A primeira a gente nunca esquece

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Por Luis Fernando Verissimo

Não sei de que material é feita a bola de futebol, hoje. Quando ganhei a minha primeira bola, ela era feita de couro. Tinha uma câmara dentro, como nos pneus. Enchia-se a câmara de ar com uma bomba de bicicleta – ou com os pulmões mesmo, naquele tempo se tinha fôlego — e ajeitava-se o mamilo da câmara dentro do couro da melhor maneira possível, antes de amarrar os cordões da bola, que tinham cadarços como as chuteiras.

Minha primeira bola tinha o tamanho regulamentar, era uma número cinco autêntica. Os locutores de rádio chamavam a bola de futebol de “a número cinco”, além de “o esférico”, “a pelota” etc.

O couro da bola tinha cor de couro, ou então era um pouco mais vermelho. A bola pintada de branco só era usada em jogos noturnos, não era a verdadeira. O couro reluzia.

Hesitava-se muito antes de dar o primeiro chute na bola nova, pois o couro começaria a ficar arranhado no primeiro toque. Era um dilema, você não conseguia resistir ao impulso de levar a bola para a calçada e começar a narrar seus próprios movimentos com ela como um locutor entusiasmado — “domina a número cinco, atenção, vai marcar, dá de charles… goooool! Sensacionaaaaaal!” — e ao mesmo tempo queria prolongar ao máximo aquela sensação do couro novo, intocado, em suas mãos. A compulsão de sair chutando ganhava.

Depois de dois dias de futebol na calçada, a bola nova estava irreconhecível. O couro ia empalidecendo como um doente. E a primeira coisa que desaparecia era o que depois mais perdurava na memória, o cheiro de novo.

Nenhum prazer do mundo se igualava ao do cheiro do couro de uma bola de futebol recém-desembrulhada latejando em suas mãos. (Ainda não se tinha descoberto a revistinha de sacanagem.)

Imagino que o nosso antepassado que pela primeira vez meteu a mão no buraco de uma árvore e depois lambeu o mel nos seus dedos tenha tido uma sensação parecida, a de que a criação é difícil, mas dadivosa, e há mais doçuras no mundo do que as que se têm em casa.

Quase tão bom quanto o cheiro da primeira bola era correr atrás dela, mesmo que só fôssemos craques na nossa própria apreciação (“Que lance, senhoras e senhores!” eu gritava, mesmo que só estivesse fazendo tabela com a parede).

Correr atrás da primeira bola é o que nós todos continuamos fazendo, tamanhos homens, até hoje. E continua bom.

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