A tartarugada da Verenilde

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Janeiro de 1978. Militante da corrente “Unidade”, braço estudantil do PCB, a futura jornalista Verenilde Pereira estava aniversariando naquele mês e iria se formar naquele ano. Seus companheiros de movimento estudantil resolveram festejar seu aniversário e sua formatura com um presente inesquecível: uma tartarugada regional.

Havia um único problema: eles não tinham a menor ideia de onde conseguir uma tartaruga de três palmos de peito e, mesmo que soubessem onde encontrar, também não tinham dinheiro suficiente para adquirir o pitéu.

Depois de muita discussão, os malucos resolveram expropriar uma tartaruga existente na piscina do Aeroporto Eduardo Gomes, presenteada ao Infraero pelo então prefeito de Manaus, coronel Jorge Teixeira.

Na noite combinada para a façanha, Guto Rodrigues, Bernadete Andrade e Greco embarcaram em um fusquinha 72, enquanto Mariolino Brito e Deise, na época mulher do Rui Brito, embarcaram em um Corcel cupê 73.

Os dois grupos táticos se encontraram em frente do aeroporto por volta da meia-noite. Estudaram o ambiente. Havia vários soldados do Exército armados de metralhadoras patrulhando a área.

O desencanado Greco, um afro-descendente de quase dois metros de altura, exímio capoeirista e portador de um único dente frontal na boca, se aproximou da piscina, identificou a localização do quelônio e fez um sinal para o resto da turma.

Abraçados pela cintura como se fossem dois casais de namorados, Guto, Bernadete, Mariolino e Deise se aproximaram da piscina, fazendo uma “paredinha” em torno de Greco, enquanto fingiam observar os peixes.

Este se sentou na borda da piscina e, com a agilidade de um felino, conseguiu puxar a tartaruga de dentro d’água utilizando os dois pés. Os cincos saíram caminhando rapidamente em direção ao Corcel cupê 73, depositaram a carga no porta-malas e abandonaram a cena do crime. As diversas patrulhas de soldados não perceberam nada.

O pequeno comboio se dirigiu ao Japiim, onde morava a Verenilde, e entregaram a encomenda. Depois, cada qual seguiu para sua casa. Tinha sido o chamado crime perfeito.

Na hora em que deixou Bernadete em sua casa, Guto teve uma surpresa: percebeu que sua tiracolo de pano estava completamente vazia. Ele, Bernadete e Greco começaram a procurar seus documentos dentro do carro. O lugar mais limpo.

Greco entrou em desespero:

– Camarada, não vá me dizer que os teus documentos caíram lá no aeroporto… Só faltava essa!

Bernadete também ficou nervosa:

– Não adianta a gente voltar ao aeroporto pra conferir porque a esta altura do campeonato eles já devem ter descoberto o roubo da tartaruga…

Guto estava pálido:

– Camaradas, se a polícia encontrar meus documentos, a gente vai ser expulso do partido por colocar a organização em risco porque na minha agenda está o nome dos militantes, com telefone e endereço. E o pior é que vão nos acusar de desvio pequeno-burguês porque a gente foi roubar logo uma tartaruga, que é comida de rico. O Belarmino Marreiro vai ficar muito puto!

Depois de meia hora discutindo o que fazer, Guto Rodrigues viu uma luz no fim do túnel.

– Vamos lá na casa do Mariolino, explicar o que aconteceu. Eu só fiz um movimento brusco que poderia provocar a queda dos documentos da bolsa, que foi quando colocamos a tartaruga no porta-malas. Se Deus for marxista, os documentos caíram dentro do porta-malas. Se não, a gente se ferrou…

Em quinze minutos, os três estavam acordando Mariolino Brito, lá no bairro da Glória. Quando contaram a presepada, ele quase teve um enfarto. Foi preciso alguém providenciar um valium para ele se acalmar.

Munido de uma lanterna, Mariolino abriu o porta-malas do Corcel cupê 73 e o quarteto começou a procurar nervosamente pelos documentos.

Para sorte dos meliantes, os documentos estavam lá, espalhados entre o estepe e o macaco. Eles comemoraram a façanha detonando meia dúzia de cervejas e fizeram um pacto de sangue de jamais relatar aquele roubo nem sequer para os dirigentes do PCB. Mantiveram a promessa.

Quando o sequestro da tartaruga foi descoberto, os jornais da cidade fizeram o maior estardalhaço, denunciando a falta de segurança do Aeroporto Internacional Eduardo Gomes. O coronel Jorge Teixeira ficou possesso.

O governador Henoch Reis garantiu que os responsáveis seriam identificados e presos nas próximas horas. A Segunda Seção da Polícia Militar, o Deops, o SNI, o Cenimar e a Cisa entraram em campo, mas todos deram com os burros n’água. Nada foi apurado.

Os estudantes da corrente “Unidade” começaram a espalhar no campus universitário que aquilo só podia ter sido coisa do pessoal da “Libelu” (“Liberdade e Luta”, a corrente estudantil do camarada Eron Bezerra). A repressão contra os militantes do PCdoB foi intensificada.

No sábado seguinte, uma tartarugada regional era servida no capricho na casa da Verenilde pereira, com a presença do diretor teatral Fernando Peixoto (que havia acabado de montar “Calabar – O Elogio da Traição”), do escritor Márcio Souza, do antropólogo José Ribamar Bessa Freire e de todos os militantes da “Unidade”: Guto Rodrigues, Bernadete Andrade, Rui Brito, Orlando Farias, Deise, Socorro Andrade, Mariolino Brito, Greco, Terezinha Araújo, Jorge Machado, Lino Chíxaro, Alice Alecrim, Nestor Nascimento, André Gatti, Palmes, Luiz Barreiro e o resto da curriola. Vão gostar de tartaruga assim no quinto dos infernos!

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