A eterna estupidez humana

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Por Millôr Fernandes

“Besta! Você é uma besta!” Besta é como aprendemos a xingar desde cedo. E chamamos de animais os que matam com crueldade, os que violentam, agridem, ferem: “O criminoso reagiu à polícia como uma verdadeira fera!” Como? Correu? Não – atirou, esfaqueou, matou.

Porco-chovinista. A hiena-nazista. Alimentei uma serpente no meu seio. “Rato!” “Cavalos, são todos umas cavalgaduras!” Pato. Cão. Teimoso como uma mula. Bêbado como um gambá. Burro. Galinha. Lesma. Lágrimas de crocodilo. Traiçoeiro como uma raposa.

Praticamente todos os animais têm sido usados pelo homem para símiles das suas próprias fraquezas e defeitos. E os animais, dóceis, continuam sua vida, ignorando que os usamos para cobrir toda a gama de nossa imensa canalhice, quando bebemos mais do que podemos, espancamos os mais francos, prevaricamos sem medida, agimos, enfim, “como verdadeiros animais selvagens”.

Talvez isso se deva ao fato de que os animais sempre nos evitaram, com raras exceções, como a do cão (um quisling animal, o Pai Tomás da espécie). Mas, agora que a história natural sabe muito mais sobre os animais, você já tentou ler, ao mesmo tempo, paralelamente, a biografia de uma família “ilustre” e a monografia de um grupo de chimpanzés? Em qualquer família “ilustre” a prevaricação sexual é a constante, a traição sentimental, a regra, o ciúme, o impulso, e a violência, resultado quase fatal.

Mas um grupo de chimpanzés do Quênia, estudado detidamente por naturalistas holandeses, mostrou que os brutos (perdão!) ficam satisfeitos com apenas seis atos sexuais por ano, já que as fêmeas só se interessam pelo assunto duas ou três vezes por mês e nem querem ouvir falar (grunhir) disso em todo o período da gestação e da lactação.

O problema, porém, vejam bem, não é saber se os gorilas são ou não melhores que o homem porque se importam menos com sexo, mas apenas mostrar que não é válido, na descrição de violência sexuais, num caso de estupro, por exemplo, dizer que o homem “cedeu a seus instintos bestiais”. O que ele cedeu mesmo foi a seus instintos humanos.

Mas, se alguns animais copulam menos, todos brigam menos do que os homens. Ainda estou para ver elefantes se adestrando militarmente para atacar leões, tigres se mobilizando para enfrentar uma horda de jacarés invasores, búfalos matando bisões por questões de fronteiras, rinocerontes vendendo chifres a girafas, e assim por diante.

Quando não se sentem efetivamente atacados, todos os animais deixam pra lá. Não brigam por conceitos, não reagem por pressupostos, não se ofendem por questões linguísticas, não matam por religiões. E, mesmo atacados por razões vitais, inúmeras vezes rugem (zurram, escoiceiam, berram), mas, assim que podem, satisfeitas as necessidades teatrais da espécie, fingem que não foi nada e dão o fora. Paz! Paz!

Mesmo os animais definitivamente vitoriosos em lutas quase nunca procuram tirar partido disso. Viram as costas e vão embora. No máximo comem um pedaço do inimigo, se for o caso; se o caso é fome. Não há condecorações, butins de guerra nem retaliações em nome do passado, tratados preservando um pasto para o futuro, colinas de Golan contestadas entre jaguatiricas e cascavéis, e, sobretudo, não há arcos do triunfo.

Pois é: já é tempo de inverter os termos e afirmar que uma pessoa é “suave como um elefante”, “maternal como uma cobra”, “tímido como um rinoceronte”, “delicado como um urso”, ou que “o coelhinho me olhou com um olhar quase humano”, isto é, de ódio ou inveja.

Pois desde a Bíblia a interpretação foi sempre contra os animais: a serpente era pérfida e perdeu o homem. E, no entanto, tudo que a serpente fez, afinal, foi contestar uma portaria aparentemente sem nexo.

Possivelmente ela teve apenas a intenção de instigar o homem a um prazer que ele até então não desfrutara. E certamente a coisa não teria o desfecho desastroso que teve (o pão com o suor de nosso rosto, etc.) se não tivesse se metido na história o elemento agressivo e agressor, o anjo com a espada de fogo na mão. Um homem!

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