A fantástica história dos Dzi Croquettes

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Por André Miranda

O número se chamava “A baronesa e a puta”, e o ano era 1974. Como baronesa, surgiu Cláudio Tovar, vestido a caráter na representação de uma mulher de mais idade, aristocrática. Como prostituta, apareceu Ciro Barcelos, um homem musculoso, com cabelo comprido e pouca roupa.

Até aí, tudo bem, os figurinos condiziam com a proposta dos Dzi Croquettes. Mas o problema era o palco: na ocasião, o grupo se apresentava num teatro de Portugal, país recém-saído de um regime político de repressão que durara 41 anos.

– Eu mesmo fiquei chocado vendo o Ciro daquele jeito. Ele era ao mesmo tempo o homem e a mulher mais bonitos do teatro. Imagina o que representava aquilo para um português que tinha acabado de sair do Salazar… – lembra Tovar.

Se em Portugal foi assim, no Brasil não foi diferente. Surgidos em 1972, durante a vigência do Ato Institucional n 5, os Dzi Croquettes foram um grupo de artistas que se apresentavam maquiados, travestidos e até seminus. Sua formação original teve 13 integrantes – apenas cinco deles estão vivos –, e sua influência nas artes perdura até hoje.

Mesmo assim, o grupo acabou esquecido por mais de duas décadas, graças a uma daquelas injustiças provocadas pela curta memória nacional. Em 2010, porém, eles voltaram à voga, com os prêmios de melhor documentário pelo júri e pelo público do Festival do Rio para o filme “Dzi Croquettes”, de Tatiana Issa e Raphael Alvarez.

Nele, a trajetória do grupo é revista por admiradores e ex-integrantes, a partir de recordações de Tatiana, filha do cenógrafo Américo Issa, colaborador da trupe, que os chamava na infância, carinhosa e simplesmente, de “palhacinhos”. O documentário está sendo exibido no Canal Brasil.

Os “palhacinhos” nasceram do encontro do ator e dramaturgo Wagner Ribeiro com o coreógrafo e bailarino americano Lennie Dale. Ribeiro foi uma espécie de guru para jovens dispostos a se libertar do conservadorismo “tradição, família e propriedade”. Ele escrevia textos que muitos tinham vontade, mas ninguém tinha coragem, de interpretar.

Dale, por sua vez, já era uma estrela da bossa nova em 1972 e um coreógrafo respeitadíssimo do Beco das Garrafas à Broadway. Juntos, eles expandiram os limites do que se considerava um espetáculo: os Dzi Croquettes dançavam, cantavam, atuavam e, sobretudo, inspiravam quem estivesse na plateia.

– O grupo nasceu do fascínio que o Wagner e o Lennie exerciam – conta o ex-Dzi Bayard Tonelli. – A primeira apresentação foi na antiga boate Monsieur Pujol, no Rio. Era um show de variedades que durava cinco horas. Nós fazíamos uma participação, mas o sucesso foi tão grande que passamos a ter um show nosso.

Dos 13 integrantes originais dos Dzi Croquettes, estão vivos Cláudio Tovar, Ciro Barcelos, Bayard Tonelli, Benedicto Lacerda e Rogério de Poly (Poly é o único que não mora no Rio). Além deles e de Lennie Dale e Wagner Ribeiro, a formação clássica do grupo trazia Cláudio Gaya, Reginaldo de Poly (irmão de Rogério), Paulo Bacellar (conhecido como Paulette), Carlinhos Machado, Eloy Simões e Roberto Rodrigues.

O nome surgiu de uma conversa entre Ribeiro e Tonelli na Galeria Alaska, à época um tradicional point gay de Copacabana. A inspiração foi uma banda de São Francisco dos anos 60 chamada The Croquettes. Na sugestão de Tonelli, “The” se aportuguesou como “Dzi”, e “Croquettes” se manteve, ganhando apenas uma pronúncia bem brasileira. A data da criação do grupo – semioficial, de acordo com Tonelli – foi 8 de agosto de 1972.

– Éramos carne, como o croquete que se come no bar – explica Tonelli. – O nome Dzi Croquettes virou uma espécie de filosofia para muita gente. Eram duas palavras com efeito mágico.

Assim, o grupo nasceu do movimento hippie, andou de mãos dadas com o movimento gay e encarou de frente qualquer movimento conservador, comum num período de ditadura. Era Dale quem cuidava dos ensaios das coreografias, um trabalho que podia se estender por mais de oito horas num dia e que envolvia jovens de pouca experiência que tinham acabado de deixar a faculdade.

– Eu era formado em Arquitetura e estava trabalhando com cinema e com teatro. Vi os Dzi e fui falar com eles. Pedi para entrar no show. Eu ficava num canto, fazendo umas gaiatices. Fui abduzido por aquilo, era um mundo novo se abrindo para mim – conta Tovar. – Havia uma troca. Eu lembro que, na abertura do show, cada um se arrumava de um jeito diferente. Nada era muito pensado. Éramos espontâneos.

Do Monsieur Pujol, eles foram para outros palcos do Rio. Depois, para São Paulo. E, então, partiram para a Europa, a fim de ganhar o mundo. O reconhecimento vinha nas casas sempre lotadas e na admiração de estrelas como Jeanne Moreau e Liza Minnelli (esta última dá um longo depoimento ao documentário).

– Nosso espetáculo seria atual até hoje. É comum assistirmos a adaptações de musicais americanos no Brasil, mas quase ninguém mais adota um jeito brasileiro de se apresentar. Tínhamos uma linguagem antropofágica, carnavalesca – afirma Barcelos.

O grupo teve seguidores. Cerca de 50 pessoas chegaram a se declarar Dzi Croquettes — houve uma versão feminina, as Dzi Croquettas, que anos depois deu origem às Frenéticas; e teve até um advogado que usava glitter nos olhos, para se ambientar melhor com a turma.

A formação original mesmo se dissolveu depois que eles voltaram de uma temporada em Paris, contratados por um empresário baiano para shows em Salvador. A última apresentação dos Dzi, com o grupo já bem modificado, acabou sendo realizada em 1988, num revival coreografado por Barcelos a pedido de Dale.

– Muita gente associa os Dzi Croquettes ao movimento gay. Mas não era só isso. Representávamos uma libertação, um rompimento com os costumes conservadores – diz Lacerda.

Para ver o documentário, clique abaixo:

 

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