A enchente do rio Uaicurapá

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Também conhecido como caramujo-de-banhado, o aruá é uma espécie de caracol cuja concha pode chegar a atingir quase o tamanho de um punho. No interior amazônico, ele serve como indicativo do tamanho das enchentes.

O aruá deposita seus ovos em forquilhas de árvores semissubmersas, sendo que a eclosão dos ovos coincide com o nível máximo de subida das águas dos rios. Quando alguém avista a ova do aruá na forquilha de uma árvore já sabe que dali a água não passa.

Morador de uma comunidade rural na região do rio Uaicurapá, o agricultor e catimbozeiro Inácio Mangueira era uma referência para os moradores porque sabia tudo sobre os mistérios da Natureza. Curava rasgadura, espinhela caída e quebranto só com o poder de suas rezas. Fazia garrafadas para tratar de caxumba, impotência sexual, tuberculose e icterícia. Sabia quando ia chover só observando o canto dos pássaros.

Sua casa ficava no meio de um autêntico pomar. No terreiro da frente, uma dezena de mangueiras imponentes, de todos os tipos: manga-rosa, manga-espada, manguita, manga-tommy atkins (aquela que deixa fiapos nos dentes), manga-bourbon, manga-ubá, manga-coquinho, manga-aden, manga-coração-de-boi.

Nas laterais da casa, hortas de plantas medicinais: aroeira, boldo, capim-cidreira, quebra-pedra, carqueja, jaborandi, arnica, pau-d’arco, agoniada, manjerona, hortelã, pião-roxo etc.

No quintal, uma infinidade de pés de goiaba, araçá, marirana, cupuaçu, jambo, sapotilha, jaca, bacuri, abacate, tamarindo, mari-mari, azeitona-preta, pitomba, caju, ingá-de-metro, ingá-xixica, enfim, um verdadeiro jardim do Éden.

Quando o rio começava a subir, os caboclos batiam na sua porta, agoniados:

– Mestre Mangueira, a enchente desse ano vai ser muito braba?…

– Não, até que não… Estive olhando a ova do aruá e o rio vai subir menos do que no ano passado…

Os caboclos iam embora aliviados.

Acontece que Mestre Mangueira tinha uma porção de filhas muito bonitas e jeitosas.

Daí que, entre uma reza aqui e o preparo de uma garrafada ali, ele se descuidou do gado. Foi um erro fatal.

Uma das mocinhas apareceu prenha sem que ninguém soubesse identificar o autor da façanha.

O bucho da menina crescendo e Mestre Mangueira ficando cada dia mais injuriado.

Quando os caboclos começaram a bater na sua porta para saber o tamanho da enchente, o catimbozeiro já estava prestes a explodir.

– Mestre Mangueira, a enchente desse ano vai ser muito braba?… – perguntava alguém.

– Se vai?… Olha, tu te aprepara porque vai ser um novo dilúvio… Vai ser um desmazelo só… – respondia.

Aí, mirando a filha prenha, concluía:

– Procê ter uma ideia, esse ano o aruá depositou a ova na forquilha da Mangueira…

Até entenderem do que se tratava, muitos caboclos foram embora do rio Uaicurapá apavorados com o teor da profecia.

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