A história pelas marchinhas

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Por Bete Bissoli

Nem só de confete, serpentina, cordões, vermute e lança-perfume eram feitos nossos antigos carnavais. Claro que sem música não há carnaval! O samba, DNA musical do Brasil, o frevo, o maracatu e outros ritmos regionais sempre nos representaram muito bem, mas as marchinhas… Ah! As marchinhas! Elas foram peças fundamentais da festa!!! Mais que isso, fixaram-se no inconsciente coletivo do nosso povo mais que qualquer outro ritmo.

Elas chegaram ao Brasil no início do século passado, trazidas pelos portugueses, e se caracterizam pela mistura da marcha portuguesa com ritmos norte-americanos. O talento, a criatividade e malícia de nossos compositores se encarregaram de fazer o resto e, na década de 30, o gênero se consolidou.

Pra saber muito da história do Brasil, de política, políticos e de usos e costumes de 1920 até pelo menos 1960 é imprescindível ouvir marchinhas carnavalescas.

Poeticamente falando, é principalmente nesse repertório irônico, engraçado, espirituoso, mordaz, escrachado, esculhambador e implacável que está gravada a nossa história de pelo menos cinco décadas.

Mesmo tendo o Rio de Janeiro como berço, elas escreveram a crônica do dia-a-dia do brasileiro, foi delas a primazia de refletir uma época importantíssima e são elas que, na maior simplicidade, nos oferecem um grande aprendizado. Além de serem gostosíssimas de ouvir e de dançar.

Enquanto ritmo dançante, a marchinha carnavalesca é superdemocrática. Todos têm o direito de dançá-la, pois não é necessário saber dançar!

Não se aprende a dançar marchinha. Não é preciso… Cada um se expressa como quer, como sabe, como não sabe, como inventa! Pra dançar samba, frevo, tango ou qualquer outro gênero musical há que se aprender passos, movimentos, convenções. Na marchinha não… Basta fazer uso do espontâneo, mais nada. Pensando bem… Será por isso que a marchinha andou meio fora de circulação nos últimos tempos? Será que perdemos a simplicidade, a espontaneidade?

Não, não fiquem tristes: a marchinha carnavalesca tá voltando com força total e há um número expressivo de jovens, tanto em grandes como em pequenas cidades, que procura e curte os ambientes em que o gênero tem destaque.

Vai ver estamos recuperando o espontâneo e retomando a alegria perdida. Além do mais, o carnaval é uma festa tão democrática! Por que não abrir espaço para as marchinhas carnavalescas tanto quanto se abre para outras vertentes de nossa música popular como o samba, axé music, samba-reggae, etc?

Quem não se lembra, e quem não gosta, de “Mamãe Eu Quero” (Vicente Paiva/Jararaca); “A Jardineira” (Benedito Lacerda/Humberto Porto); “Pó de Mico” (Dora Lopes/Renato Araujo/A. Souza); “Me Dá Um Dinheiro Aí” (Homero Ferreira/Ivan Glauco); “Fantasia de Toalha” (Sacomani/Arrelia/Ercílio Consoni); “Índio Quer Apito” (H. Lobo/Milton de Oliveira); “Roubaram a Mulher do Rui” (José Messias); “Vai com Jeito” (João de Barro); “Transplante Corintiano” (Manoel Ferreira/Ruth Amaral/Gentil Júnior); “Joga a Chave Meu Amor” (J. R. Kelly/J. Rui)?

Quem não brincou velhos e novos carnavais ao som de “Máscara Negra” (Pereira Matos/Zé Kéti); “Aurora” (Mário Lago/Roberto Riberti); “A Lua É dos Namorados” (Cavalcanti/Klécius Caldas/Brasinha); “Cachaça” (Mirabeau/L. de Castro/H. Lobato); “Turma do Funil” (Mirabeau/Milton de Oliveira/Urgel de Castro); “Me Dá um Gelinho” (Manoel Ferreira/Ruth Amaral) “Cabeleira do Zezé” (João R. Kelly/Roberto Faissal); “Alá-lá-ô” (Nássara/H. Lobo) e “Taí”, de Joubert de Carvalho?

O amor, o preconceito, a traição, as louras, morenas e mulatas, nomes de mulher, homenagens, profissões, falta de água, luz, tudo enfim que fez ou faz parte do nosso cotidiano já foi abordado à exaustão nas marchinhas, mas sempre mantendo a originalidade, simplicidade, graça e criatividade. Daí o encanto de suas letras.

Foi pensando nisso que selecionei algumas, entre milhares, e convido você para, juntos, observarmos o recado poético que elas nos mandam. Então, vamos lá?

