A irreverência política de Ary Toledo

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Por Rosa Minine

Ary foi aconselhado por Vinícius de Moraes e Elis Regina a seguir a carreira de humorista. Grande ator (cantor, compositor e teatrólogo, sim senhor), ele tinha feito um enorme sucesso na década de 60 cantando Pau-de-Arara, que conta a vida dura de um retirante nordestino no Rio de Janeiro.

O personagem comia lâminas de aço, cacos de vidros etc, em praça pública para sobreviver. O retirante, portanto, não era engraçado, mas exatamente ridículo como é o modo de vida que se impõe ao povo, a reprodução da fartura para uns poucos e da miséria para milhões. Ary Christoni de Toledo, como ninguém, soube retratar isso.

Mas Ary fez (e pode fazer) muito mais. Hoje, completando 40 anos de carreira, ele percorre com o show A Todo Vapor os teatros municipais de São Paulo, levando ao povo seu humor profundamente crítico.

A música Pau de Arara, também conhecida por muitos como Comedor de gilete – por conta da história contada por Ary no meio da música –, foi composta por Carlos Lyra, com versos de Vinícius, para a peça Pobre Menina Rica, depois gravada por vários intérpretes: Catulo de Paula, Moura Neto, Renato Aragão entre outros, mas nenhum deles conseguiu arrancar uma interpretação tão humana para essa música que se tornou um imenso sucesso, com muitos discos vendidos, abrindo as portas para Ary no cenário artístico nacional e internacional.

Ary Toledo começou sua carreira artística em 1961, como ator do destacado Teatro de Arena, de São Paulo, um marco do teatro brasileiro.

O Arena despontava como um valoroso núcleo de pesquisa em teatro, uma proposta nova, democrática, trabalho sério. Entre o repertório do Arena estavam dramas e comédias de maior valor político, popular, democrático, evidenciando inclusive excelentes autores nacionais, inteligentes e profundamente críticos. Ary achou que ali era o lugar ideal para mostrar seu talento nato de ator que, ainda não sabia, era muito maior. E, assim, chegou ao Arena para pedir emprego:

– Cheguei diante do Augusto Boal (um dos diretores do Arena), que estava na porta do teatro com Milton Gonçalves e o Flávio Migliaccio, e falei: Olha, eu sou um bom ator. Quero ser contratado pelo Teatro de Arena. O Boal então disse: Nós estamos precisando é de um faxineiro, serve?

– Eu respondi: ha, ha, ha, ha. Aceito! Ele gostou do jeito que eu falei e me deu o emprego de faxineiro, mas depois de uma semana eu estava no palco – conta Ary.

– Na época, o Arena estava ensaiando o musical Revolução na América do Sul, do Boal, e como também sou músico, toco violão, ajudei o elenco nesta parte. Eles, então, falaram para o Boal que seria um desperdício me deixar fazendo faxina no teatro. Mas eu não me arrependo e nem me envergonho de ter feito a faxina, inclusive, quero deixar claro, que fiz direitinho. Tão bem como faço hoje os meus espetáculos. Lavei privada direitinho (risos).

Ary trabalhou por cinco anos no Arena, depois se mudou para o Rio de Janeiro para remontar o musical Pobre Menina Rica, sem imaginar que iniciava também sua carreira de humorista.

– Pobre Menina Rica estreou no teatro Maison de France, no centro do Rio, e ficou em cartaz por cerca um ano. No elenco original estavam Nara Leão, Zé Keti, Carlos Lyra, enfim, grande nomes. No ano seguinte, outra remontagem, com outro elenco. Depois disso, eu fiz uma remontagem da peça, interpretando o Pau-de-Arara – conta.

– O detalhe é que essa música, na verdade, não é para rir e sim para chorar, porque fala da vida dura do nordestino que deixa a sua terra natal e vai para a cidade grande buscando uma vida melhor, mas o que consegue é passar fome. E para não morrer de fome, ele come gilete, caco de vidro, ‘corre o chapéu’ e as pessoas ficam olhando. Enfim, é algo muito triste. Para fazer Pau-de-Arara, o Vinícius se inspirou em um tipo que viu em Copacabana – diz.

– Eu pedi para o Vinícius e o Lyra: Me deixa gravar do meu jeito, e eles concordaram. Depois, no teatro, encontrei com o Vinícius e ele me disse que estava impressionado. Falou que eu deveria fazer humor mesmo. Eu lhe disse: Olha poeta, eu não tive nenhuma intenção de esculhambar a música, fazer gozação ou coisa assim.(risos) Mas ele havia entendido, claro – continua.

