A infecção ocular do Moacir Andrade

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Abril de 1992. O artista plástico Moacir Andrade havia trabalhado durante os últimos seis anos num gigantesco mural de 21×6 metros, 20 mil peças e seis toneladas, representando, segundo ele, “o edifício cultural da Amazônia através das suas lendas, crendices e mitologias, bem como de sua imensa diversidade de fauna e flora”.

Como se fosse um gigantesco quebra-cabeça, os elementos de composição do mural haviam sido entalhados e construídos em blocos específicos, que seriam reagrupados na hora da montagem em um local previamente escolhido no prédio-sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York. Na confecção da obra, Moacir Andrade utilizou mais de 100 espécies diferentes de madeiras da Amazônia, entre as quais o mogno, o cedro, a macacaúba, o pau-ferro, a abiurana, o louro-rosa e o louro-bosta.

O volumoso projeto surgira a partir de uma ideia do escritor Arnaldo Niskier, diretor da Rede Manchete, que também capitaneava uma campanha nacional com a finalidade de angariar recursos para cobrir o pagamento do frete de Manaus a Nova York, no prazo previsto para que fosse incluído nas comemorações mundiais dos 500 anos do Descobrimento da América.

A doação do mural era uma iniciativa do governo do Amazonas, por meio de contatos mantidos com a Embaixada da ONU, em Brasília. O mural destacava várias lendas amazônicas, como a das Icamiabas, da Mãe do Mato, dos Turunas, da Mãe do Rio, do Tamacuaré, da Tucandeira, da Lagarta de Fogo e a do Tamba Tajá, que dominava a parte inferior da obra, cuja pontuação é feita por multidões de macacos, flores, folhagens, tartarugas, pássaros, jacaré e sapos. “É uma simbiose que mostra a ecologia amazônica”, explicou o pintor.

Moacir Andrade viajou para Nova York para supervisionar pessoalmente a montagem do painel, que foi transportado para lá dentro de enormes containers por um avião cargueiro da FAB. Por razões descabidas, os eco xiitas de plantão da ONU acharam que o mural não representava a Amazônia, mas sim as cinzas do seu crescente desmatamento, uma vez que tinha sido executado com madeira retirada da floresta.

Além de proibirem a montagem do mural na sede da instituição, exigiram que a obra de arte fosse devolvida imediatamente ao remetente. Moacir Andrade ficou frustrado. Para desanuviar o ambiente, o Consulado-Geral do Brasil em Nova York resolveu homenagear o artista amazonense com uma sessão de desagravo, leia-se boca livre do arromba com os mais importantes intelectuais latino-americanos presentes na cidade.

Alvo de todas as atenções e paparicagens, Moacir Andrade já estava se sentindo em casa quando uma bonita potranca norte-americana começou a jogar charme pra cima dele. A gringa era bonita como um contracheque em dia de pagamento. Emérito abatedor de lebres e com a cabeça cheia de truaca, Moacir Andrade não se fez de rogado: assim que a boca livre terminou, ele arrastou a potranca para seu apartamento, onde deixou a natureza seguir seu curso.

Foi barba, cabelo e bigode, porque a potranca era da pá virada e sofria de furor uterino. De carro alegórico a candelabro italiano, passando por vaca atolada, cachorro pirento e frango assado, o artista plástico amazonense literalmente pintou e bordou. A potranca deixou o apartamento de Moacir Andrade com o dia já amanhecendo, irradiando a mais perfeita felicidade.

Três dias depois, já de volta a Manaus, Moacir Andrade acordou com uma inflamação da gota serena no olho esquerdo. Pensando tratar-se de blefarite, uma infecção das pálpebras que pode ser tratada com uma simples lavagem de água morna, ele fez o procedimento exigido. Nada. Pingou no olho inflamado o velho e cansado colírio Moura Brasil. Nada. Uma secreção pustulenta continuava escorrendo do canto do olho.

Preocupado, ele procurou o renomado oftalmologista Arnaldo Russo, que lhe fez uma bateria de exames, receitou um colírio e o aconselhou a retornar no dia seguinte, para saber o resultado do exame de cultura da secreção e o antibiograma.

No dia seguinte, ao chegar ao consultório médico, Moacir Andrade foi surpreendido por uma revelação do oftalmologista.

– Porra, Moacir, eu trato de infecção ocular purulenta há mais de 20 anos, mas nunca tinha visto antes uma merda dessas! – avisou Arnaldo Russo, exibindo um antibiograma. – O teu olho está infectado por enterobactérias aeróbias gram-negativas, presentes exclusivamente na flora intestinal. Conseguimos identificar, entre outras, as bactérias Escherichia coli, Staphylococcus saprophyticus, Proteus mirabilis e Klebsiella pneumoniae. Pra apanhar uma porra dessas no olho é preciso o sujeito ficar meia-hora com o olho aberto praticamente colado em um olho de cu infectado…

Moacir Andrade limitou-se a sorrir, meio encabulado, provavelmente se lembrando do demorado sessenta-e-nove feito com a potranca ianque. Acontece.

Quanto ao mural? Bem, por vários anos ele ficou armazenado e mofando nos hangares da FAB, no aeroporto de Ponta Pelada, até que o advogado Nilton Lins, reitor da Universidade UniNilton Lins, ficou sabendo da história e procurou o pintor para uma conversa. A universidade acabou recebendo graciosamente o mural de presente, que foi montado na entrada de seu campus universitário, onde se encontra até hoje.

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