A síndrome do segundo disco

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Por Jô Hallack, Nina Lemos e Raq Affonso

Por algum motivo que ainda não entendemos, sempre comparamos nossas vidas com o mundo da música. Deve ser por causa da quantidade de shows de rock vagabundos (e inesquecíveis) que frequentamos durante a adolescência! Ou uma estranha maldição que persegue todas as pessoas que leram a revista Roll.

Isso se refletiu em nossas personalidades e, graças a (ou por culpa de) esta veia musical, fazemos coisas ridículas como brincar de videoclipe. Afinal, não sabemos fazer outras coisas como tocar instrumentos.

Quando começamos a escrever este livro, o Guia da Mulher Superior, dúvidas horríveis nos perseguiram. Ficávamos paralisadas, sem conseguir fazer nada. Gastávamos milhões em ligações interurbanas, em conversas que sempre terminavam com a frase: “E o livro?”

Do outro lado, a outra respondia: “Pois é, o livro… Menina, ontem eu fui numa liquidação óótima!” E mudávamos de assunto, cinicamente. Ficávamos aliviadas e felizes. Tudo parecia muito confuso até que uma de nós deu o diagnóstico: “ESTAMOS SOFRENDO DE SÍNDROME DO SEGUNDO DISCO!!!”

Sim, os homens-jams surtam quando vão fazer o segundo disco! A história sempre se repete: eles ensaiam na garagem, gravam um disco por um selo independente e, de repente, estouram na rádio e são contratados por uma major. E perdem noites de sono imaginando que os críticos vão escrever coisas do estilo: “Outra banda que não resistiu ao trauma do segundo disco”, “Infelizmente, não há mais o frescor da estréia…”, “Apostando na mesma fórmula, o grupo…”

Pânico! Temos pesadelos imaginando ler nos jornais coisas como… “mais uma vez elas se repetem tocando músicas (epa, escrevendo textos!) em que falam a palavra pretê”.

Tá certo, a gente fala muito a palavra pretê. Mas, graças a uma sensacional lavagem cerebral, hoje em dia uma legião de pessoas fala muito a palavra pretê! E claro que dá um frio na espinha pensar que mais uma vez não vamos ganhar o Prêmio Jabuti e seremos alvo do preconceito dos imortais (mentira, eles nem sabem que a gente existe!).

Mas aí, nós lembramos: Isso aqui não era um fanzine para escrevermos sem compromisso, libertas das opressões mundiais?!

Não era pra gente se divertir escrevendo qualquer coisa que viesse à nossa mente? Só para ficar rindo depois? Não era JUST FOR FUN? Então… libera o mosh e toca mais rápido!

A verdade é que nem sempre estamos inspiradas. Neste momento, por exemplo, estamos com um branco terrível. Mas assim como no design pra lá de moderno o branco “faz parte”, aqui também resolvemos assumir o branco criativo.

Como achamos que seria um pouco de petulância fazer um livro com duas páginas em branco (apesar de ser prático, pois seria um bom lugar para anotar telefones), resolvemos abrir nossos coraçõezinhos (e nossas mentes perversas) e revelar o que ficamos fazendo nos momentos do vazio mental.

E quem nunca escreveu – no primário – uma redação chamada “Não consigo fazer uma redação” que atire a primeira pedra!

Debatemos nossos orçamentos caseiros, comparando quanto gastamos de luz (escrevemos este livro no auge do racionamento), de telefone e em lojas de R$ 1,99.

Falamos muito mal de pessoas que cumprimentamos daquele jeito meio blasé na rua. Isso deu uma certa paranoia, pois concluímos que aquelas pessoas que nos cumprimentam amigavelmente na rua devem falar mal da gente.

Contamos fofocas e relatamos como foi nossa noite ontem. As fofocas foram precedidas de um corinho “Conta! Conta!”. Ou de frases no imperativo, como “Pode ir contando!”, quando obrigamos a outra a contar detalhes íntimos.

Falamos mal de outros livros. Falamos mal até do nosso. Ficamos vendo textos antigos que escrevemos e chegamos à conclusão de que fomos cafonas. Temos que confessar que é uma conclusão libertadora.

Brincamos de fazer planilha no Excel e nos sentimos pessoas cultas que fazem parte do mercado financeiro. Não vamos revelar o conteúdo das planilhas, pois vocês ficariam decepcionados. (Ou não!)

Uma de nós (não podemos revelar, senão pega mal para a tal) ficou fazendo uma enquete do tipo “Será que ligo ou não ligo para o meu pretê”. O resultado foi que 100% dos entrevistados (as outras duas) falaram em corinho “Liga! Liga!”. E ela ligou.

Fomos pegar um café na padaria da esquina e ficamos com vontade de comer um joelho, mas resistimos bravamente.

Comentamos o final da novela Estrela Guia e uma de nós foi alvo de preconceito porque assistia. Também não vamos falar quem era, pra não ficar mal para essa pessoa.

Descobrimos que algumas pessoas que nós conhecemos são adeptas do ménage e ficamos cho-ca-das. Afinal, estudamos em colégio de padre.

Trocamos dicas sobre como masturbar um rapaz da melhor forma.

Debatemos os malefícios dos vírus de computador, inclusive um que faz todos os seus e-mails serem precedidos da palavra “help”. Criamos uma teoria conspiratória: talvez seja mesmo uma pessoa pedindo ajuda. Como uma de nós disse, num surto brega: “Pode ser uma pessoa pedindo ajuda como uma garrafa jogada ao mar do espaço virtual”. Não vamos falar quem disse isso para não ficar mal para a pessoa.

Comentamos filmes de terror e casos de terror. Paramos de falar sobre isso, pois lembramos que poderíamos ficar com medo da hora de dormir.

Uma de nós foi dedurada como fã da Cássia Eller, mas não vamos contar quem era para não pegar mal para ela. Depois, as outras confessaram que também gostavam um pouco.

Ouvimos o disco do Air, banda que adoramos.

E, no intervalo de todas essas atividades, escrevemos o livro.

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