A baronesa descalça

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Por Edney Silvestre

A avó de uma amiga minha era louca por garçons. Baronesa comportadíssima na juventude, viúva seriíssima aos quarenta, ao atravessar os cinquenta foi acometida dessa peculiar síndrome erótica.

Talvez fosse a gravata-borboleta, quiçá o branco Summer engomado que lhe recordava elegantes tempos passados, onde os cavalheiros se apresentavam mais formalmente. A gentileza? A afabilidade? As maneiras polidas?

Fosse o que fosse, seria exagero chamar de compulsão erótica, suponho. Era mais um fervor romântico. Que jamais, diga-se de passagem, ultrapassou os umbrais da decência. Pelo menos até onde se sabe.

Não é o caso de Alexis.

Umbrais, fronteiras, muros, já pulou tudo. Igualmente herdeira de um título nobiliárquico (europeu; o da avó de minha amiga era do agora definitivamente sepultado, após um inacreditável plebiscito, império brasileiro), é uma pessoa, digamos, para quem as barreiras de classe social nunca foram empecilho a uma integração íntima que poderia ser chamada, no mínimo, de descaradamente democrática.

Como um personagem de E.M. Foster (ou o próprio) encarnado em Ava Gardner após um longo estágio com Tennessee Williams, a baronesa Alexis atravessou bares e restaurantes de Lisboa a Viena – sem contar os pubs de Londres a Glasgow –, deixando um rastro de ensandecidas aventuras amorosas que fariam corar o mais libertino fauno. Sua generosidade incluía a partilha da conta bancária da família com aqueles com quem dividia os lençóis.

Um dia, evidentemente, seu dote se tornou esquálido para tanta magnitude. Sua única irmã, casada com um plebeu e esperto financista londrino, recusou-lhe empréstimos. Mas ofereceu opções: Alexis lhe passava a tricentenária casa de campo da família, em troca de depósitos regulares em uma conta bancária. Alexis disse sim.

Havia um outro requisito, este motivado pela atitude pudibunda do cunhado. Alexis deveria ficar fora não apenas da Inglaterra como mesmo do continente europeu. E foi assim que Alexis veio parar na América.

Tudo isso se passou nos anos 70, aquela década mítica onde o sexo era uma alegre festa sem hora para terminar. Em Nova York, onde Alexis se instalou, havia uma atração extra. Um bom número de garçons eram – são até hoje – atores ou modelos que fazem dinheiro certo servindo mesas.

Alexis logo descobriu que também eram abertos a servirem-se aos fregueses.

Um destes queria montar uma peça (dois personagens, um teatro pequeno no Greenwich Village). Alexis lhe emprestou o dinheiro. A peça foi um fracasso. Mas foi vista por um produtor de Hollywood que se apaixonou pelo garçom/ator moreno de ombros largos e levou-o para um teste no estúdio que comandava.

Hoje, entre altos e baixos, o garçom/ator virou celebridade, produz seus próprios filmes, casou-se com uma pintora e depois com uma modelo mais jovem, continua bem-apessoado e, talvez por causa dos precoces cabelos grisalhos, ganhou uma certa dignidade na opinião de muitos. Existem, contudo, aqueles que acharam que ficou apenas com ar de gigolô americano envelhecido.

Um garçom a mais ou um garçom a menos não gerou mudanças na estrada que Alexis continuou percorrendo em alta velocidade: na cidade que tem mais de mil restaurantes, havia sempre um novo a experimentar, uma equipe nova a conhecer.

A variedade de refeições nova-iorquinas de Alexis era ilimitada: mexicanos, japoneses, indianos, irlandeses, vietnamitas, libaneses, cubanos, portugueses, chineses, coreanos, caribenhos, brasileiros, poloneses, russos, espanhóis, argentinos, tailandeses, texanos, abissínios, alemães, afegãos. Seu apetite, insaciável. Até que um dia Alexis desapareceu.

O ano era 1985, época da mais negra razzia causada pela AIDS. Sem resposta às cartas que escreveram para sua irmã, os amigos acabaram concluindo pelo pior. Alexis ficou em algum lugar do passado, junto com as discotecas, as canções dos Bee Gees e Gloria Gaynor, o cheiro de poppers, a peruca platinada de Andy Warhol, o canhão de confetes do Studio 54, o despreocupado fazer amor sem preservativos.

Às vésperas do réveillon de 1990, um destes amigos desembarcou em Providencia, uma ilha no Caribe, de propriedade da Colômbia.

O lugar, que um dia foi presente de Elizabeth I ao pirata Francis Drake, é pouco menor que o bairro do Leblon. Ao sul, ele tem um povoado, onde fica o único hotel de meia dúzia de quartos, quase todos ocupados, não importa a época do ano, por turistas italianos. Ao norte, separada por uma floresta tropical, está a vila de pescadores, um belo povo alto e forte, descendente de tribos africanas, que fala com igual fluência o espanhol e o inglês.

Por lá, bem à beira de uma praia sombreada por coqueiros altíssimos, há uma birosca onde é possível tomar piña colada e comer lagosta, a especialidade da casa. Por trás do balcão, com roupas à maneira nativa, estava a única pessoa branca no lugar.

Aliás, rósea.

– Foi um coup de foudre – resumiu Alexis para o boquiaberto amigo. – E Ramón nem era garçom.

Sólido exemplar de virilidade, Ramón foi entregar uma pizza no andar onde Alexis morava, justo no momento em que a loura figura saía para jantar. Era o primeiro trabalho que o rapaz conseguira, recém-chegado de sua minúscula ilha. Foi o último. A pizza nunca chegou ao destinatário, e cinco tórridas noites depois ele embarcava de volta para Providencia. Com Alexis nos musculosos braços mulatos.

Se o amor existe e é essa intensa conjunção carnal que até hoje inflama o leito de Alexis e Ramón, quem sabe outras baronesas poderão ser atropeladas pela felicidade na mesa do próximo restaurante?

Ou no corredor do prédio onde moram.

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