Assim, Ary transformou a música numa grande sátira política.

Outra a incentivá-lo foi a cantora Elis Regina, que também foi sua amiga. Na época, Elis tinha um programa de música na televisão e o levou para cantar.

– A Elis me disse que fazer o público sentir essa música da gilete era a maior prova de que eu era um artista de verdade. Eu até poderia seguir cantando, ela disse, mas que não deixasse de fazer sátira, porque disso o público precisava e eu sabia fazer – lembra.

– Eu acredito que fui testado no humor com essa música – constata.

Sua primeira composição registrada acontece em 1965, com a gravação de Tiradentes, em disco lançado pela RGE-Fermata, que se tornou um de seus maiores sucessos. Entre 1965 e 1967, participou de vários programas musicais da TV Record (SP).

Depois de Pau de Arara, Ary passou a gravar músicas com sátiras políticas, como A Canção do Subdesenvolvido e Descobrimento do Brasil. A sátira política, se tornara a sua especialidade. Em plena ditadura, fez o espetáculo A Criação do Mundo segundo Ary Toledo, escrito por Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal.

– Foi o maior sucesso. Eu cantava cerca de dezesseis músicas de sátira política, e tinham umas piadas no meio para moldar o espetáculo. E por causa disso eu fui chamado muitas vezes para prestar depoimento. Recebi o dedo no nariz e fui preso várias vezes. Só não fui torturado. Mas me orgulho dessas prisões, porque para mim, todo humorista que se preze deve ser preso pela censura do sistema ou ter problemas com ela – conta.

Nas histórias que contava, ele expunha a essência da situação em que o país vivia, com repressão e tortura para quem se rebelasse contra o sistema, mas sempre envolvendo militares, com denúncias diversas. Algumas, bem graves e outras nem tanto, mas ambas tinham o objetivo de expor o ridículo do Estado e das forças armadas sempre que, ao invés de defender o povo, os oprime. Algumas, sem necessidade de encenações, mais leves e fáceis de contar:

– Não sei se todo mundo sabe, mas quem tem certos defeitos físicos, entre eles está o pé chato, não pode prestar serviço militar. Então, durante um espetáculo, certa vez, comecei a conversar com o público e disse: A minha mãe queria que eu fosse presidente da República. E eu disse para ela: Mamãe, esqueça. A senhora não sabe que eu tenho pé chato?. Todo mundo riu. Só por isso, mais nada (!), fui levado para depor – conta Ary.

– Outra assim? Já durante o Ato Institucional Nº 5, em 1968, que permitia aos militares invadir as casas das pessoas sem precisar de mandato judicial, arrombar a porta, sequestrar etc., fui preso novamente, porque durante um show, no Teatro de Arena, eu comentei com o povo: Olha, o meu show está terminando e só tem aqui o meu violão, o microfone e esses dois refletores. Positivamente ele é subdesenvolvido, mas temos que começar por baixo. Vocês sabem… como diz o ditado: quem não tem cão caça com gato e quem não tem gato caça com ATO. O público aplaudiu – continua.

– Mas havia dois policiais do SNI assistindo ao show. O Arena era um grupo muito visado por resistir ao sistema, assim como o Teatro Opinião no Rio. Quando terminou o espetáculo, eles me arrancaram e levaram para prestar esclarecimento na Polícia Federal. Para mim esse Ato Institucional foi um dos mais ferozes instrumentos de violência usados na época – acrescenta.

Ary conta que quando chegava diante dos militares tinha que se explicar sobre o que falou, e geralmente falava espontaneamente e se explicava corretamente, mas saindo de lá, fazia tudo igual ou pior. Era a sua maneira de resistir.

– Eu costumava dizer: Olha coronel, eu não tive intenção de ofender as forças armadas. Saiu assim, instintivamente. Não foi por mal. Mas botavam o dedo no meu nariz e falavam sem parar. Na última vez que eu fui preso, por exemplo, o coronel, que até tinha o meu disco do Comedor de Gilete, me disse: Olha Ary, isso aqui não é uma prisão, é um convite para você prestar esclarecimentos. Eu respondi: Mas coronel, convite a gente pode recusar! Ele deu uma risadinha – lembra.

Para Ary, o humor (verdadeiro) é muito visado pelo Estado opressor do povo, porque é uma arma poderosa para ridicularizá-lo e expor verdades que o mesmo poder quer ocultar. Então, Ary se sente no dever de usar dessa arma contra os vigaristas políticos e outros especialistas que, de alguma forma, prejudicam o povo.

