A arte do lero

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Por Xico Sá

Ainda abestalhado com a leitura de Chá das cinco com Aristóteles, este carapuceiro deixa as suas dicas sobre a arte da conversa em mesa de bar, tablados praieiros, sombreiros praianos e alhures. Sem cerimônia, fizemos um rearranjo para os dias que correm, a levar em conta a realidade dos tristes trópicos, das sugestões do velho dândi O.W, o antidablió, Oscar Wilde, aquele que nunca perdeu por ausência.

  1. W. escreveu artigo sobre o tema em crítica ao livro The Principles of the Art of Conversation: A Social Essay, de um tal de J. P. Mahaffy, publicado em 1887 na Inglaterra.

Como a arte da boa conversa está cada vez mais em baixa – e é tão necessária como o silêncio elegante em uma pista ou salão de danças – ensaiamos um madureza ginasial completo sobre o tema. É triste a ausência de prosa ou o bodejar inoportuno de certos senhores – só às mulheres excepcionais é permitido uma prosódia marcada por elipses preguiçosas (intervalos para cafunés) ou até mesmo o sábio silêncio, quando metidas em náusea ou tédio bem particulares.

“A este falta café.” Assim os espanhóis do tempo de Mariano José de Larra (o maior articulista de costumbres de Espanha, escriba do século XIX) reclamavam dos ruins de papo, atribuindo a culpa à ausência do hábito de frequentar rodas de bares e cafés de Madri. É realmente na cachaça, entre os amigos ou adversários cordiais, que adquirimos tal arte. Ao nosso pequeno manual, pois.

1) Um ligeiro gaguejar pode até oferecer um entusiasmo peculiar à conversa, ampliando o suspense nas suas boas palavras.

2) Nada pode ser mais irritante do que um pesquisador que diz o tempo todo: “Exatamente!, exatamente!!”

3) Nunca diga “Não tenho nada contra isso, mas…”. Adversativa imperdoável.

4) Nunca diga “No meu tempo…”.

5) Nunca termine uma sentença com um inescrupuloso “Você não acha?”.

6) Evite o samba-exaltação na linha “Encantador, encantador!”. Murmúrio de pseudo-artista.

7) Nunca seja escrupulosamente sincero ao ponto de questionar cada fato e corrigir qualquer impropriedade.

8) O mentiroso de qualquer espécie sabe que a recreação, e não a instrução, é a alma da conversa, e acaba sendo muito mais civilizado do que o cabeça-dura que fica alardeando sua desconfiança em relação a uma história que é contada apenas para entreter a plateia.

9) Nelson Rodrigues e outras usinas de boas frases. Citações ad infinitum, evitemos, pois. Prefira o naturalismo-realista e conte histórias ou situações do seu próprio cunhado safado.

10) Quando o tema for psicodelia, ácido, ecstasy etc. vire a cara para os sebastianistas que indagam algo do gênero: “Mas essa droga tem volta?”

11) Ninguém, nem mesmo nas cidadezinhas do interior, tem a permissão de fazer uma pergunta inteligente a respeito de matemática pura na mesa de jantar.

12) Evite excesso de virtude. Sujou.

13) Cuidado: a timidez pode ser uma forma de vaidade, e a reserva o desenvolvimento do orgulho.

14) A simpatia é igualmente dispensável, a não ser em letras antigas de Jorge Ben. O que pode ser mais detestável do que um homem ou uma mulher que insiste em concordar com todo mundo e faz da discussão – patente marxista – que implica em várias opiniões, algo completamente impossível?

15) Evite perguntas nada edificantes como na linha “Você faz o quê?, Trabalha com quê?” etc. e derivativas. Principalmente nos tempos que correm, com tanto desemprego. À mesa, vale o dilentantismo, nada de trabalho e os dias.

16) Te vira, nego!, como sopra meu chapa Beto Azoubel.

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