A cena política: drama e comédia (3)

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Bolsa Universal Fonte: Carmélia esteves de Castro Coleção: Jorge Herrán

Por Jefferson Peres

Em 1950 deu-se o esperado confronto entre os dois grandes caciques políticos do Estado: Álvaro Maia e Severiano Nunes, como candidatos a governador. O primeiro apoiado por uma ampla coligação que incluía o PSD, o PTB, o PSP e o PDC. Tinha como companheiro de chapa, para o Senado, Vivaldo Lima Filho, indicado pelos trabalhistas, que assim prestavam homenagem póstuma ao velho Vivaldo, na pessoa do filho. Severiano disputava pela UDN, junto com Leopoldo Neves, que se desincompatibilizara seis meses antes para concorrer ao Senado.

Álvaro Maia, como já disse, era um mito. Poeta, escritor, brilhante orados, dotado de grande carisma, a seu respeito circulavam histórias com sabor de lenda, desde o início dos anos 20, quando pronunciara a muito citada, mas pouco lida Canção da Fé e Esperança. Daí se originaria o movimento glebarista, muito simpático à população porque, embora sem um programa definido, tinha como mensagem a valorização dos homens e das coisas do Amazonas.

Em 1930 sua popularidade aumentaria com a firme posição que tomou contra a repressão policial aos ginasianos rebelados. Depois viriam os quase quinze anos à frente do governo, primeiro como interventor, a seguir como governador por eleição indireta e, em 37, novamente como interventor.

Deixara o Poder em 45, para eleger-se senador e tentava novamente chegar ao governo, desta vez por eleição direta. Pesava contra ele o passado de administrador sem pulso e negligente, além da fama de mau pagador de promessas. Em seu favor, no entanto, de par com o carisma, a aura de liberal, que mesmo durante o Estado Novo, com plenos poderes, jamais agira arbitrariamente para reprimir ou perseguir. O episódio do fechamento do Tribunal, na primeira interventoria, fora uma exceção infeliz, distante e quase esquecida.

Severiano Nunes era um homem comum, sem grandes dotes intelectuais e com uma biografia que não registrava lances notáveis. Mas era tido como homem de atitudes firmes, que cultivava o sentimento de amizade e por isso gozava de enorme prestígio, com um número incontável de admiradores e amigos incondicionais. Seu ponto negativo na campanha era a condição de candidato situacionista. Depois que quase quatro anos de governo, Leopoldo Neves sofrera uma erosão em sua popularidade, pelo natural desgaste do Poder, e isso se refletia na candidatura de Severiano. Tal desvantagem na capital era compensada pelo uso da máquina oficial no interior, o que tornava incerto o resultado da eleição.

Em pouco tempo a campanha empolgou a cidade, com todos tomando partido. Os comícios eram realizados diariamente, com grande afluência e transmitidos pelas emissoras de rádio para todo o Estado. Durante o dia, dezenas de carros percorriam as ruas, com altos falantes, num barulho infernal. O fundo musical eram duas marchinhas exaltando os dois candidatos ao governo. Tão fáceis de decorar que ainda hoje ressoam em meus ouvidos. A do PSD terminava assim: “E viva Álvaro Maia / E fogos e louvor / No dia da vitória / Do nosso libertador”. Ao passo que os udenistas replicavam com a sua, que começava assim: “Severiano Nunes / Nesta pugna eleitoral / Que já venceu / E há de ser / Para o Amazonas / O governo estadual.”

Mas a guerra verbal não se limitava às marchinhas ingênuas. Os discursos eram virulentos, carregados de ataques pessoais, dirigidos principalmente contra os dois líderes. Álvaro era chamado, pelos udenistas, de Cabeleira, embora suas melenas já não fossem tão bastas e viçosas como antigamente, ao passo que Severiano levava o troco, com o apelido de Frasquinho de Veneno, em alusão à sua baixa estatura. Mas o dirigente pessedista era o mais atingido, pois não poupavam sequer sua vida particular. Álvaro não revidava ataques. Seus discursos eram divagações sobre coisas abstratas, como Democracia, Liberdade e Justiça, repassadas de imagens e metáforas. Mas um dia, com a paciência esgotada, mudou de tom.

Foi num comício na Praça dos Remédios, a que assisti. Com a voz alterada, cheio de indignação, depois de relacionar as injúrias e infâmias que lhe eram assacadas, entrou na peroração, usando a segunda pessoa do plural, mas referindo-se, obviamente, a Severiano: Se fui ladrão, então, cobardes (com b mesmo), por que participastes do meu governo? Se cometi indignidades, então, cobardes, por que referendastes os meus atos? Se sou um destruidor de lares, então, cobardes, por que me convidastes para as vossas casas? Se sou um sedutor de moças incautas, então, cobarde, por que me convidaste para padrinho de vossas filhas? E por aí foi, levando a massa ao delírio a cada pergunta que fazia. Ao terminar, foi carregado e triunfo, e no dia seguinte não se falava em outra coisa. Creio que aquele pronunciamento foi uma peça importante na vitória esmagadora que Álvaro alcançaria alguns dias depois, nada fazendo prever o fim melancólico do seu governo.

