A Força Sindical nos beiradões amazônicos

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Setembro de 1996. Diretor Regional Norte da Confederação Nacional dos Trabalhadores Metalúrgicos (CNTM), Carlos Lacerda estava encarregado de organizar a Força Sindical no Amazonas e, desde o início do ano, começara a viajar para o interior do Estado para convencer os sindicalistas dos diversos municípios, quase todos controlados pela CUT, sobre as vantagens de se filiarem na central sindical adversária.

Na sua equipe de apoio, ele levava sempre os sindicalistas Vicente Filizzola, Chico Fera, Gil da Liberdade, Geraldo Pilão, Almir Pereira, Akel Antônio Akel, Giovanni Garcez e o próprio sogro, seu Sérgio, que além de ser um cozinheiro de primeira, especializado em tambaqui na brasa e matrinxã recheada, também funcionava como uma espécie de salvo-conduto.

Os áridos encontros sindicais, realizados durante o dia, eram plenamente compensados à noite, quando os sindicalistas se entregavam alegremente a farras homéricas, com direito a hordas de periguetes de todos os calibres. Nádia, a esposa de Lacerda, começou a ficar cabreira.

Um belo dia, Nádia convocou a sua família e a de Carlos Lacerda para uma reunião de emergência, porque estava disposta a colocar um ponto final no casamento de mais de quinze anos. Até o irmão mais velho de Carlos Lacerda, Humberto, que mora em Brasília, teve de viajar para Manaus a fim de participar da reunião. Com mais de 20 pessoas reunidas na sala de visitas, entre irmãos, cunhados e sogros, Nádia, visivelmente nervosa e quase chorando, iniciou sua lavagem de roupa suja:

– Gente, eu só chamei vocês aqui porque eu não aguento mais ser humilhada desse jeito pelo Carlinhos e estou pensando seriamente em me separar. Todo final de semana, o Carlinhos se reúne com um bando de machos cachaceiros, aluga um barco e vai embora de Manaus pra fazer um trabalho pra essa tal de Força Sindical. Eles saem na noite de sexta-feira e só retornam na manhã de segunda. Só que em vez de trabalhar, eles vão mesmo é farrear com um monte de vagabundas. O pior é que o papai vai com eles, vê tudo e não faz nada. O papai é cúmplice da sem-vergonhice!

Seu Sérgio, que estava participando da reunião sem saber direito do que se tratava, deu um pulo:

– Menos, minha filha, menos! – avisou. – Não sou cúmplice de nenhuma sem-vergonhice não! Eu realmente viajo com os meninos, mas fico o tempo todo no barco, não saio nem pra cuspir. Ocorre que quando eles voltam das reuniões, por volta das três hora da tarde, a gente se reúne pra almoçar. Conversa vai, conversa vem, eles me dão birita até não poder mais. E eu não sei enjeitar birita. Aí, por volta das seis da tarde, eu já estou completamente bêbado, mas eles não param de me dar birita. E eu não enjeito. Daí que acabo capotando e só acordo no dia seguinte. Como é que eu posso ver o que eles fazem depois de já estar capotado e dormindo com os anjos?…

As gargalhadas dos presentes fizeram a reunião acabar na mesma hora. Mas para preservar o casamento de Carlos e Nádia, as viagens da Força Sindical para o interior do Amazonas foram transferidas para as calendas gregas.

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