A escola nem sempre risonha e franca (2)

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Por Jefferson Peres

Mas o nosso grande momento de satisfação ocorria mesmo durante o desfile da Semana da Pátria, quando o Dom Bosco era sempre o mais aplaudido. Tínhamos orgulho da vistosa farda de gala, que fazia com que nos sentíssemos integrantes de um regimento imperial. Na cabeça o quepe alto, com a pala caindo sobre os olhos e o barbicacho circundando o rosto. Sobre os ombros, as platinas azuis, com as divisas em ouro. A túnica branca, de mangas compridas, com botões dourados e as mãos calçadas com luvas de algodão. Na parte inferior, a calça azul-marinho caía sobre os sapatos pretos, parcialmente cobertos por polainas brancas. Isoladamente, o uniforme já fazia efeito, e muito mais ainda no conjunto de cerca de 1.200 desfilantes.

À frente, uma afinada banda com dezenas de tambores e cornetas, seguida de um pelotão a cavalo e, logo após, por um contingente de uma centena ou mais de ciclistas, aos quais se seguiam os pelotões a pé, entre os quais se intercalavam um cavaleiro e um porta-bandeira.

Nossa apresentação era sempre aguardada com ansiedade pelo público, que explodia em aplausos tão logo o nome do colégio era anunciado. Descíamos a Eduardo Ribeiro em estado de graça, com a mesma sensação que deviam experimentar os participantes de um triunfo romano.

Terminado o desfile, exaustos mais felizes, íamos saborear o êxito junto às alunas dos colégios femininos, especialmente da Auxiliadora, que reunia as garotas mais bonitas da cidade e pelas quais tínhamos especial, e recíproca, predileção.

Afinal, chegou o dia em que, concluído o científico, tive de dar adeus – apesar de tudo, com saudade – ao velho colégio. Posteriormente, nas poucas vezes que lá voltei, não pude conter uma funda emoção ao rever aqueles extensos corredores que percorri durante sete longos anos da minha juventude.

Chegava o momento crucial da escolha de uma profissão. Por algum tempo me senti atraído pela Medicina. Um engano, a que fui levado, talvez, pelo prestígio social de que gozava o médico naqueles anos. Ainda cheguei a estudar o programa do vestibular, que logo abandonei, ao verificar que não possuía nenhum talento para Matemática, Física e Química, todas as matérias eliminatórias.

Assim, antes de começar, dei adeus à arte de curar, fazendo meu pai economizar um gasto inútil com a minha viagem a Salvador, e poupando à classe médica o acréscimo de mais um profissional medíocre. Logo descobri que minha vocação era mesmo para a área de humanidade e cuidei de ingressar na nossa Faculdade de Direito. O que, aliás, consegui sem muita dificuldade e sem cursinhos que, ainda, não existiam. Eu havia feito um curso médio regular; a disputa não era acirrada, com a proporção de três a quatro candidatos por vaga, de forma que passei sem esforço na primeira tentativa.

A velha Jaqueira, como lhe chamávamos carinhosamente – esvaziada a palavra do sentido pejorativo original – era conservadora e tranquila. Ainda no regime seriado, o curso se escalonava em cinco turmas, cada uma correspondendo a uma série, da 1ª a 5ª. Com trinta alunos, em média, por turma, o total não ia além de cento e cinquenta. Todos se conheciam e a maioria se relacionava entre si. Não havia curso noturno.

Geralmente tínhamos duas aulas de manhã e duas à tarde, a última encerrando às 18 horas, com o sino da Igreja dos Remédios tocando o Ângelus. Os professores somavam cerca de duas dezenas e constituíam um corpo de elite, alguns deles em condições de lecionar em qualquer curso jurídico do país.

O transcurso do tempo não me fez esquecer as aulas brilhantes de Aderson de Menezes, Manuel Barbuda, Oyama Ituassú e Francisco Xavier de Albuquerque, o Xavico, este ainda muito moço, mas já mostrando o dedo do gigante. Ainda durante os meus anos de Faculdade, eles tiveram de se submeter ao crivo do concurso para o preenchimento das respectivas cadeiras, e todos se saíram bem, com exceção de Barbuda, vítima de circunstâncias adversas.

O regime seriado, então vigente, matinha os mesmo alunos juntos durante cinco anos, com pequenas modificações causadas por transferências, mortes, desistências ou reprovações. Por outro lado, como o período letivo se estendia por um ano, e não por um semestre, o convívio com os professores também era prolongado. Em algumas disciplinas se estendia por dois anos o contato com o mesmo professor que, no caso de Direito Civil, chegava a quatro anos. Como é natural, essa convivência criava fortes laços de camaradagem dos alunos entre si e com os professores.

Ao final do ano, por ocasião da última aula, a turma apresentava suas despedidas ao professor, através de um aluno designado para saudá-lo. Coube a mim, por exemplo, na primeira série, saudar Aderson de Menezes, professor de Teoria Geral do Estado, o que fiz com muita alegria porque ele era um mestre realmente fora de série.

