A dieta Herbalife do Ricardo Miranda

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Presidente plenipotenciário da Federação dos Trabalhadores nas Indústrias do Estado do Amazonas (FTIEAM) há mais de três décadas, o sindicalista Ricardo Miranda estava passando por mais uma dessas típicas crises de meia-idade, quando assistiu ao filme “Beleza Americana”, com Kevin Spacey e Annette Bening. Aquilo funcionou como tratamento de choque.

De acordo com a sinopse fornecida pela empresa Blockbuster, “Beleza Americana” é uma jornada engraçada e comovente através da vida num subúrbio americano. A esposa de Lester Burnham, Carolyn, o odeia. Sua filha Jane, olha-o com desprezo. Seu chefe está para demiti-lo – ou seja, o cara vive o próprio pesadelo suburbano.

Motivado por paixões proibidas, Lester decide fazer algumas mudanças em sua vida que, na verdade, são mais um renascimento da adolescência que uma crise de meia-idade. Quanto mais livre ele se torna, mais feliz fica – o que irrita, na mesma proporção, sua mulher e filha. Mas Lester Burnham está prestes a aprender que a tão desejada liberdade tem um preço bastante alto.

Ricardo Miranda não tinha nada a ver com Lester. Sua mulher o idolatrava e seu filho pré-adolescente, Ricardinho, simplesmente o achava o melhor pai do mundo. Mas Ricardo Miranda, olhando-se no espelho, começou a se achar gordo, balofo, horrendo e resolveu emagrecer. Coisas da meia-idade. Mas como Lester, ele ia aprender que o tão desejado emagrecimento tem um preço bastante alto.

Um cristão-novo, Horácio Costa, resolveu introduzi-lo (no bom sentido!) no fascinante mundo da Herbalife, a Amway das empresas de emagrecimento.

Fundada em 1980, em Los Angeles, Califórnia (EUA), a empresa tem como mote “emagreça ou morra!” e se considera a maior empresa do mundo em controle de peso, com faturamento anual de 2 bilhões de dólares.

Ricardo foi logo adquirindo o Programa Total (R$ 397,00) de redução de peso. Nas semanas seguintes, deixou de falar sobre “dissídio coletivo”, “negociação salarial”, “reforma sindical” e coisas semelhantes. Sua conversa, agora, era sobre “thermojetics”, “fiberbonds”, “fiber & herbs” e outros termos só acessíveis aos iniciados.

No primeiro mês de “reeducação alimentar”, ele perdeu 15 quilos. Ainda não era o Kevin Spacey, mas já dava pro gasto. Aí resolveu exagerar: começou a falar em “omega 3”, “xtra-cal” e “nrg tabletes”. Pra começar a pintar as unhas com esmalte incolor e se transformar em um metrossexual, era questão de tempo.

No dia em que comprou “skin activador”, um creme esfoliante pra o saco escrotal, e começou a usar a loção hidratante “body buffing”, para deixar sua pele bem sedosa e bonita, Ricardo começou a passar mal. Foi o maior sufoco. Levado às pressas para uma clínica particular, o sindicalista entrou em coma. E não foi um coma qualquer: foi um coma profundo.

Duas semanas depois, Akel Antonio Akel (presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Tecelagem), Chico Almeida (presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Brinquedos) e Almir Pereira (presidente do Sindicato dos Gráficos) começaram a discutir o futuro da entidade sindical. Já que Ricardo Miranda não ia sair mesmo do coma profundo, um deles fatalmente teria de assumir a presidência da FTIEAM. O jogo começou a ser jogado.

Almir passou nas Lojas Bemol e comprou um novo jogo de estofados para a sala da diretoria.

Cinco dias depois, Akel entrou na sede da entidade com um cofre-forte gigante e anunciou:

– Assim que o Ricardo desencarnar, vamos guardar a grana do imposto sindical aqui nesse trem!

Ninguém contestou. Chico Almeida queria mudar as fechaduras das portas, mas foi voto vencido.

Um mês depois, Carlos Lacerda, presidente da Força Sindical, estava fazendo uma visita de rotina na clínica particular para ver o estado do paciente, quando Ricardo Miranda abriu um dos olhos e sussurrou: “I’ll be back!”. Aí, voltou a dormir.

Dois meses depois, uma enfermeira adentra na sede da FTIEAM empurrando uma cadeira de rodas. Meia dúzia de funcionários da entidade corre pra sala da presidência.

Aparentemente, o sujeito que vem na cadeira de rodas está mais pra lá do que pra cá. O tumulto atrai os sindicalistas, que ficam eufóricos.

– Porra, o Ricardo está chegando pra nos dar a senha do cofre! – vibra Akel.

– Sei não, mas acho que ele veio apenas deixar a chave do prédio, companheiros! – avalia Almir.

– Se ele autorizar, eu troco as fechaduras agora mesmo! – insistiu Chico Almeida.

Estranhando os novos móveis na sala da presidência, Ricardo faz 360 graus na sua cadeira de rodas (se não usasse a rodinha de sustentação, estaria classificado para os X-Games da Califórnia) e dispara:

– Estou reassumindo a presidência hoje, companheiros, e a partir de agora a história vai ser diferente!

Akel, Almir e Chico Almeida saíram correndo da sala, como se tivessem visto um curupira montado numa mula-sem-cabeça.

Era tudo jogo de cena. Ricardo estava novamente gordo e rosado. Melhor ainda: o coma profundo não havia deixado sequelas.

Falando pra enfermeira e para alguns funcionários que permaneceram na sala, ele abriu o coração:

– Avisa pros traíras que vou ficar mais duas décadas como presidente!

E está cumprindo a promessa até hoje.

Emagreça ou morra?! Se eu fosse Akel Antônio Akel, Chico Almeida ou Almir Pereira já tinha processado a Herbalife por propaganda enganosa…

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