A teologia de Bento

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Por Reverendo Tsé-Tsé

A ventania de tripa de elefante balançou a cortina da linda janela em estilo gótico do salão. À esquerda da escrivaninha de Bento, num enorme quadro a óleo, representando a Anunciação, vi o Anjo Gabriel bater asas e desaparecer pela moldura.

Alucinação pura e simples!

Quando o ambiente voltou ao normal, a cortina imobilizou-se, novamente. Gabriel continuava ajoelhado, cochichando no ouvido da Virgem, sentada em baixo de uma figueira.

─ Que foi, Tsé? Apenas uma brincadeirinha. Por que essa cara de tacho? ─ ouvi Bento me dizer.

─ Nada não! Mas esse tal de Gabriel não passa de um traidor celestial ou, no mínimo, um agente duplo de Jeová.

─ Reverendo! Não o convidei para ouvir blasfêmias na minha casa, que é santa! ─ respondeu o Papa Emérito.

─ Não sei se você se lembra, Bento, mas seiscentos anos depois da Anunciação, o mesmo Gabriel cochichava o Corão nos ouvidos do Profeta! ─ acrescentei.

─ Não há evidências, provas ou testemunhas dessa falsa segunda vinda do Arcanjo. Superstições, nada mais. Só existe um Monoteísmo verdadeiro que é o nosso, graças à Virgem da Floresta Negra, de quem sou devoto desde meus tempos da JH ─ sentenciou Bené.

─ Nem na primeira, aliás! Mas, afinal de contas, por que e pra que você me convidou? ─ respondi.

O rosto de Bento mostrava uma certa tristeza, embora sua saúde estivesse perfeita, graças aos exercícios com seu jesuíta sul-africano.

─ Depois que renunciei ao Papado, vivo sozinho e isolado. Ninguém me visita nem me manda presentes. Aproveito o tempo para me espiritualizar ─ disse meu anfitrião.

─ Tá lendo Alan Kardec, Bento?

─ As obras completas! Kardec foi o maior teólogo do século XIX. Nada do que escreveu e praticou é contra os dogmas da ICR e os espíritas são os melhores fiéis de nossa Igreja.

─ E a tal da reencarnação? E a conversa com as almas do outro mundo? E as curas mediúnicas? ─ perguntei.

─ Nada que repugne à razão, Reverendo. Como todos nós sabemos, e há testemunhas confiáveis disso, Jesus de Nazaré encarnou-se, viveu, conversava com o Pai, fez inúmeros milagres, curou cegos apenas cuspindo nos olhos deles, depois morreu, desceu ao Inferno para converter as almas perdidas e, no terceiro dia, reencarnou-se, no que se chama de Ressurreição. E todo mundo viu ─ respondeu Bento, solenemente.

─ Quem sabe, uma espécie de Chico Xavier palestino ─ observei, en passant.

─ Mas, na verdade, sinto-me muito deprimido e sozinho, Tsé. Os homens de preto não me deixam sair do Castelo pra nada. Por causa dos árabes, segundo dizem. O Vaticano não tem verba para a minha segurança, devido à minha inegável popularidade. Você mesmo foi revistado da cabeça aos pés. E, quando sair, vai ser a mesma coisa. Nesses dois anos de renúncia, só tomei sol nos jardins uma única vez. Felizmente, tenho um lindo jesuíta negro para me ajudar. Mãos divinas nas massagens semanais. Você deveria experimentar.

─ Não preciso, Bento. Tequinha, lá da minha Comunidade, já faz diariamente. Não gosto que homem nenhum me toque ─ respondi, como divisor de águas.

─ Preconceito idiota, Tsé! Além disso ─ continuou o Papa Emérito ─ o que fiz da minha vida? Um Doutorado mixuruca na Gregoriana, uns vinte Doutorados Honoris Causa, que não servem pra nada, uns livros que ninguém leu e milhões de missas que ninguém escutou. E, no fim da vida, tô aqui como virtual prisioneiro do Papa Negro.

