500 anos ferrando os grumetes

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Por Ângelo Machado

– Quando Cabral seguiu para as Índias deixou no Brasil dois degredados – afirmava meu antigo professor de História citando a famosa Carta de Caminha. – Assim – continuava o professor em tom de zombaria – os primeiros europeus que viveram no Brasil foram assassinos.

Durante anos essa afirmação me incomodou, até que, há pouco tempo, descobri que o professor não leu toda a carta, pois nela consta que, com os dois degredados, ficaram também dois grumetes (crianças de 9-15 anos) que fugiram para a terra em um barco. Lamentavelmente pouquíssimos historiadores, entre os quais destaco Eduardo Bueno, referem-se a este fato, para mim de grande significado simbólico. Dois adolescentes, duas crianças, dois marcos positivos na onda de sacanagens que se seguiram à chegada dos portugueses na Terra de Santa Cruz. E ninguém lembra disso.

Por que será que fugiram? Para alguns, os meninos foram atraídos pelas belezas da terra e principalmente das índias. Não acredito nessa hipótese. Pois se os próprios degredados ficaram chorando quando viram-se largados numa terra inóspita e desconhecida, quanto mais duas crianças que pretendiam chegar às Índias.

Acredito sim, que eles fugiram dos maus tratos que usualmente sofriam as crianças que viajavam nas caravelas da época, a quem cabia as piores tarefas do navio e que, frequentemente, eram açoitadas e castigadas pelos oficiais, marujos e degredados de bordo. O mais provável é que tenham fugido dos abusos sexuais frequentes nas caravelas onde não era permitida a presença de mulheres. O triste é que, decorridos mais de quinhentos anos, fatos como esses continuam a acontecer nas delegacias, nas Febens e, o que é pior, em muitos lares de nossas melhores cidades.

A diferença é que hoje as crianças fogem para a rua. Em 1500 fugiram para a floresta, preferindo conviver com índios primitivos e canibais, do que com os “civilizados” de bordo. O que foi feito desses dois grumetes? Nada se sabe. Podem ter sido adotados pelos próprios índios, como sugere Bueno, ou simplesmente morrido. De qualquer modo não há referências, como as há sobre os dois degredados, que foram levados de volta a Portugal pela expedição de Gonçalo Coelho e Américo Vespúcio, menos de dois anos depois.

Assim, esses dois meninos surgem como os pioneiros da luta de nossas crianças contra os maus-tratos e os abusos que sofrem até hoje. Só nos resta esperar que nos próximos 500 anos os direitos da criança e do adolescente venham a ser respeitados nessa imensa caravela que é o nosso país.

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