A primeira marcha feita especialmente para carnaval foi “Ó Abre Alas”, uma marcha-rancho de Chiquinha Gonzaga, encomendada pelos foliões do Cordão Rosa de Ouro, em 1899. Essa música é importantíssima, pois antecipou em vinte anos a fixação desse gênero musical no Brasil: “Ó abre-alas que eu quero passar/ Eu sou da Lira, não posso negar/ Ó abre alas que eu quero passar/ Rosa de Ouro é quem vai ganhar”.

O triângulo amoroso Colombina, Pierrô e Arlequim foi retratado por Noel Rosa e Heitor dos Prazeres com extraordinária veia humorística em “Pierrô Apaixonado”: “Um Pierrô apaixonado/ Que vivia só cantando/ Por causa de uma Colombina/ Acabou chorando, acabou chorando!/ A Colombina entrou no botequim/ Bebeu, bebeu, saiu assim, assim/ Dizendo: ‘Pierrô cacete! Vai tomar sorvete com o Arlequim!’/ Um grande amor tem sempre um triste fim/ Com o Pierrô aconteceu assim/ Levando este grande chute/ Foi tomar vermute com amendoim”.

As questões habitacionais sempre foram ótimo tema a ser enfocado por nossos compositores, como na espirituosa “Marcha do Caracol”, de Peter Pan/Afonso Teixeira: “Há quanto tempo não tenho onde morar/ Se é chuva apanho chuva/ Se é sol apanho sol/ Francamente, pra viver nessa agonia/ Eu preferia ter nascido caracol/ Levava a minha casa nas costas muito bem/ Não pagava aluguel nem luvas a ninguém!/ Morava um dia aqui, um outro acolá/ Leblon, Copacabana, Madureira ou Irajá!”

“Pedreiro Waldemar”, de Roberto Martins/Wilson Batista, aborda o tema pelo lado do protesto social: “Você conhece o pedreiro Waldemar?/ Não conhece, mas eu vou lhe apresentar/ De madrugada toma o trem da circular/ Faz tanta casa e não tem casa pra morar/ Leva a marmita embrulhada no jornal/ Se tem almoço, nem sempre tem jantar/ O Waldemar, que é mestre no ofício/ Constrói o edifício e depois não pode entrar”.

“Maria Candelária”, de Klécius Caldas/Armando Cavalcanti, satiriza funcionários públicos de alto escalão, hoje chamados de funcionários que têm QI (quem indica): “Maria Candelária é alta funcionária/ Saltou de pára-quedas, caiu na letra ó, ó, ó, ó, ó!/ Começa ao meio-dia/ Coitada da Maria!/ Trabalha, trabalha/Trabalha de fazer dó, ó, ó, ó, ó!/ À uma, vai ao dentista/ Às duas, vai ao café/ Às três, vai à modista/ Às quatro, assina o ponto e dá no pé!/ Que grande vigarista que ela é!…”.

Depois de anos de ditadura, tempo em que era obrigatório pôr a foto do líder da nação na parede de todas as repartições públicas, em 1945 Getúlio Vargas foi deposto. As fotografias foram retiradas das paredes. Em 50, ele candidatou-se à presidência e venceu as eleições. As fotos voltaram aos seus lugares, daí o “Retrato do Velho”, de Haroldo Lobo/Marino Pinto: “Bota o retrato do velho outra vez/ Bota no mesmo lugar/ O sorriso do velhinho/ Faz a gente trabalhar, oi!/ Eu já botei o meu/ E tu não vais botar?/ Já enfeitei o meu/ E tu vais enfeitar?/ O sorriso do velhinho/ Faz a gente se animar, oi!”

Já que estamos tratando de crítica política, vamos agora a uma marchinha que fala dos bajuladores e tem tudo a ver com o assunto: “Cordão dos Puxa-Sacos”, de Frazão e Roberto Martins, que diz: “Lá vem o cordão dos puxa-sacos, dando vivas aos seus maiorais/ Quem está na frente é passado pra trás/ E o cordão dos puxa-sacos cada vez aumenta mais/ Vossa Excelência, Vossa Eminência/ Quanta reverência nos cordões eleitorais/ Mas se o doutor cai do galho e vai ao chão/ A turma toda ‘evolui’ de opinião/ E o cordão dos puxa-sacos cada vez aumenta mais”.