– Tenho que aproveitar cada fato novo no cenário nacional e internacional. Para mim, o humor crítico é uma das armas mais terríveis contra aquilo a que o ator se propõe a lutar. O humor destrói coisas incríveis – diz.

– Na década de 60 a transnacional Volkswagen fabricava um fusca com uma abertura no teto, o teto solar. E espalhou-se no meio do povo que aquele modelo era CC, carro de corno, com a abertura para refrescar o chifre. Só se falava isso, até que a Volks teve que tirar o modelo do mercado – lembra.

Ary recorda o que Bertolt Brecht propôs com seu teatro fazer o povo pensar, analisar a sua realidade e lutar contra a opressão na sociedade em que vive. Isso é fundamental no arsenal do humor crítico.

– Além de representar, eu costumo conversar com o público informalmente, descontraidamente, durante os shows. Outro dia falei: Políticos são sempre os mesmos. E temos que continuar aguentando, porque político faz uma safadeza e depois é reeleito. Vocês sabem disso, conhecem o político. Têm motivos de sobra para não votar neles. A solução seria um desses políticos pegar febre aftosa. Vocês sabem, contaminou um, tem que matar todos. (risos)

– Gosto de uma verdade dita de forma hilária. Então o verdadeiro objetivo dos meus shows não é o riso pelo riso, mas criticar toda uma sociedade. É fazer com que cada um também pense através do humor, ou seja, pense sorrindo, e esse meu objetivo é alcançado – sintetiza.

Ary Toledo, no entanto, conhece a psicologia de seu povo. O humorista Ary lança mão de um tipo de recurso, que é o próprio humor da sua gente. Esse tipo de arsenal de sátiras políticas pode atingir os seus objetivos porque ele tem um grande poder de síntese, não é superficial, mas capaz de mostrar as origens e as causas sociais dos problemas. A sátira política de Ary revela como o anti-povo, apesar da arrogância que o caracteriza, está falido, se coloca na contramão da história, é completamente caduco, burro, ridículo.

– Acredito que uma pessoa não precisa necessariamente enxergar uma realidade dura e fria, através de uma linguagem dura e fria. Esta linguagem deve existir, mas também tem uma outra. No caso, a minha preferida – diz, referindo-se à sua especialidade: a sátira.

No momento, Ary Toledo está em cartaz com A Todo Vapor, pelos teatros municipais da periferia de São Paulo. E, como ele diz, seu show é uma bagunça bem organizada, porque é uma mistura de assuntos atuais e temas preferidos do público de outros espetáculos.

– O espetáculo é bem heterogêneo, mas de uma heterogeneidade muito agradável. Peguei temas como política, políticos, sogra, português (de anedota), crianças, raças e mais outras coisas. E esses ingredientes aparecem mesclados com músicas, textos, monólogos, frases de efeitos. Creio que consegui um show excelente – explica.

Suas explicações são ilustradas pelo disparo ininterrupto de casos, em que, independente dos casos serem ou não verídicos, as personalidades em questão correspondem fielmente ao caráter de cada uma delas:

– Têm situações simples, do cotidiano. Por exemplo, quando o Luiz Inácio foi ao Vaticano. Como foi à tardinha, e tarde em italiano é sera, o papa passou por ele e disse: Buona sera. Ele respondeu: A cera é boa, mas escorrega muito, hein! Também, quando na Inglaterra, passeou com a rainha em sua carruagem, Luiz Inácio perguntou: Majestade, a senhora é parente do Zé? Ela disse: Que Zé? Ele respondeu: O Zé Rainha, pô… (risos)

– O médico deu vinte palmadas no bumbum do Maluf quando ele nasceu. Então a enfermeira falou: Doutor, o senhor está machucando o bebê! Bastam três palmadinhas que ele chora e libera o ar para o pulmão. O médico disse: Claro que eu sei! As outras dezessete foram para ele largar o meu relógio. (risos)

Há monólogos que o público aplaude de pé, histórias sobre o desmoralizado salário mínimo, que continua não servindo para comprar uma cesta básica sequer; sobre a presença do verdadeiro espírito brasileiro ou a criança que perdeu toda a ingenuidade que a caracterizava nas décadas de 30, 40, e que agora são crianças da Internet.

Ary diz estar muito feliz com esse show porque em vários momentos o público aplaude em cena aberta. Vê o público entender o seu trabalho, inteira e abertamente.

De fato, é inacreditável a ausência de espaço para tudo o que de melhor representa o povo brasileiro. Dos atores contratados para novelas de TV, ou os que aparecem amiúde nos chamados programas de auditório, etc., obrigados a dizer tolices, pornografias, nem de longe se percebe o potencial verdadeiro desses artistas. E depois de muito explorarem os artistas, com programas tolos, medíocres, a TV os afasta por meses e anos a fio.