Com a sua posse, no início de 51, começava um período tumultuado e cheio de incidentes. Na Assembleia, a nova legislatura prenunciava problemas sérios com a presença de dois deputados, um veterano, Alexandre Montoril, reeleito, e um estreante, Deolindo de Freitas Dantas, eleito para um primeiro mandato. Ambos representavam o município de Coari, onde se digladiavam, como adversários irreconciliáveis e rancorosos inimigos pessoais, o velho Deolindo Dantas, pai, chefe da UDN e o próprio Alexandre Montoril, líder do PSD. Poucos anos antes, essa pendência havia provocado um episódio sangrento.

Servia como delegado de Polícia em Coari o tenente Holanda, da Polícia Militar, um homem corajoso, mas violento, a quem conheci pessoalmente, nas duas ou três vezes em que esteve em minha casa, em visita a meu pai, com quem tinha um bom relacionamento, desde Codajás, onde estivera, também como delegado, e o velho, como juiz. Em Coari, o tenente, ligado à UDN e hostil aos pessedistas, gerou um clima de animosidade crescente. Um dia, acuado em sua residência por um grupo de homens armados, partidários de Montoril, reagiu à bala, ferindo dois deles, sendo assassinado, em seguida, a golpes de faca.

Anos mais tarde, aliás, um dos filhos de Holanda, aqui em Manaus, na Rua Lima Bacuri, apunhalou um dos supostos mandantes do crime, o ex-prefeito Edgar da Gama Rodrigues, que sobreviveu ao atentado. Era de esperar, assim, que não fosse pacífica a convivência de Deolindo e Montoril no Legislativo. O primeiro, inteligente, combativo, desde o início fustigou o governo pessedista com denúncias feitas na tribuna. Montoril, calmo, de poucas palavras, raramente discursava. E apesar de ser um homem de reconhecida coragem, e que andava habitualmente armado, por algum tempo evitou o confronto com o adversário.

Até que um dia solicitou um aparte, os dois altercaram, foram aos insultos, e, de repente, Deolindo partiu em direção ao inimigo, sacou o revólver, a dois metros de distância, e disparou, errando o alvo. Surpreendido, Montoril levou a mão à cintura, sendo contido por outros deputados, enquanto seu adversário corria para se abrigar atrás da mesa da presidência.

Ignorava Deolindo que Montoril naquele dia estava desarmado, pois deixava seu revólver num armeiro para consertar um defeito no cabo. Seu gesto de levar a mão à cintura fora puramente reflexo. Felizmente, a partir daí os dois adversários firmaram, tacitamente, um pacto de não-agressão e não houve mais incidentes. Além disso, pouco tempo depois, Deolindo tinha interrompida sua promissora carreira politica, ao perder a vida num acidente de barco nos arredores de Manaus.

Enquanto isso, o governo começava a se deteriorar. Denúncias choviam de todos os lados, principalmente da área de saúde, e um dia os hansenianos ofereceram um espetáculo chocante ao desfilarem pelas ruas da cidade, em protesto contra as péssimas condições do leprosário Antônio Aleixo.

Ainda que a passeata tivesse surgido de manipulações políticas, como querem alguns, o certo é que se a situação fosse boa o movimento não teria obtido a adesão dos doentes. Por isso, Arthur Virgílio Filho, na condição de líder do governo, pediu uma Comissão Parlamentar de Inquérito e se indicou para a presidência da mesma. Depois de amplas investigações, a Comissão apurou graves irregularidades, que não provocaram nenhuma providência da parte do Executivo. Em consequência, Arthur renunciou à liderança e rompeu com o governo.

Seus inimigos o acusaram de ingratidão, por haver, supostamente, recebido benefícios do governo. Sempre cioso da sua dignidade, Arthur escreveu uma carta ao governador, indagando se alguma vez lhe pedira favores pessoais. Álvaro Maia, com a elegância peculiar, respondeu pela negativa. A partir daí, a situação degringolou. Os erros administrativos, agravados pela grande enchente de 53, que causou sérios danos à frágil economia do Estado, levaram as finanças públicas ao colapso.

Atrasaram-se os pagamentos de fornecedores e funcionários, cujas famílias passavam terríveis privações. Havia filas de servidores na então Secretaria de Finanças, em busca de vales, e era comum ocorrerem desmaios de pessoas literalmente com fome. Nas repartições públicas os chefes perdiam o controle sobre os subordinados, a quem tinham de liberar, nas horas de expediente, para que fossem lutar pela sobrevivência. A administração ficou à beira do caos.

Num quadro assim, é fácil imaginar que o governo, sem sustentação popular, marchasse para um desastre eleitoral. Surpreendentemente, porém, foi quando ocorreu a reaproximação dos velhos rivais, Álvaro e Severiano, que selaram um acordo PSD-UDN, para lançar mais uma vez o nome de Ruy Araújo como candidato ao governo, numa aventura que se delineava suicida.

Do outro lado, o PTB , rompido com o governo, lançava a candidatura de Plínio Coelho, com amplo apoio popular, na capital e forte penetração no interior, onde se beneficiou das inconciliáveis rivalidades paroquiais, que levaram muitos chefes pessedistas e udenistas a se bandearem para o PTB, desgostosos com a aliança udeno-pessedista. As urnas deram consagradora vitória a Plínio, que no início de 55 entrava no Palácio Rio Negro, inaugurando em nosso Estado a era populista, sobre a qual não falo por ultrapassar a fronteira que fixei, no tempo, como limite para este trabalho.

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