Não poderiam faltar na lista duas marchinhas que fizeram sucesso duas vezes, ao serem lançadas e, mais recentemente, quando foram temas de novelas da Rede Globo: “Sassaricando”, de Luiz Antônio/Zé Mario/Oldemar Magalhães, de sentido ambíguo, é uma delas: “Sá-sassaricando/ Todo mundo leva a vida no arame/ Sá-sassaricando/ A viúva, o brotinho e a madame!/ O velho, na porta da Colombo/ É um assombro/ Sassaricando/ Quem não tem seu sassarico/ Sassarica mesmo só/ Porque sem sassaricar/ Essa vida é um nó”.

“Cadê Zazá?”, de Roberto Martins/Ari Monteiro, fala de uma “dispensada” rápida e fulminante: “Cadê Zazá, cadê Zazá?/ Saiu dizendo: ‘Vou ali e volto já’/ Mas não voltou… Por quê? Por que será?/ Cadê Zazá, Zazá, Zazá?/ Sem ela vou vender o bangalô/ Que tem tudo mas não tem o seu amor/ Sem ela, pra que serve geladeira?/ Pra que ventilador?/ Pergunto, ninguém diz onde ela está/ Cadê Zazá, Zazá, Zazá?”.

“Maria Escandalosa”, composta por Klécius Caldas/Armando Cavalcanti, junta uma bem-humorada crítica comportamental com um quê de sensualidade: “Maria escandalosa/ Desde criança sempre deu alteração/ Na escola, não dava bola/ Só aprendia o que não era da lição/ Depois a Maria cresceu/ Juízo que é bom encolheu/ E a Maria escandalosa/ É muito prosa, é mentirosa, mas é gostosa/ Hoje ela não sabe nada/ De história, de geografia/ Mas seu corpo de sereia/ Dá aulas de anatomia/ Maria escandalosa/ É muito prosa, é mentirosa, mas é gostosa”.

O duplo sentido também é marca de “Diabo sem Rabo”, de Haroldo Lobo/M. de Oliveira: “A minha fantasia é de diabo/ Só falta o rabo, só falta o rabo/ Eu vou botar um anúncio no jornal:/ Precisa-se de um rabo pra brincar no carnaval/ Já comprei lança, carapuça, comprei tudo/ Até o pé-de-pato e a capa de veludo/ Mas, que diabo! Puxa, puxa, que diabo!/ Depois de tudo pronto eu notei que falta o rabo”.

“Papai Adão”, de Klécius Caldas/Cavalcanti, comenta de forma bem-humorada a supremacia feminina: “Papai Adão, papai Adão/ Papai Adão já foi o tal/ Hoje é Eva quem manobra/ E a culpada foi a cobra/ Uma folha de parreira/ Uma Eva sem juízo/ Uma cobra traiçoeira/ Lá se foi o paraíso/ Hoje é Eva quem manobra/ E a culpada foi a cobra”.

Nas questões político-econômicas, nada melhor que um recado desaforado aos norte-americanos com “Yes! Nós Temos Bananas” (João de Barro/Alberto Ribeiro): “Yes! Nós temos bananas/ Bananas pra dar e vender/ Banana, menina, tem vitamina/ Banana engorda e faz crescer/ Vai para a França o café/ Pois é!/ Para o Japão o algodão/ Pois não!/ Pro mundo inteiro/ ”Home”ou mulher/ Bananas para quem quiser”.

Se o carnaval pode ser responsável por muitos amores desfeitos, ele também pode salvar grandes amores. Certamente ao som de “Bandeira Branca”, de Max Nunes/Laércio Alves, muitos casais ficaram de bem em um baile carnavalesco: “Bandeira branca, amor/ Não posso mais/ Pela saudade que me invade/ Eu peço paz/ Saudade, mal de amor, de amor/ Saudade, dor que dói demais/ Vem, meu amor/ Bandeira branca, eu peço paz”.

Para fechar esta série de marchinhas tão representativas dentro da história musical brasileira, nada melhor que o “Hino do Carnaval Brasileiro”, composto por Lamartine Babo: “Salve a morena! A cor morena do Brasil fagueiro/ Salve o pandeiro! Que desce o morro pra fazer a marcação/ São, são, são, são quinhentas mil morenas! Louras, cor de laranja, cem mil/ Salve, salve, meu carnaval Brasil/ Salve a lourinha! Dos olhos verdes cor da nossa mata/ Salve a mulata! Cor do café, a nossa grande produção!/ São, são, são, são quinhentas mil morenas/ Louras, cor de laranja, cem mil/ Salve, salve, meu carnaval Brasil!”.

Um supercarnaval às galeras de todas as idades, com alegria, mas também muito cuidado para não estragar o carnaval de outras pessoas e nem seu próprio carnaval!

 

Bete Bissoli é jornalista e compositora.

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