A tal de maioridade

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Por Ivan Lessa

Vinte de janeiro é dia de São Sebastião, santo padroeiro do Rio de Janeiro. Um dia, para mim, difícil de esquecer. Nada a ver com o santo, tudo a ver com a cidade.

No dia 20 de janeiro de 1978, eu entrei num carro, peguei o rumo do aeroporto que ainda se chamava Galeão e não Tom Jobim, entrei num avião que me deixou no dia seguinte em Londres, onde estou desde então.

Quer dizer: meu expatriamento está completando sua maioridade. Vinte e um anos já davam para ter nascido e morrido de overdose um metaleiro. Minha ausência do Brasil já podia, há algum tempo, dirigir carro, votar (coisa que eu não podia fazer quando saí do país), já podia casar, comprar cigarro e bebida alcoólica, agora pode exercer o livre-arbítrio e até mesmo voltar pro Brasil.

Mas ficar fora do país natal não é tão incomum assim, desde que começou nossa diáspora. Ninguém está disputando, que eu saiba, campeonato de ausência. Menos comum, isso sim, e que sempre deixa as outras pessoas espantadas quando conto, é que nesses 21 anos não fui sequer passar umas feriazinhas no Brasil. Aí estranham. Aí me olham meio esquisito. Tenho uma resposta dividida em etapas que é o modelo, meu Plano Irreal, digamos, que é a praxe que observo desde que completei, pelo menos, 10 fora do Brasil.

Primeiro, eu digo que tenho pouco tempo de férias, já conheço o Brasil, prefiro gastar as férias conhecendo um lugar novo. Segundo, explico que não tenho parentes próximos no Brasil, minha mãe mora em Portugal, que fica aqui logo ao lado, meus amigos morreram todos, consequentemente não há ninguém para rever, para levar um papo. Terceiro, eu minto horrendamente e digo que não volto por motivos políticos e faço uma cara misteriosa.

Em geral, misturo as três respostas, saio de fininho. Mas o mais terrível é precisamente isso: ter que sair de fininho, eu que saí de supetão do Rio, do Brasil. Por que ter que inventar uma história? Por que não dizer a verdade? E aí é que está o X do problema, feito no samba de Noel: eu não tenho a menor idéia do que seja a verdade. Não ter a menor idéia de por que não voltei ao Brasil é apenas começo disso que apenas se iniciou: a maioridade. Ou então, é o fim. Fim de quê? Ah, isso não sei não.

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