A arraia do Zé Guedes

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Falecido no ano passado de complicações renais, o artista plástico e escultor Zé Guedes, parecidíssimo com o ator Walmor Chagas, era primo do Xisto Filho, renomado militante do PCB nos anos de chumbo, e irmão do jornalista Inácio Guedes, editor do jornal A Tropa, que durante muitos anos fustigou as elites locais da Velha Serpa.

Aos 75 anos, mas com um corpinho de 50, Zé Guedes era praticante de ioga, corria semanalmente 30 quilômetros, pedalava outros 100 km, não fumava, bebia com moderação e parecia ser viciado em carne de paca. Era capaz de detonar cinco pratarrazes do acepipe num piscar de olhos.

Nascido em Itacoatiara, ele morou em Manaus (se formou em Contabilidade em 1961), mas passou o maior tempo de sua vida no Rio de Janeiro. Sua história daria um livro fascinante.

Entre outras façanhas, Zé Guedes morou durante seis anos dentro de um trailer, no camping do Recreio dos Bandeirantes da rede Camping Clube do Brasil, quando, pelo regulamento de uso do clube, só poderia ficar, no máximo, 30 dias. Uma de suas filhas nasceu lá e detém o título de “mais jovem campista a se hospedar no CCB” (tinha três dias de nascida).

Ele também veio do Rio de Janeiro a Manaus, pelo litoral, no início dos anos 90, sem um tostão no bolso, pilotando uma Caloi 10 – aro 700, a bicicleta estradeira por excelência, em uma viagem que levou três meses.

Em troca de alimentação, pernoite e utilização do banheiro, Zé Guedes realizava pequenos serviços domésticos (lavar pratos, varrer salões, capinar, recolher o lixo etc.) nos restaurantes de beira de estrada e em casa de pescadores ou lavradores.

Aqui na taba, ele montou uma empresa de confecção de brindes e bonés, que chegou a ter 32 funcionários, e tinha entre seus clientes as grandes empresas do Distrito Industrial (Moto Honda, CCE, Yamaha, Recofarma).

Em 1995, com a quebradeira do México e seus respingos no Brasil (a tal “crise sistêmica” de que nos falava o presidente FHC), o próspero negócio do Zé Guedes foi pro vinagre. Com a crise, as empresas cancelaram os pedidos e ele foi obrigado a se desfazer do negócio.

Se o senhor não está lembrado, entre 1995 e 2000, o governo brasileiro gastou mais de R$ 30 bilhões, algo equivalente na época a 2,5% do Produto Interno Bruto (a soma de todas as riquezas produzidas pelo país), com o Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional (Proer). Atualizada, essa dinheirama atingiria hoje a casa dos R$ 80 bilhões.

Serviu para tapar o rombo de sete bancos (Nacional, Econômico, Bamerindus, Mercantil, Banorte, Pontual e Crefisul) que acabaram incorporados por outros. O PT esperneou como diabo. Acusou o governo de usar o dinheiro do contribuinte para livrar a cara de banqueiros acostumados a ganhar com a inflação e que não haviam se preparado para conviver com a estabilidade da moeda assegurada pelo Plano Real. Houve até CPI a respeito. Não deu em nada. Zé Guedes, que não era banqueiro, perdeu tudo.

Ele voltou para o Rio de Janeiro assim que se livrou das dívidas trabalhistas. Novamente sem um tostão no bolso, novamente de bicicleta, novamente pelo litoral, em uma viagem que, dessa vez, durou três anos.

É que ele se apaixonou por João Pessoa (PB) e ficou morando em uma praia durante quase três anos. Se alimentava exclusivamente de coco verde e dos peixes que fisgava. E era uma de suas histórias de pescador que mais chamava a atenção dos seus amigos.

A presepada aconteceu no Rio de Janeiro, nos anos 80, quando ele morava no citado trailer do Recreio dos Bandeirantes e era considerado o “rei do molinete” das praias cariocas.

Zé Guedes estava na sua luta diária pelo “peixe nosso de cada dia”, quando fisgou uma arraia de mais de dois metros de comprimento.