Os tais espaços televisivos, controlados, bestificados, submersos na mediocridade, conseguem esmagar inteiramente a arte, a criatividade, a competência e esgotam por inteiro os artistas. Ao contrário, quando eles encontram, de fato, um espaço onde é possível respirar um pouco mais de liberdade para a sua atuação, o verdadeiro talento aflora e seu trabalho se torna gratificante.

– O espetáculo também tem a participação das pessoas, fazendo perguntas, porque gosto desse diálogo, principalmente de brincar com o público, no que há uma grande correspondência. Converso muito com o público depois do espetáculo também, quando vou para o saguão do teatro para autografar os CDs do show. Lembro: Agora vou sair daqui e vou lá para frente. Termino como falou o Francisco da piada do F, que eu faço: Vou lá na frente faturar o feijão dos filhos. Fãs felizes e formidáveis, fiquem fiéis que eu ficarei feliz. Fui. O público adora – conta.

– Durante o show, o pessoal é educado, não fala nada. Mas, depois, comenta: Ah, você não falou do fulano (risos) Oh, Ary, gostei e tal… ah, mas você deixou de falar aquilo e tal. O espetáculo está sempre se renovando, de acordo com os acontecimentos do cotidiano, porque se eu não fizer o público cobra de mim. Para mim, é muito bom trocar idéia. Então de acordo com o que fazem os políticos, pode crer que eu preparo alguma coisa.

Ary conseguiu apresentar o seu show pelos teatros municipais, da periferia de São Paulo, a um preço bem popular: 10 e 5 reais (para quem tem carteira de estudantes e para terceira idade), facilitando que o povo, que não dispõe de acesso ao teatro, por não poder pagar os ingressos caros ou pela distância, possa ir.

– Pode parecer demagogia, mas não é, porque eu não sou político. Simplesmente vejo que o povo não pode ir ao teatro, se ele não for bem barato e perto de sua casa. Para se ter uma idéia, o ator Antônio Fagundes está cobrando 80 reais, na sua peça As Mulheres da Minha Vida. Não é que ele não mereça, mas o povo não tem mais como pagar – explica.

– Quem sustenta o teatro no Brasil é a classe média e ela já não pode gastar cerca de duzentos reais em uma única noite só com o teatro, porque geralmente a pessoa vai com a esposa ou esposo, namorada ou namorado, e ainda gasta com estacionamento, um lanche. Não é que o preço não seja justo, porque tem que se pagar o trabalho de várias pessoas para cada peça. O problema é que o povo não tem dinheiro.

Ary, então, abre o jogo:

– É verdade que não estou ganhando dinheiro com essa peça. Estou apenas trocando figurinha com o povo, porque com ingressos a dez reais, mesmo com o teatro cheio, não dá. Muitos desses teatros nos quais estou apresentando a peça são para poucos lugares. O Cacilda Becker, por exemplo, tem duzentos lugares, e metade da platéia é composta de estudantes e terceira idade. Então, enchemos o teatro e ganhamos mil reais, sendo que temos despesas com funcionários e outros. Quer dizer, ficamos empatados, não ganhamos e nem perdemos nada.

Ary diz que, mesmo sem ganhar dinheiro, vale a pena continuar com os espetáculos a preços populares, porque levar espetáculos para pessoas que não podem pagar oitenta reais, nos teatros chiques da cidade, era um desejo antigo seu. E a reação das pessoas na platéia, que vibram, aplaudem, o gratifica.

– Têm pessoas que vão falar comigo depois do espetáculo, porque costumo ficar conversando com o público enquanto autografo e vendo os CDs do show. Dia desses, por exemplo, uma senhora de 45 anos de idade disse: Foi a primeira vez que eu pisei em um teatro. Que bom. Teatro é assim? Eu respondi: Não todos (risos). Têm alguns em que a senhora não vai rir nem um pouco. Ela falou: E vim por causa do preço. É o que eu posso pagar. Ela me abraçou e chorou. E isso comove e gratifica qualquer artista. O humor é uma necessidade minha, é o meu oxigênio

Os CDs dos shows de Ary são feitos de forma independente e vendidos somente depois dos espetáculos. Brinca alegando que faz isso porque as pessoas querem o seu autógrafo e se mandasse distribuir os CDs nas lojas, o público não o teria.

– Parei de fazer CDs de música porque não tenho o dinheiro que as grandes gravadoras dispõem para pagar às rádios. Não posso pagar jabá.