─ Não é pra menos com esse sotaque meio blasé de padre. Mas você é considerado o maior teólogo do Século XX e não pode se queixar tanto assim. Além disso, você acaba de inventar, no seu livro “Jesus de Nazaré”, em dois volumes, uma nova Teologia: a Metáfora Mística. De qualquer maneira, assim que terminar o trabalho da Sagrada Comissão de Reforma da ICR, levarei seu caso ao Tribunal de Haia ─ consolei meu contemporâneo da Gregoriana.

─ De jeito maneira, Tsé! Nem casa tenho mais. Com a merreca de salário de Papa Emérito, não dá nem pra alugar um quarto e sala numa de suas infectas palafitas; nem plano de saúde tenho mais. Pelo menos, aqui, tenho casa, comida e roupa lavada de graça. E, ainda, me deixam ler e escrever, além da companhia do meu lindo Professor de ginástica. Também acho genial minha Teologia inovadora. Tudo não passa de metáforas, Tsé! O Cristianismo, na verdade, é a maior delas e a Santa Madre não passa do Reino de Deus dentro do Universo Metafórico, defendido no meu livro ─ terminou Bento com ar professoral.

─ Tudo é possível, Bené! Mas, pelo visto, você vive melhor do que eu que não tenho tempo pra nada ─ respondi.

─ Mas, no balanço de minha vida, não fiz nada comparável ao que você escreveu e inovou em Teologia. Aos vinte anos, criou o famoso tripé teológico-metodológico em que todo mundo se baseia, atualmente. No Doutorado, criou a Teologia Quantitativa que permitiu à Santa Madre contar o número de anjos do céu. E, finalmente, inventou o método teológico-dialético que, tudo indica, resolverá o mistério da Santíssima Trindade ─ respondeu Bento com seriedade.

─ Momentos de inspiração. Nada mais! Você perdeu muito tempo como Chefe da Inquisição, mandando os padres da América Latina ficarem calados.

─ Mandei porque eles só diziam besteiras! ─ exclamou Bento.

─ E dizer que Francisco tá repetindo tudo novamente. Cadê você que não diz nada? ─ provoquei Bento.

─ No início, o talzinho subdesenvolvido me visitou, com TV e tudo. Nos intervalos do Terço, disse-lhe claramente que ele estava teologicamente equivocado com esse negócio de preferência para os pobres, aproximação com as bichas da vida, perdão para os divorciados, etc. e tal.

─ A meu ver, Francisco fez muito bem! ─ exclamei.

─ Ora, Tsé! Você é historiador e conhece os Evangelhos melhor do que eu. Jesus de Nazaré disse e repetiu muitas vezes que os pobres herdariam o Reino de Deus. O difícil fica para os ricos. Então, que adianta gastar tempo e dinheiro com os pobres se eles já estão salvos? A Santa Madre deveria se concentrar nos ricos e poderosos da terra para salvar suas almas do Inferno. Aliás, com a ajuda de Nossa Senhora, Mãe de Deus, foi pra isso que Jesus fundou nossa Igreja. O contrário não passa de populismo argentino barato… ─ terminou Bento.

─ E, assim, seria resolvida a atual crise financeira da Igreja, não é mesmo?

─ Claro! Há dois mil anos, fazemos isso. Já denunciei a corrupção do alto clero. Basta fazer alguns ajustes na hierarquia do Banco do Vaticano, expulsar os vendilhões do Templo e teremos outros dois mil anos pela frente. Mas tenho algumas questões teológicas para discutir com você e já não mando mais em ninguém, graças à Nossa Senhora da Floresta Negra.

Bento, então, começou a enumerar as tais questões.

─ Estou trabalhando em três livros ao mesmo tempo. Como já lhe havia dito, estava escrevendo a biografia de São Joaquim, o avô de Jesus de Nazaré, a biografia de São José das Botas e, finalmente, minha própria biografia ─ disse Bené.

─ Que bom ter tempo pra tudo isso, Bento! ─ exclamei com inveja.