A amizade com os professores, no entanto, era respeitosa e formal, porque o formalismo marcava o comportamento de quase todo o corpo docente. A começar pelo traje, obrigatoriamente paletó e gravata, assim como pelo tratamento que davam aos alunos, sempre polido, às vezes cordial, jamais, porém, caloroso. Intimidade, então, nem pensar.

Da formalidade no trajar não escapavam os próprios alunos, obrigados também ao uso do paletó, embora sem gravata. Para alguns a exigência constituía um pesado ônus, fosse por carência financeira, fosse por aversão ao paletó.

Um dos nossos colegas atravessou os cinco anos com um único casaco, guardado na portaria, onde ele o vestia apenas para entrar na sala de aula. No fim do curso promoveu-se uma tocante “cerimônia de adeus”. Na calçada fronteira à Faculdade, a turma inteira presente, foi solenemente incinerado o velho e amarfanhado jaleco.

Emprestava-se formalidade até às provas parciais. Os alunos não podiam entrar livremente nas salas. Tinham de aguardar no corredor, até que se procedesse à chamada, quando iam entrando e tomando assento, um a um. Em seguida, entrava a banca examinadora, composta de três professores que mandavam o bedel fazer a distribuição dos papéis de provas, e ficava-se na expectativa ansiosa do sorteio do ponto. Este era feito pelo secretário, já então meu amigo Arnaldo Rosas, que entrava na sala sopesando a urna. Com a meticulosidade habitual, Arnaldo colocava dentro as papeladas numeradas, sacudia a caixinha e chamava um aluno para sortear o ponto, que ele anunciava com o seu conhecido vozeirão. Só então a prova era iniciada.

Soleníssima era a cerimônia de formatura, geralmente no Teatro Amazonas, com mesa armada no palco, onde marcavam presença altas autoridades, inclusive o governador do Estado e toda a congregação em vestes talares.

O senso de ordem e disciplina se achava estampado no próprio edifício da faculdade, o velho casarão da Praça dos Remédios, antigo mais bem cuidado, o que se notava logo ao entrar em seu amplo vestíbulo de assoalho impecavelmente encerado.

Minha turma era coesa, com os seus integrantes mantendo um relacionamento amistoso, o que nos permitia agir quase sempre em bloco, com poucas dissensões. É curioso que, apesar disso, depois de sairmos da Faculdade jamais nos tenhamos reunido numa festa de congraçamento. Mas sei que a amizade se conservou entre quase todos.

Dentre outros, faziam parte da turma Francisco Queiroz, Arlindo Porto, Maury Bringel, Pedro Soriano de Mello, Eduardo Donald, Lucio Cavalcante, Aristóteles Mello e João Chrysóstomo de Oliveira, o mais velho de todos. O contingente feminino, formado por Yole Diniz, Moema Rabello, Elza Araújo, Maria de Lourdes Guerra, Josefina Dias e Dulce Freitas, era o mais numeroso da Faculdade, onde havia turmas que não contavam com uma só mulher. Essa presença feminina acabou provocando o surgimento de dois romances que resultaram em casamento: o de Hélio Lima com Elza, e o de Pedro Mello com Moema, a doce Moema, tão cedo desaparecida.

Tive uma vida acadêmica agitada, não tanto dentro da Faculdade, onde me limitei a participar de júris simulados e concurso de oratória, além de emprestar apoio a colegas candidatos ao Diretório. Mas fora tive intensa atuação na campanha do Petróleo é Nosso, que resultou na criação da Petrobras e na instituição de monopólio estatal.

Os comícios eram convocados pelo Centro de Estudos e Defesa do Petróleo e da Economia Nacional, que no Amazonas tinha como presidente de honra Djalma Batista, André Araújo e meu pai, Arnoldo Péres. Foi uma campanha que empolgou o país e, depois de vitoriosa, evoluiu para a defesa de outros temas, sob a égide da Frente Nacionalista, da qual fui o primeiro presidente no Amazonas.

Ao mesmo tempo, eu ajudava o Francisco Queiroz a criar um movimento de âmbito local, a Cruzada Amazonense de Resistência, de protestos contra a situação semicaótica da administração estadual. Depois de algum tempo, deixei de falar nos comícios da Cruzada, embora continuasse solidário ao movimento, atendendo a um apelo do meu pai que, por sua vez, atendia a pedidos de amigos comuns dele e do então governador Álvaro Maia.

Ao final do curso, como não poderia deixar de ser, tivemos uma festa de formatura rigorosamente dentro do figurino, cumprida uma programação que se iniciava com a missa solene na Catedral e terminava com o baile no Ideal Club. De permeio, a cerimônia de entrega dos diplomas, no Teatro Amazonas, presente toda a congregação, em vestes talares.

Foi orador da turma Francisco Queiroz que me vencera na disputa por uma diferença de dois ou três votos. Na ocasião, recebi um cintilante anel de ouro e rubi que, por algum tempo, exibi, orgulhosamente, no dedo anular, mas cedo arquivei, quando percebi que anel de grau não dá status a ninguém.

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