Depois de meia hora de luta, consegui puxar a monstruosa criatura até a praia, onde, depois de tirá-la do anzol, deixou-a emborcada, de ventre pra cima.

As arraias – ou raias – são peixes fora do desenho clássico, mas da mesma subclasse dos tubarões, dos quais diferem pelo formato achatado de corpo e pela localização das fendas branquiais.

Elas possuem cauda longa, que, na parte superior, junto ao corpo, apresenta um, dois ou mais ferrões. Visíveis ou não, essas armas estão perigosamente preparadas contra a vítima, homem ou animal, que nelas esbarra ou que perturbe os peixes que as possuem.

Ao longo do ferrão, dezenas de pontas recurvadas. Assim, esses ferrões serrilhados penetram nos músculos e aí se fixam como anzóis. Nas bases desses pequenos anzóis, estão glândulas que injetam na vítima um veneno violento, semelhante ao das serpentes.

Ao contrário das espécies marinhas, que nem sempre têm ferrões, as arraias de água doce possuem ferrões desde seu nascimento e, se de algum modo é danificado, ele se desprende e cresce um novo.

Pois bem. Zé Guedes estava tentando fisgar um verdadeiro peixe nobre (badejo, robalo, enchova) para o almoço, quando um crioulo parrudo, de quase dois metros de altura, pesando uns 150 kg, de bermudão, sandálias Havaiana e camiseta do Flamengo, se aproximou, examinou a arraia detidamente e arriscou:

– E aí, “da vara”, quer vender o peixe?…

– Não, não quero vender não – explicou Zé Guedes. – É pra consumo próprio.

O negão não arredou o pé, fascinado com a movimentação da arraia, nos seus estertores finais. Insistiu:

– Pago R$ 50 pela bichinha…

Zé Guedes fez que não ouviu.

O negão se acocorou ao lado da arraia, acariciou seu (dela) ventre com carinho e insistiu, mais uma vez:

– Pago R$ 100 pela bichinha…

Zé Guedes fez que não ouviu.

O negão, esfregando as duas mãos, sem tirar os olhos da arraia, começou a ficar impaciente.

– Pô, gente boa, não me sacaneia! Daqui a pouco você pega outra… Eu pago 300 paus pela bichinha, que é tudo que tenho na carteira…

Zé Guedes ficou cismado:

– Porra, meu, você deve gostar muito de guisado de arraia… Essa merda tem pouca carne… Com essa grana, você compra 30 quilos de filé de anchova, que é muito melhor do que arraia…

O negão, de olhos lúbricos, boca seca, quase arfando, abriu o jogo:

– Eu não quero ela pra comer não, campeão! Eu quero ela é pra foder!

Aí, apontando para uma fenda branquial que a arraia possui na parte de baixo do ventre, atrás da parte anterior das nadadeiras peitorais, explicou.

– Essa bucetinha da arraia é a melhor coisa do mundo. O cara que come uma vez, nunca mais quer saber de outra coisa na vida…

Zé Guedes garante que não vendeu a arraia pro negão, mas ficou uma dúvida no ar entre os ouvintes da história de pescador: curioso por natureza, será que ele não quis tirar a prova dos nove e conheceu biblicamente a tal arraia? Se sim, como fez para não levar uma ferroada no lombo?

Aqui no Amazonas, são comuns as histórias de ribeirinhos que mantêm relações sexuais com as fêmeas do boto-vermelho, aquele simpático golfinho que o Jacques Cousteau batizou de “boto cor-de-rosa”.

No Nordeste, o “barranqueamento” de éguas, vacas e cabritas faz parte da iniciação sexual dos moleques da zona rural. Mas foder uma arraia, fala sério, foi a primeira vez que ouvi falar.

Tenho muita curiosidade em saber se os meus brothers Tagore e Romero Arruda, que moram em Goiânia, conhecem alguma história a respeito dessa nova modalidade (para mim) de bestialismo.

Porque, pelo número de arraias que existe no rio Araguaia, aquilo deve ser um verdadeiro harém do rei Salomão para quem gosta do esporte…

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