A ilha dos tesouros

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Por Edney Silvestre

Manhattan é uma ilha de riquezas secretas – e não estou falando de dinheiramas feitas por perversos insiders de Wall Street. Invisíveis aos olhos dos turistas ou dos recém-chegados, elas brotam à noite pelas ruas, becos e avenidas de leste a oeste, de downtown a uptown, oferecendo miríades de produtos e objetos à disposição de quem quiser pegá-los. Úteis alguns, quase valiosos outros, eventualmente necessitando de uma tomada, uma aparafusada ou apenas de um bom lustro, são uma face curiosa do consumismo primeiro-mundista e de uma insuspeitada partilha da produção ininterrupta num país altamente industrializado.

Quem primeiro me mostrou provas foi meu amigo Barry Wizoreck, escultor duro em começo de carreira, que ganha a vida como dançarino, mas que mora rodeado de coisas que a gente só costuma ver cercando os mais ou menos abastados. Lá estavam: um santuário budista, esculpido em madeira, com incrustrações de madrepérola e detalhe em bronze; um tape-deck portátil, com rádio acoplado e duas caixas de som; dois candelabros de prata inglesa, estilo Maria-alguma-coisa; um Poems written by Mr. William Shakespeare, encadernado em couro, impresso em 1775; um baú de couro; uma luminária de pé, de ferro retorcido e cúpula de pergaminho; uma panela especial para preparar pipocas. Isso tudo sem garimpo ou procura, encontrado na área entre a Terceira e a Primeira Avenida, da Rua 86 até a Rua 91. Ou seja, ao longo do percurso entre a estação do metrô da Linha 6 até o apartamento onde morava.

Como fui descobrindo à medida que me adaptava aqui, Barry não é nenhum sortudo especial no encontro de tesouros razoáveis ou práticos. Lawrence Cook, roteirista e cineasta de curtas de vanguarda, mobiliou todo seu apartamento na Avenida B – de dois quartos, sala e cozinha – com achados de fonte semelhante. Se o estilo é um tanto eclético e a qualidade das peças nem sempre apreciáveis, a economia é inegável. Pensando bem, tanto a bergére (reforrada de veludo, este comprado) como a mesa de jantar de mogno (a perna quebrada foi colada com Crazy Glue e ganhou dois parafusos) não fariam feio em uma decoração assinada por Titá Burlamaqui.

O tapete Kilim da publicitária Margo Montaquilla veio da Rua 69, entre Madison e Quinta Avenida. A máquina Singer portátil com que minha fiel amiga brasileira Cristina Reis costurou novos forros para seus estofados, da Rua 84, entre Lexington e Terceira. A televisão Sony Trinitron de Michael Kaminer estava esperando por ele na Rua 75, quase esquina da Avenida Amsterdam. A coleção de árias famosas em 78 rpm na voz de Caruso, que Larry Lash exibe com orgulho, veio da Perry Street, entre as Ruas Bleecker e Hudson. Meu forno elétrico portátil, que assa, cozinha, torra e aquece com perfeição, da Rua 10, entre Washington Street e Greenwich.

Dizem que o Upper East Side, região habitada pelos mais ricos ou que assim o pretendem, oferece as minas mais pródigas para esse tipo de incursão. A verdade, porém, é que a variedade e abundância deste lixo de Primeiro Mundo podem ser encontradas por toda a ilha. De quadros a colchões, de liquidificadores a cadeiras de vime, para não mencionar sopeiras, balanças, talheres, pratos, copos, taças, pires, toalhas, aspiradores de pó (só eu encontrei dois, que passei a amigos, pois já tinha um primeiro, burramente comprado antes de saber destas fontes).

E também fogões, casas de cachorro, estantes, abajures, mesas, mesinhas e mesões, apontadores elétricos de lápis, fitas de vídeos, fitas cassete, ventiladores, sofás, cafeteiras, torradeiras, tapetes, molduras, armários, carrinhos de bebê, rádios e televisores, relógios e despertadores, penteadeiras, camas (na verdade, só vi uma), livros, meias, cintos, sapatos, sobretudo, luvas, cachecóis, secretárias-eletrônicas, cortinas, travesseiros. As ruas de Manhattan formam uma gigantesca loja de departamentos com produtos grátis.

Não há explicação clara para o fenômeno, mas as particularidades do modus vivendi de Nova York oferecem certos indícios. Os apartamentos daqui são geralmente mínimos, do tipo que, se entra uma estante nova, a mesa de centro tem que sair. Consertar, reforrar, emendar, reparar são serviços com preços absurdos. (Quando meu televisor pifou, o orçamento para a troca do tubo de imagem foi de noventa dólares, mais cem por cada hora de conserto; resultado: comprei um novo por 150 e botei o velho na rua, para ser levado por alguém com mais habilidades eletrônicas do que eu.)

Também muda-se muito neste país, e sai mais barato comprar no novo destino do que, por exemplo, transportar móveis e utensílios até o Colorado. E tem o problema dos microarmários dos miniapartamentos, que devem abrigar roupas de primavera, verão, outono e inverno, mais toalhas, fronhas, lençóis, cobertores, travesseiros, martelos, vassoura, aspirador, guarda-chuva, casacão, ferro e tábua de passar & por aí vai. Qual seria a sua opção entre a máquina de costura que nunca usa e o edredom que garante o conforto das noites frias? Pois de escolhas assim acabam saindo coisas como as que encontrou Ms. Reis e resultaram nas belas novas capas de sofá & poltrona de seu elegante apartamento.

Ando agora à procura de uma poltrona de couro. Não para minha casa, onde uma xícara a mais me obrigaria a mudar-se para a varanda, mas para Peter Olmscheid, cujo novo apartamento no Brooklyn tem espaço para uma (junto ao abajur de leitura que encontrou no Bowery). Noite dessas, saindo de um jantar na casa de Teresa & Ênio Mainardi, dei de cara com uma na Rua 89, próximo à Park Avenue. Mas não dei sorte. Enquanto tentava fazer parar um táxi disposto a levá-la no porta-malas, um Mercedes-Benz prateado estacionou ao lado, saltou dele uma senhora envolta em um casaco de peles, e, com a ajuda do chofer, recolheu-a e partiram.

Fica para a próxima.

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