─ Pois é! Terminei todos os capítulos da biografia de São Joaquim, salvo o primeiro. E eis o problema teológico: nem a tradição nem os textos dizem de quem Joaquim era pai, se de São José ou se da Virgem Santíssima. No primeiro caso, São Joaquim pertenceria à linhagem de Davi, mas não seria avô de Jesus, desde que, como todos nós sabemos, o verdadeiro pai de Nosso Senhor foi o Espírito Santo que, segundo as Escrituras, jamais teve qualquer sogro. No segundo caso, Jesus de Nazaré não poderia ter sido o Messias, pois Maria não teria pertencido à linhagem de Davi. E agora, Reverendo Tsé-Tsé? ─ terminou Bento.

─ Deixe-me pensar, Bené! Como todos nós sabemos, nem o próprio Deus pode modificar o passado, especialmente o mais nebuloso de todos. Mas, para consertar tudo isso, o Todo Poderoso inventou o Historiador. Ora, Bento, com todo respeito, Nazaré era uma pequena aldeia de cerca de cem habitantes e os primos, mesmo carnais, se casavam com frequência. Que tal ser criativo e imaginar que José e Maria eram primos e, portanto, possuíam o mesmo avô, isto é, São Joaquim, o que é historicamente plausível. E, desse modo, seu problema teológico desaparece. Trata-se, portanto, de uma simples escolha e um pequeno ajuste científico; São Joaquim foi o bisavô de Jesus de Nazaré. Entretanto, São José morreu muito cedo de exaustão, logo após ter voltado a pé do Egito. Ora, na sua ausência, foi São Joaquim quem criou o menino Jesus, sendo seu avô de fato e de direito, segundo as leis judaicas da época. E é claro que não precisa mencionar isso no seu livro. Coisa de historiadores! Simples assim!

─ Porra, Tsé! Nunca vi tanta erudição ─ disse Bento.

─ Imaginação criativa, Bené. Nada mais ─ respondi com modéstia.

─ Quanto à Biografia de São José das Botas, tô longe de destrinchar o problema. Minha dúvida é pertinente ao animal que teria fornecido o couro das botas sagradas.

─ Outra bobagem histórica, Bené. Na semana passada, li um manuscrito copta, dizendo que o couro vinha de um bode expiatório, cujo caminho para o deserto passava defronte da casa de José e Maria. Eles pegaram o bicho, comeram e guardaram o couro. Costume da época, aliás, que fornecia carne para mais de uma semana. Tudo isso antes do nascimento do Divino Mestre. Tanto é assim que os pedaços do mesmo couro estão espalhados pelas principais catedrais góticas da Europa ─ disse para resolver as dúvidas de Bento.

─ Brilhante, Reverendo! Mas tenho um último problema, Tsé. Falta apenas o último capítulo da minha biografia; sobre o meu Reinado e o de Francisco. Como fui da JH e chefe da Inquisição, meto o cacete em tudo o que é gente, inclusive em São Pedro, apóstolo analfabeto que não sabia nem onde ficava Roma, apesar de uma tradição besta que surgiu uns duzentos anos depois de sua morte. Daí pra frente, é cacete puro.

─ E o seu Reinado? ─ perguntei como provocação.

─ O melhor de todos, é claro. E termino com minha crítica ao populismo latino-americano, sem mencionar os nomes.

─ Salvo a extinção do simpático Limbo, Bené. Mas será o maior best-seller do Ocidente dos últimos tempos ─ afirmei com convicção.

─ E aí está o problema. Como enviar o manuscrito para alguma editora interessada? Os homens de preto revistam todo mundo e minha obra jamais sairia do Castelo. E não tenho Internet nem tampouco celular. Você, Reverendo, que tem tanto prestígio com Francisco, não poderia pedir um salvo-conduto para não ser revistado? Esconderia o livro na cueca e somente o publicaria depois de minha morte. Não quero perder a mordomia do meu Castelo, nem tampouco o consolo do meu lindo negro sul-africano ─ retrucou o Papa Emérito.

─ Deixe comigo, Benedictus! Mas posso ler o seu manuscrito, antes da publicação? ─ perguntei.

─ Claro! Faço referências elogiosas a você e à Nossa Senhora da Floresta Negra. Deixo-lhe uma Procuração e a metade dos direitos autorais irão para sua horrorosa Comunidade.

Bento encomendou uma pizza para jantarmos juntos, mas recusei. Voltaria para pegar a sua autobiografia no fim dos trabalhos da Sagrada Comissão.

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