguinte, fui com o Dory Caymmi: fizemos uma pequena boate que tem lá, La Fusa, e aí comecei a trabalhar sistematicamente. Nesta última temporada, com o Toquinho e Marília Medaglia, foi ainda mais impressionante: nós estávamos muito limitados a Buenos Aires, mas dessa vez trabalhamos na província também: em Rosário, La Plata e Córdoba, e foi uma coisa emocionante. Eu já disse que fomos assistidos por cerca de 10 mil estudantes. E eles vieram espontaneamente.

Você já teve fases de preocupação sobre o que dizer em suas letras?

De uma certa forma, sim. De dizer as coisas que eu acho fundamentais ao homem, sei lá. Muito amor. Quer dizer, o amor também é uma forma de protesto. Mas, sobretudo, minha preocupação é de não me repetir, de não deixar o caldo ficar requentado. Eu parto sempre para experiências novas com parceiros novos. É o que tá correspondendo a essa minha fase agora com Toquinho. Da bossa em diante tive muitos parceiros, sobretudo Tom, Baden e Carlinhos Lyra, que eu considero minha Santíssima Trindade. E também o Pixinguinha, o Ari Barroso, de quem eu fiz as últimas letras de seus sambas…

Como explica essa contínua mudança de parceiros?

Essa contínua mudança de parceiros é sobretudo em atenção às qualidades específicas de cada um. O que têm a dizer individualmente. Qualidades humanas… e musicais, naturalmente.

Como funciona seu envolvimento com os parceiros?

Com cada um, a fase inicial parece um casamento. A gente compõe muita coisa. Trabalha muito junto. Isso é importante, dá um grande conhecimento um do outro. A “lua-de-mel” leva o tempo de organizar um repertório mínimo, umas quatro, cinco músicas, por aí. Depois, com o hábito, vem a posterior adaptação. As músicas saem mais esporadicamente. E mais tarde há efetivamente uma fase de descanso.

É nessa fase que você se afasta dos parceiros, tentando mudar?

Não, nunca me afasto definitivamente dos parceiros. Às vezes, eles próprios têm necessidade de outros parceiros. Como foi o caso de Baden: o Paulinho César Pinheiro começou a se aproximar mais dele, ficar mais junto. Eu acho isso muito bom. O Paulinho é um bom letrista e a experiência com Baden para ele é importante. O próprio Tom procura – vamos dizer assim – se libertar de mim, não é? Ele tentou fazer músicas com o Aloísio de Oliveira, com o Chico, agora, ele fez duas músicas…

As eventuais mensagens sociais de suas músicas também estão ligadas à troca de parceiros?

Não, é só isso. Sou um homem atento às exigências de meu tempo. E definitivamente contra as injustiças sociais. E na poesia isso também se manifesta um pouco. Tem o Operário em Construção.

Mas essa espécie de folclorização de Ipanema envolvendo você e os outros autores não atrapalha suas mensagens mais sérias?

Atrapalha, sim. Acho que tudo que é folclore e não vem do povo atrapalha um pouco, sabe? E essa mítica de Ipanema é o tal negócio. Era o ponto onde a gente se reunia. Um lugar onde todos se conheciam. A gente ia para os bares. Até os garçons eram amigos. Havia um espírito de família, assim meio comunitário, uma filosofia sui-generis de vida. Tinha um cara lá que há onze anos não ia ao centro da cidade. Mas, com a comercialização, a região começou a ser invadida por elementos alienígenas.

Sua ida ao programa do Silvio Santos cantar a Tona da Mironga do Kabuletê não seria um fato alienígena?

Não, desde que eu não me deixe envolver pessoalmente. Porque ele dá um elemento para você comunicar melhor a música. Quer dizer, eu vou com um fim específico de divulgar a música. A venda de discos, você sabe; a gente vive disso.

Quer dizer que você acha que sua música também atinge o público do Silvio Santos?

Claro. Não faço música só para elite, não. E, de certo modo, a gente vai para tentar melhorar o nível do programa do Silvio Santos…

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