Ary explica que o problema dos teatros da prefeitura é que um show não pode ficar mais que um mês em cartaz em cada casa, e esse tempo não dá para atingir toda a população do bairro.

– Eu tenho um público na Mooca, na Lapa e em outros bairros, que me dá condição de ficar em cartaz, três, quatro meses se eu quiser. Se eu não conseguir atingir o público específico, eu tenho que voltar lá no próximo ano. A Mooca, por exemplo, tem dois milhões de habitantes. Como é que você vai atingir, em um mês, dois milhões? Com ingressos a 10 reais, tem público lá para ficar seis meses em cartaz, com casa cheia todos os dias.

Ary conta que é muito difícil para ele conseguir patrocínio da Lei Rouanet, porque não está dentro do padrão para ser patrocinado e também pelo fato da fiscalização aumentar sobre as empresas que participam, fazendo com que muitas vezes, elas desistam.

 

– Para uma empresa patrocinar um grupo de teatro ou um artista sozinho, este tem que ter a cara, o estilo da empresa. Assim, quem iria querer me patrocinar? A Johnson & Johnson? De forma alguma, porque critico os produtos da empresa em meu show (risos). Então é muito difícil essa Lei Rouanet.

– Além disso, a Lei Rouanet se torna inviável também porque ela autoriza as empresas a patrocinar o artista. Mas as empresas têm medo de fazer isso porque a fiscalização fica redobrada depois. Os fiscais caem em cima, fazendo triagens, aumentam a burocracia e cobram uma série de coisinhas. Assim, muitos preferem ficar de fora. O aborrecimento, depois, triplica com a burocracia, não vale a pena para eles.

Segundo Ary, um humorista crítico, que é o seu caso, não consegue facilmente um patrocínio. E nem mesmo um programa na televisão, que no momento está diretamente ligada ao patrocínio, ao dinheiro, como afirma.

– Se eu chegar em qualquer rede de TV e disser: Quero fazer um programa aí. Eu tenho como patrocinador a Firestone, a Coca-Cola e a Bombril. Todos vão dizer: Oh! Ary assina aqui agora. Mas qual dessas empresas ou outras desse porte vão querer patrocinar um esculhambador que nem eu, o Juca Chaves, e outros? Ninguém.

Mesmo assim tem a intenção de fazer um programa na televisão, mas avisa que do seu jeito. E o seu jeito não é o da televisão, que segundo afirma, é de uma resposta imediata.

– Eu tenho idéia de fazer um programa realmente de humor, mas diferente de tudo que já se fez: contando a história do humor, falando sobre o riso, e ilustrando, com piadas, para o público. Didático, pedagógico mesmo, mas isso não interessa às emissoras porque o resultado tem que ser imediato.

Ary já fez alguns programas e especiais na televisão, chegando a ficar por um ano na Rede Bandeirantes e mais um na Record. Mas acabou, como diz, se apegando mesmo ao teatro, que é o que mais gosta na vida:

Ary Toledo nasceu em Martinópolis, uma cidade que fica no interior de São Paulo, quase na divisa com o Mato Grosso, mas foi criado em Ourinhos (SP). Foi para a capital ainda bem jovem tentar a vida de ator, morou por cinco anos no Rio de Janeiro, e voltou para São Paulo, onde reside há 35 anos.

Segundo conta, se hoje é um humorista conhecido, o é pela grande necessidade que tem de extravasar algo que está em si: o humor.

– Uma vez, eu bati em um menino menor que eu, na saída da escola, porque ele xingou a minha mãe e ela não era aquilo que ele falou (risos). Passou um senhor, me segurou e falou: Não tem vergonha de bater em um menino menor do que você? Eu falei: O que o senhor queria, que eu esperasse ele crescer? O senhor riu. Então creio que eu já era humorista, fazia humor e não tinha consciência de que era humor, por ser criança – revela Ary.

 

Para ele o humor é algo fundamental para a vida e, inclusive, o A todo Vapor está comemorando os seus quarenta anos de humor.

– Hoje, consciente, percebo que o humor é uma necessidade minha, é o meu oxigênio. Mas no show eu falo: Vou continuar, até quando eu não sei, eu já estou com 68 anos e eu posso viver, pela lógica, uns quarenta, cinquenta mais no máximo. (riso). O público ri muito.

Ary Toledo pretende levar o seu show para o interior do estado do Rio, Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Ceará, e mais tarde também para o sul do país, sempre procurando fazê-los nos teatros populares, de periferia, de lonas.

 

Link original: http://anovademocracia.com.br/no-30/450-a-irreverencia-politica-de-ary-toledo

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