A origem da Ponta da Bolívia

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O balneário antes e hoje, já destruído pelo chorume da Lixeira Pública Municipal

Março de 1959. Apontador de campo do DER-AM, Carlos dos Santos Castro (aka “Carillo”) estava participando da construção da AM-010 (Rodovia Manaus-Itacoatiara) quando resolveu pilotar – mesmo sem saber – um trator de esteira do tipo Tournapull. Não deu outra. A máquina se desgovernou, entrou num barranco nas imediações do antigo Hospital Psiquiátrico Eduardo Ribeiro, em Flores, o piloto foi cuspido da cabine, sofreu traumatismo craniano e passou seis meses em coma. Quando saiu do coma, estava meio tantã (havia perdido parte da massa encefálica).

Aposentado precocemente, Carillo passava o dia sem sair de casa, no Morro da Liberdade. Seus seis filhos – Inácio, Augusto, Antônio, Islei, Domitila e Gilbert – eram todos crianças e começaram a fazer pequenos trabalhos, tais como vendas de doces caseiros e picolés na rua, para ajudar dona Gilma Barros de Castro a sustentar a família.

Uma irmã de Carillo, dona Berta, havia passado vários anos morando em Caracas, na Venezuela, e depois retornara a Manaus, onde se casara com o comerciante Severino Andrade. Este possuía um imenso terreno na região onde hoje está localizado o posto da Polícia Rodoviária na AM-010.

Severino propôs que Carillo fosse morar no pequeno sítio existente no local e tomasse conta do vasto terreno para evitar futuras invasões, roubos de madeira e caça predatória de animais silvestres. Ao lado da ponte de madeira do Quixó, no igarapé de mesmo nome, Severino também construiu um pequeno restaurante de madeira e deu para o cunhado administrar.

Um comerciante boliviano chamado Hernan Suarez, que havia conhecido dona Berta em Caracas, tornou-se frequentador habitual do restaurante.

Ele passava horas e horas conversando com Carillo e se deliciava com o excelente peixe frito preparado pelo dono, gerente, cozinheiro e único garçom da espelunca.

Hernan Suarez começou a propagandear a novidade para seus inúmeros amigos na zona urbana de Manaus.

Dezenas de famílias começaram a frequentar o logradouro nos domingos e feriados.

Em homenagem ao amigo, Carillo batizou o restaurante como “Ponta da Bolívia” e mandou pintar a bandeira do país em uma das paredes.

Por causa da ponte de madeira sobre o igarapé do Quixó, a população passou a se referir ao balneário como “Ponte da Bolívia” e foi com esse nome que um dos melhores banhos públicos de Manaus passou para a posteridade.

Carillo permaneceu tomando conta do local até 1971, quando foi estupidamente assassinado por um frequentador embriagado, que depois se evadiu do local e nunca mais foi encontrado.

Formado em Ciências Biológicas, Inácio Castro resolveu estudar Direito e entrar para a Polícia Civil, com o intuito de descobrir o assassino do pai. Foi aprovado no concurso para delegado em 1977.

Em pouco tempo, tornou-se um dos mais bem-sucedidos delegados da cidade, esclarecendo inúmeros crimes e desbaratando várias quadrilhas de meliantes sem dar um único tiro.

Em 1988, quando investigava um colossal desvio de óleo da Refinaria de Manaus, encontrou no fio da meada as digitais de vários figurões de nossa melhor sociedade.

Seus superiores pediram que ele puxasse o freio de mão porque aquilo seria um escândalo inimaginável.

Pra não compactuar com a presepada, Inácio Castro pediu seu desligamento da Polícia Civil e montou um escritório de advocacia, onde trabalha até hoje.

O crime organizado havia ganhado mais uma. Acontece.

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