A mutreta dos cavalinhos

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Por Marcos de Vasconcellos

Discretamente, mas com uma eficiência que ainda mantém, circulava pelo corredor da TV Rio, instalada no antigo Cassino Atlântico, agora transmudado no complexo de lojas comandado pelo Rio Palace, no Posto Seis, a figura do produtor Cícero Carvalho, amigo de exatamente todas as pessoas que militam desde a coxia até o brilho das telas da televisão brasileira: cenaristas, roteiristas, carpinteiros, maquinistas, músicos, cantores, comunicadores, locutores, diretores, todos, rigorosamente todos e, claro, com essa cancha, é um extraordinário colecionador de histórias, milhares de histórias.

Outro dia, encontrou-se com um amigo animadíssimo, alvissareiro:

– Cícero! Não tem erro! Vai encher de zero teu ordenado! Vá amanhã, domingo, ao Jóquei e põe toda a grana que tiver no cavalo Foge Daí, no quarto páreo. É mutreta dos caras. Um primo meu, que é jóquei, faz parte. O cavalo é o maior azarão e vai pagar uma nota roxa.

O Cícero odeia mexer com corrida de cavalo, conhece a fama do jogo, mas, atraído pelos zeros anunciados, foi ao hipódromo. Esperou com paciência o quarto páreo e foi jogar. Consultou o programa para saber o número do tal animal eleito para a roubalheira e não encontrou. Procurou nos outros páreos. Nenhum Foge Daí. Fugiu dali.

Encontrou o amigo barbadeiro na segunda-feira, contentíssimo da vida, aos berros:

– Matei a pau! Matei a pau! Lavei brabo mesmo! E você? Quanto ganhou?

– Nem um puto. Você está é ficando maluco, cara. Não tinha nenhum cavalo com aquele nome correndo no domingo.

O ganhador meteu a mão no bolso, tirou o programa da véspera, exibiu-o, triunfante, apontando no nome do cavalo ladrão:

— Não correu não, é? Não correu não, é? Você é analfabeto? Olha aqui! Quarto páreo!

Cícero conferiu a pule. O nome do cavalo era Foggy Day.

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